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Rio de Janeiro, 31 de março de 2020


Cultura

"Eu queria ser só o escritorzinho do bairro"

Juliana Oliveto - Do Portal

28/02/2011

 Roberto Scliar

Moacyr Scliar, escritor laureado com três Prêmios Jabutis, morreu, neste domingo (27/02), de falência múltipla dos órgãos. Médico, nascido em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, na comunidade judaica do bairro de Bom Fim, Scliar ocupava a cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras. Em setembro do ano passado, lançou sua última obra, completando 80 títulos nos 48 anos de carreira.

Eu vos abraço, milhões, publicado pela Companhia das Letras, conta a história de Valdo, um jovem gaúcho que parte para o Rio de Janeiro com a intenção de entrar para o Partido Comunista e encontrar um sentido para sua vida. Na cidade maravilhosa, nem tudo acontece como o planejado, Valdo é obrigado a lutar por sua sobrevivência e passa a trabalhar na construção do Cristo Redentor.

Na ocasião, em entrevista ao Portal PUC-Rio Digital, Scliar falou de seu novo livro, sua carreira e o mercado literário no Brasil de hoje. Recordando sua trajetória, o imortal revelou que tudo que aconteceu foi imprevisto, mas ainda assim não mudou muita coisa em sua vida. “Fico feliz que não tenha mudado, porque à medida que a gente vai tendo essas conquistas, a tentação de fazer crescer a própria imagem é muito grande” – disse.

Portal PUC-Rio Digital: Como o livro Eu vos abraço, milhões se encaixa em sua obra levando em conta todas as suas produções?

Moacyr Scliar: Esse livro tem várias coisas em comum com minha produção anterior. Em primeiro lugar, gosto muito de escrever sobre personagens jovens buscando seus ideais e esse é o caso do personagem de Eu vos abraço, milhões, um jovem do interior do Rio Grande do Sul tentando se tornar um revolucionário, alguém que vai fazer deste país um Brasil melhor, mais igual, mais justo e ele vê a chance de fazer isso através do ingresso no Partido Comunista. Estamos falando dos anos de 1929, 1930, e era um sonho muito comum. Nós temos aí vários temas, primeiro a questão gaúcha – sou do Rio Grande do Sul – e o estado é, do ponto de vista literário, muito fértil por causa de seu passado histórico, da sua tradição política... Em segundo lugar tem essa questão da luta por um ideal, do relacionamento dos jovens com o mundo em que vivem. Foi uma história que escrevi com muito prazer, muita emoção, tem como pano de fundo acontecimentos reais do Brasil daquela época, mas é uma história inteiramente imaginada.

Portal: As experiências e aspirações de Valdo [protagonista do livro] são um reflexo de suas próprias?

MS: Certamente, mas mais da geração que nos precedeu, porque a geração anterior à minha viveu o sonho da transformação da sociedade em toda a sua intensidade, tendo como modelo a Revolução Russa de 1917. A minha geração já viu o começo da queda desse sonho, quando se revelaram as distorções do stalinismo, as prisões, as execuções... Um processo que culminou na queda do Muro de Berlim. Então, minha geração viu, digamos assim, esse sonho desaparecer, esse sonho ruir. Mas a geração que nos precedeu é uma que ainda acreditava com toda a intensidade nesse projeto de transformação.

Portal: O senhor comentou que a frase “Eu vos abraço, milhões”, de Friedrich Schiller, ficou “guardada em sua mente”. O que ela representa em sua vida?

 Roberto Scliar

MS: Li essa frase no depoimento de um intelectual comunista que nos anos 1920 e 1930 foi muito importante, um húngaro chamado Arthur Koestler. Nas suas memórias, ele conta que depois de brigar várias vezes com o partido ele resolveu retornar e escreveu uma carta. A culminância da carta era essa frase, esse verso do Schiller, “Eu vos abraço, milhões”, significando, assim, o desejo de se unir à humanidade na luta por um mundo melhor. Fiquei muito impressionado com essa frase, era muito jovem quando a li, ela jamais saiu da minha cabeça e eu ficava só esperando o momento em que eu pudesse usá-la como título de um conto ou de um romance. Agora, finalmente, aconteceu.

Portal: Além da questão do Sul proporcionar essas histórias que o senhor escreve e de todas essas aspirações da geração anterior a sua, podemos dizer que a ideia do livro surgiu a partir da inspiração dessa frase?

MS: Na verdade, o ponto de partida do livro tinha sido a construção do Cristo Redentor e havia um personagem muito curioso, um engenheiro chamado Heitor Levy, que era de origem judaica e que durante a construção se converteu ao cristianismo. Achei interessante essa história porque permitiria refletir sobre a questão da espiritualidade, mas ela não decolou. Então surgiu outro personagem e é esse rapaz que no começo é um jovem revolucionário trabalhando na construção do Cristo. Mas é claro que tive que explicar a origem dele, como tinha ido para o Rio de Janeiro e assim o romance foi nascendo.

Portal: A história do judeu Heitor Levy... O senhor pretende levá-la adiante algum dia?

MS: Ela agora foi incorporada a essa outra narrativa maior, acho que o que queria eu não consegui. Mas, como muitas vezes acontece para os escritores, uma ideia vai gerando outra e, de repente, essa outra se transforma no núcleo do romance ou do conto.

