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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

O fim de uma era em Cuba

Matheus Fierro e Simone Trib - Do Portal

20/02/2008

Depois de 49 anos no poder, Fidel Castrou renunciou ao comando de Cuba na manhã desta terça-feira, 19. Em carta publicada na versão online do jornal “Granma”, do Partido Comunista, alegou problemas de saúde. Deputados cubanos podem confirmar no dia 24 de fevereiro a sucessão iniciada há 19 meses, quando Fidel afastou-se devido a uma cirurgia no intestino e seu irmão, Raúl Castro, assumiu a presidência. Na sua carta de renúncia, ele cita o arquiteto Oscar Niemeyer e diz: "Penso como (Oscar) Niemeyer que é preciso ser conseqüente até o final".

Entre apelos por democracia e dúvidas sobre a perspectiva inovadora da troca de comando, a comunidade internacional aguarda um futuro mais flexível para a política e os negócios cubanos. Líderes e analistas políticos apostam na abertura econômica e diplomática da ilha,  mas reconheceram o peso histórico do afastamento definitivo: o fim de uma era. Para a professora Sônia Camargo, do departamento de Relações Internacionais da PUC-Rio, há condições favoráveis à mudança, pois a renúncia representa o “encerramento de um capítulo importantíssimo na história mundial”. Sônia acredita que, com a saída de Fidel, o sistema implantado pelo ex-presidente terá de se adaptar às demandas mundiais.

– A Revolução Cubana serviu ao imaginário de todo um povo que necessitava de esperanças desesperadamente. Na época, ele foi fundamental. Mas ficou restrito a Cuba – ressalvou a professora.

Na opinião do professor de história da PUC-Rio, Márcio Scalercio, a renúncia de Fidel Castro não deve trazer grandes mudanças ao cenário político cubano. “Em princípio, quem assume o controle do regime é o irmão dele, Raúl Castro, que já ocupava esta função desde que o Fidel ficou doente. Então, de imediato, não se deve esperar grandes modificações institucionais. Ele deve dar continuidade à situação posta, uma vez que o regime está organizado e funcionando".

Segundo o professor, as opiniões com relação a mudanças a longo prazo estão divididas. “Há quem acredite que o fim da carreira de Fidel vai representar o fim do regime”. No entanto, Márcio diz que é preciso esperar para ver a reação dos Estados Unidos e, principalmente, dos cubanos da Flórida.

Na carta com a qual anunciou a renúncia, Fidel Castro justificou: “Trairia minha consciência ocupar uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total que não estou em condições físicas de oferecer. Não me despeço de vocês. Desejo combater como um soldado das idéias”. Acrescentou que pretende continuar no governo, mas de “forma isenta”.

A renúncia de Fidel foi consumada a poucos dias da sessão do Parlamento que escolherá o presidente pelos próximos cinco anos. Embora a oficialização de Raúl Castro seja a decisão mais lógica, o vice-presidente, Carlos Lage, de 56 anos, corre por fora. Lage é a opção -improvável - por uma renovação mais acentuada das engrenagens políticas de Cuba. 

Fidel Alejandro Castro Ruz nasceu no dia 13 de agosto de 1926. Sua luta política começou de forma frustrada, em 1953, quando foi preso e condenado a 15 anos de prisão depois de liderar ataque a um quartel do exército cubano.

Favorecido por anistia geral concedida pelo presidente Fulgêncio Baptista, Fidel refugiou-se no México, onde conheceu Ernesto Che Guevara. Juntos, planejaram um retorno à ilha. Dos 82 soldados que aportaram na praia, restaram 16. Esconderam-se na Sierra Maestra, de onde lideraram a Revolução Cubana que derrubou o governo de Baptista.

Instalado no poder, Fidel Castro empreendeu uma liderança socialista e pôs os Estados Unindos na lista negra. Em 1997, apontou como sucessor direto o irmão Raúl , que comanda a ilha desde julho de 2006. Os problemas de saúde do ex-presidente começaram em 2001, quando ele sofreu breve desmaio em público depois de discursar por duas horas.