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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

"Chabrol fazia uma crônica ácida da burguesia francesa"

Stéphanie Saramago - Do Portal

14/10/2010

 Reprodução/Internet

Principal precursor do movimento Nouvelle Vague, o cineasta francês Claude Henri Jean Chabrol faleceu no último dia 12 de setembro, aos 80 anos. A causa de sua morte não foi divulgada. O cineasta mudou a maneira de fazer cinema na virada dos anos 1950 e 1960. Chabrol transformou a perspectiva política do cinema, e principalmente o compromisso que a sétima arte tinha com a vida e com o mundo.

O Portal conversou com o professor de cinema do Departamento de Comunicação Social Hernani Heffner, que ressaltou a importância de Chabrol para a história do cinema mundial. Segundo Heffner, o cineasta fez em seus filmes uma “crônica ácida” da nova burguesia francesa, que ele retrata como uma classe cínica e violenta. Já no primeiro longa-metragem da Nouvelle Vague, Le Beau Serge, Chabrol trás a tona essa denúncia.

Além disso, segundo o professor Heffner, Chabrol vai firmar a liberdade de câmera. "A câmera aparece em seus filmes como um narrador autônomo", afirmou.

Além de diretor, Chabrol foi roteirista, ator e produtor de filmes. Para Heffner, algumas de suas principais obras como Le Beau Serge, Les Cousins, Diabólicas, Dr. Mabuse são filmes que se tornaram referências para nossa época.

  Stéphanie Saramago

Portal PUC-Rio: Qual foi a importância de Chabrol para o cinema?

Hernani Heffner: Claude Chabrol é um dos grandes nomes da historia do cinema francês. É um nome umbilicalmente ligado a Nouvelle Vague. Esse movimento não só transformou o cinema Francês, como transformou o cinema mundial na virada dos anos 1950 e 1960. Fez parte do grupo original da Nouvelle Vague, junto com Rivette, Jean-Luc Godard e François Truffaut. Era considerado pelos companheiros uma espécie de grande consciência no sentido prático da realização cinematográfica, ali do grupo, do movimento, daquele momento. Chabrol era uma pessoa de classe média, casou com uma milionária, enriqueceu da noite para o dia e usou esse dinheiro pra ingressar no cinema e para arregimentar forças para esse grupo de jovens ingressarem na área e começarem a apresentar ali as suas ideias e criações cinematográficas. Chabrol fez o primeiro longa-metragem da Nouvelle Vague. Antes mesmo de Os incompreendidos de Truffaut, Chabrol fez o Le Beau Serge, que é um filme realizado em 1958 e lançado em 1959, em torno do Festival de Cannes de 1959. Já em Le beau serge, Chabrol firma um lado extremamente importante da Nouvelle Vague, o de uma crônica ácida sobre a sociedade francesa, e em particular da nova burguesia francesa. Essa emergiu com a sociedade industrial pós-II Guerra Mundial, e que, na visão dele, é uma camada extremamente hipócrita. Chabrol vai dizer que por trás da cortina tem um universo que é completamente podre, hipócrita e falso, que não tem compromisso político, ideológico, social. Que só existe apenas para se servir dos benefícios de todo esse processo. Nesse sentido, ele vai denunciar a classe burguesa, como uma classe amoral, cínica, extremamente violenta. Para ele, quando essa burguesia deseja impor suas premissas, ela se serve da violência sem pudor algum.

Portal: Como ele traduz toda essa crítica em seus filmes?

HH: Ele traduz isso numa espécie de crônica e numa espécie de retrato particular das encarnações dessa burguesia. Para ele, a burguesia tem um sistema de valores que se reflete na figura do pai, na figura do juiz, na figura do policial, na figura de algum detentor de poder. Quer dizer, no seio da família burguesa que parece completamente harmoniosa, toda certinha, de repente o pai aparece batendo em alguém, puxando a faca, atirando. Chabrol trás à tona essa denúncia a partir de Le Beau Serge. Uma grande referência do cinema de Claude Chabrol vai ser justamente essa remissão ao poder. Por exemplo, ele usa muito Fritz Lang, chegou inclusive em um determinado filme a usar o personagem mais famoso de Fritz Lang, que é o Dr. Mabuse, que é a encarnação desse mau que é o Estado, a autoridade. É um cineasta que valoriza o gênero e o comprometimento com o cinema político, com o cinema de exame social. Ele revela o quanto as aparências enganam, o quanto essa burguesia é desastrosa no seu comportamento cotidiano. É um cineasta que celebrizou também o trabalho com atores. Uma das mulheres de Chabrol foi uma de suas atrizes. As figuras femininas vão espelhar essa aparente contradição, esse paroxismo que o Chabrol quer reafirmar, no ser mais frágil, que o ser aparentemente mais cândido tem a brutalidade maior. Ele é um cineasta muito ligado àquela intenção da Nouvelle Vague de mudar a maneira de fazer cinema, de mudar a perspectiva política do cinema, de mudar na verdade o compromisso que o cinema tinha com a vida e com o mundo.