Portal: Quando o senhor começou a escrever esperava chegar a 80 livros? Como está sendo essa experiência?

MS: Não, eu não esperei. Na verdade, nem me imaginava como escritor de livro publicado. Eu era um menino de um bairro de Porto Alegre, filho de uma professora que gostava muito de ler e que estimulava os filhos a serem leitores. Era filho de um pai que era um grande contador de histórias e as histórias que eu escrevia eram para eles, para os meus pais, meus parentes, meus vizinhos... Eu queria ser só o escritorzinho do bairro. Todo o resto que veio depois, os livros publicados, traduzidos, premiados, a colaboração em vários órgãos da imprensa, a entrada na Academia Brasileira de Letras (ABL), tudo isso foi rigorosamente uma coisa imprevista. As coisas foram acontecendo e me sinto feliz que elas aconteceram da melhor maneira possível.

 Divulgação

Portal: O que mudou ao longo dos anos, entre o primeiro e o último livro lançado?

MS: Eu diria que não mudou muita coisa, acho que fico muito feliz que não tenha mudado, porque à medida que a gente vai tendo essas conquistas em termos de livros publicados, traduzidos ou premiados, o ingresso na ABL, a tentação de fazer crescer a própria imagem é muito grande, mas me considero uma pessoa humilde, modesta, tenho bem claro que ainda posso melhorar e, realmente, não acho que ter livros publicados dê a pessoa um status especial. É uma atividade como qualquer outra, posso comparar inclusive a minha outra atividade, que é a de médico, no sentido que representa uma doação da pessoa para os seus contemporâneos.

Portal: Como foi conciliar a carreira de médico e a de escritor?

MS: No começo foi muito difícil, porque trabalhava muito intensamente como médico, gostava da profissão, não foi uma coisa a que tive que recorrer para ganhar a vida, não, era algo que eu queria fazer junto com a literatura e sem ter que escolher. Seria muito difícil para mim se eu tivesse que escolher uma ou outra, então eu tratei de fazer as duas coisas. Isso implicou sacrificar o lazer, o descanso, trabalhar muito intensamente, dormir pouco, mas tudo isso fiz com muito prazer, não me arrependo de nada e se eu tivesse que começar de novo seria exatamente o que eu faria.

Portal: Na opinião do senhor, qual é o retrato da produção literária nacional nos dias de hoje?

MS: O que a gente vê é o seguinte: tem muita gente escrevendo, muitos talentos jovens, e o Rio Grande do Sul é um exemplo nesse sentido, é um verdadeiro celeiro de talentos literários. Muita gente está publicando não só na forma livros, hoje em dia a internet está proporcionando uma oportunidade para a divulgação de textos e o que a gente vê é que é uma geração muito talentosa, mas com uma temática diferente. A temática das gerações anteriores, como o regionalismo, aquela coisa de escrever usando o linguajar de certa região e falando dos costumes dessa área terminou porque o Brasil atual é um país urbano, em que 80% das pessoas vive em cidades. Outra coisa que desapareceu foi o engajamento político, que nos escritores dos anos 1930, por exemplo, como Jorge Amado, Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz em sua primeira fase, era muito evidente e hoje já aparece menos. Existem outras temáticas, como a da violência urbana, a temática das relações interpessoais, a questão ecológica, mas realmente a temática mudou muito.

Portal: O senhor acha que o mercado editorial brasileiro é receptivo aos novos autores nacionais? O que deve melhorar?

MS: Ele é muito mais receptivo agora do que era antigamente. Há muito mais editoras, editoras estrangeiras que estão entrando no mercado e aumentando a divulgação de livros... E, claro, também temos hoje essa possibilidade que recém começamos a examinar que é a da divulgação por meios eletrônicos. Então, acho que, comparando com o passado, os escritores novos têm muito mais oportunidade, sem falar nos prêmios literários, onde estão reconhecendo esses escritores jovens.

Portal: Como o senhor vê a relação entre autor e o editor na construção da obra literária no Brasil?

MS: Nós temos diferentes tipos de editores. Têm aqueles para os quais a gente simplesmente entrega os originais e, depois, recebe o livro. Têm outros que, dentro daquele papel mais característico do editor europeu, norte-americano, interagem com o autor, fazem sugestões, propõem novas abordagens e, muitas vezes, isso resulta até em modificações no texto. Para mim, qualquer um dos dois tipos de editor serve. Eu gosto do editor que me dá sugestões, mas, se não me der sugestões, uso meu processo editorial interno, o crítico que tem dentro de mim, para fazer as correções e dar minhas próprias sugestões.

Portal: O senhor acha que esse editor que faz a crítica é importante principalmente para quem está começando?

MS: Isso sim, não tenho dúvida. Outra coisa que precede o editor é a oficina literária, sugiro fortemente para todos que estão começando que procurem uma oficina literária. Porque aí essa pessoa vai estar em um grupo, vai ouvir opiniões, vai ter alguém mais experiente orientando o grupo, pode fazer uma publicação em conjunto... Então eu acho que a oficina literária, uma coisa que não tinha quando eu comecei, representa um grande avanço e uma grande forma de auxílio para quem está começando.