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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

“Ser escritor foi um acidente em minha vida”

Isabela Sued - Do Portal

07/10/2010

Bruno Alfano Formado também em tornearia mecânica, Luiz Ruffato entrou no curso de comunicação social por acidente e escreveu, em 2001, o romance Eles eram muitos cavalos. Nove anos depois, após publicar a obra também na Itália, na França e em Portugal, a editora Record relança o livro de Ruffato, agora em edição de bolso.

Eles eram muitos cavalos, para mim, é um livro que marca uma maturidade intelectual no país. Quando resolvi escrever sobre a vida operária, não consegui achar, na literatura, livros que tratassem somente dessa classe de uma maneira fiel à realidade. Além disso, o livro, que teoricamente se aplica na categoria de romance, tem textos desconexos que alguns preferem chamar de contos, mas que sempre vão ganhar um significado diferente dependendo da perspectiva de quem os lê – afirmou o escritor mineiro.

O autor explicou que o livro é uma tentativa de explorar uma sociedade em que as coisas não têm começo, meio, nem fim. Segundo ele, a literatura é fragmentada porque tenta representar o homem contemporâneo, que além de fragmentado é também individualista. A intenção de Ruffato foi desconstruir a narrativa através de textos desconexos.

– Eu nunca tive aquele sonho de ser escritor desde os cinco anos de idade. Ser escritor foi um acidente em minha vida. Na verdade, minha primeira formação foi em tornearia mecânica. Eu e o Lula, aliás, somos formados nesse curso – contou o autor.

Isabela Sued O título da obra se originou em um dos poemas da coletânea Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meirelles. “Eles eram muitos cavalos, mas ninguém mais sabe os seus nomes, sua pelagem, sua origem...” é a parte do texto que aparece na epígrafe do livro e que, segundo Ruffato, representa de forma subjetiva o que ele queria demonstrar em sua obra.

– Não se escolhe a hora do processo de criação. Você vai ingerindo aos poucos de acordo com o que está vivendo na história – explicou o autor. – Quando fui a uma das edições da Bienal de São Paulo, vi um trabalho que mostrava vários sapatos velhos largados no chão. Logo pensei: “Onde tem arte nisso?” e virei as costas. Depois, dei meia volta e decidi que não sairia dali até que entendesse o que aquela obra tinha a me oferecer. Descobri que os sapatos estavam ali para representar toda a trajetória e a história das pessoas que haviam os calçado. Tudo depende da perspectiva, do olhar – concluiu.