  Stéphanie Saramago

Portal: De que forma a obra de Claude Chabrol se relaciona com o contexto histórico da época?

HH: A Nouvelle Vague aparece em um momento de extrema transformação social, não só no Ocidente, mas a partir desse momento, no mundo inteiro. É um momento de erupção de uma nova figura social, que é o jovem. Essa geração da Nouvelle Vague é uma geração jovem, e que vai falar de um jovem contestador, de um personagem que denuncia a hipocrisia desse status quo. A grande cidade vai ser o grande cenário da Nouvelle Vague, e de maneira geral nos cinemas novos no mundo inteiro. Na verdade, você vai discutir o projeto utópico, que no caso francês não é só um projeto de capitalismo, de uma sociedade de bem-estar. É também o projeto da Revolução Francesa, que trás a ideia de que se chegará a um estado de liberdade plena, de fraternidade plena, a uma sociedade perfeita. Esses jovens da Nouvelle Vague são extremamente descrentes dessa possibilidade, porque eles entendem completamente a lição neorealista. Eles entendem que a segunda guerra mundial foi um cenário de horror, uma brutalidade sem paralelos na historia da humanidade. Aquilo ali é na verdade a crise do projeto capitalista utópico ocidental. A Nouvelle Vague é muito calcada em viver o momento. Então Chabrol diz: “Eu tenho que viver esse momento, mas eu também tenho que saber que esse momento é trágico, essas pessoas são trágicas e quem está no poder do país, no caso a França, é igualmente trágico.” Tudo isso é uma capa para um conservadorismo completamente autoritário, para um mundo que se organiza em função do capital, e não em função do desejo. Isso é a grande discussão dos anos 1960.

Portal: Quais as contribuições de Chabrol no terreno da narrativa cinematográfica?

HH: A Nouvelle Vague vai afirmar, sobretudo, a liberdade da câmera. É o momento em que a câmera se torna um narrador completamente autônomo, em relação à trama narrativa. A Nouvelle Vague vai afirmar um comentário sobre o que é o cinema, sobre como o cinema se faz. Um intertexto típico dos filmes de Chabrol é o filme de suspense "hitchcokiano". Antes de se tornar cineasta, Chabrol escreveu um livro sobre Hitchcock que foi publicado em 1957. Logo, essa estrutura de gênero em vez de ser reapresentada, vai ser reapresentada e comentada. Comentada em seus truques, em seus sentidos e valores. A Nouvelle Vague também vai afirmar um processo de desconstrução da narrativa clássica. E vai perguntar ao espectador: “Você não sabe que tudo isso é uma ilusão”?  Se você sabe que tudo isso é uma ilusão, por que continua acreditando naquilo que está se apresentando aqui como ideia. Você tem que acreditar refletindo sobre isso. Chabrol vai se inserir plenamente na Nouvelle Vague porque vai abraçar esse tipo de estratégia.

 Stéphanie Saramago  

Portal: De que forma a Nouvelle Vague influencia a atual produção cinematográfica?

HH: A influência ainda é grande. Se você pegar a atual geração do cinema francês, eles ainda lidam com cineastas como Chabrol, Godard, Truffaut não simplesmente no sentido de repetir, mas no de retomar a ideia que o cinema é uma arte, de retomar uma criatividade intrínseca, de explorar as possibilidades do meio. A Nouvelle Vague se beneficiou muito com a câmera leve, com o gravador portátil, com o zoom. Então tudo ficou mais simples e mais prático. Da mesma maneira agora, no inicio do século XXI, tudo se transformou em um material, em uma base tecnológica muito mais simples com o digital. Não é exatamente a mesma estética, mas é a mesma atitude. Como naquela época, hoje você tem uma geração cinéfila.

Portal: A Nouvelle Vague foi pensada ou surgiu espontaneamente?

HH: A rigor, o movimento foi arquitetado por esse grupo, não se pode dizer que foi espontâneo. A rigor nada é espontâneo. No caso da Nouvelle Vague, ela surge como um conjunto de textos, um conjunto de posicionamentos, que começam, sobretudo ali em 1954, com um famoso texto de François Truffaut, chamado “Certa tendência do cinema francês”, publicado na revista Cahiers du Cinéma que projetou todos esses cineastas. Nesse texto, Truffaut vai arrasar com o cinema de indústria, com o cinema de estúdio, o cinema clássico francês, que se fazia ali até meados dos anos 1950. Eles vão tentar explorar novas perspectivas para o cinema. Embora não se considerassem um movimento ou uma escola, você pode dizer que eles eram um grupo muito bem organizado. E havia uma afinidade, pessoal, ideológica.