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Rio de Janeiro, 13 de julho de 2024


Ciência e Tecnologia

Gladiadores robóticos da PUC levam 8 troféus

Daniel Cavalcanti - Do Portal

22/09/2010

Mauro Pimentel

Na arena, os combatentes se preparam para um combate tecnológico. No alto-falante, o narrador informa o nome dos guerreiros e sua equipe. Um rock pesado começa a tocar e o público, que varia de crianças a idosos, assiste vibrante quando os rivais se encontram em uma explosão de faíscas. Essa é uma competição diferente: trata-se de uma batalha de robôs.

No dia 5 de setembro, deu-se início à 6ª edição da Winter Challenge, uma competição nacional de robôs promovida pela Robocore, uma empresa brasileira que produz eventos de robótica. O torneio contou com quatro modalidades competitivas — combate, sumô, hockey e seguidor de linha — divididas em categorias por peso e modo de controle. O campeonato é realizado há cinco anos e recebeu 30 equipes de todo o país além de, pela primeira vez, uma equipe mexicana — do Instituto Tecnológico Superior de Poza Rica.

 Mauro Pimentel
A competição empolgou o público. A categoria heavyweight de combate, por exemplo, teve uma final eletrizante. Quase um Brasil e Argentina, em termos de rivalidade, a equipe Riobotz da PUC-Rio e a independente Triton se enfrentaram em uma disputa acirrada. Durante o perscurso até a final, cada participante pode perder até duas partidas antes de ser eliminada. A Riobotz chegou à final invicta, mas seu principal combatente, o Touro, perdeu sua principal arma no primeiro combate da final: o cilindro giratório. Sem seu "chifre", o Touro ficou fora de ação.

Com seu campeão contundido, a Riobotz entrou em ação. No curto tempo onde houve grande comoção nos boxes, uma confusão de batidas, serras, faíscas e muito suor, uma nova máquina foi reunida. “Jason Pulmoney”, o robô que foi inscrito como Puma e teve seu nome trocado por Jason Maloney antes da competição, veio à luz em uma trama que nem Hollywood poderia imaginar. Sua arma era uma rampa afiada pelo estudante de engenharia mecânica Maurício Collaço(foto).

 Mauro Pimentel

O combatente Orion, da equipe independente Triton, até tentou, mas “Jason Pulmoney” garantiu sua vitória com grande astúcia. “Que rampa foi essa!?”, gritou, depois do combate, o estudante Daniel Farias, piloto da Riobotz há cinco anos. A comemoração, depois de tanto esforço, veio 10 minutos mais tarde. Como a Triton já tinha sido derrotada uma vez ao longo da competição, os juízes decidiram em prol da Riobotz por uma diferença de 6 pontos, consagrando à equipe da PUC-Rio o primeiro lugar na categoria middleweight. Tamanha felicidade, Daniel Farias não conseguia nem expressar em palavras.

– Foi um trabalho de equipe. Trabalhamos o dia inteiro para o robô ficar pronto depois de muitos problemas. Estou muito feliz e não consigo nem falar – contou, emocionado.

 Mauro Pimentel Além dessa vitória, a Riobotz também se destacou pelo primeiro lugar na categoria de combate featherweight, seguidos pela equipe Kimauanisso, da Escola de Engenharia de Mauá. Também garantiram um terceiro lugar na categoria hobbyweight, sendo vencidos pela Equipe PUC-PR, grandes companheiros de competição que voltaram ao campeonato esse ano. Na final da categoria, no entanto, a equipe Trincabots, do Centro Federal de Educação Tecnologica de Minas Gerais (CEFET-MG), levou a melhor.

No Hockey, a Riobotz perdeu na final contra a equipe da Universidade Federal de Itajubá, a Uai!rrior, e ficou com o segundo lugar. Houve uma acalorada discussão envolvendo regras durante essa última partida e a direção do evento constatou que rever as regras é importante para que isso não volte a ocorrer. O time da PUC-Rio também levou dois primeiros lugares nas competições de sumô autônomo e radiocontrolado com os robôs Pé de Boi e Boi da Cara Preta.

Glossário

Hobbyweight – Categoria de robôs com 5,44 kg nas competições de combate.

Featherweight – Robôs com 13,6 kg.

Middleweight – 54 kg. Nos Estados Unidos, os robôs em competições de combate podem ter até 154 kg.

Multi-bot – É quando dois robôs juntos somam o peso de uma categoria e competem ao mesmo tempo. 

Radiocontrolado – Quando um robô recebe comandos de um controle remoto.

Autônomo – Quando o robô é programado previamente e segue instruções sem auxílios externos além de sensores.

Mas o que impressionou foi a performance dos robôs da equipe Kimauanisso na categoria Sumô Lego/VEX. Os três primeiros lugares ficaram com os três robôs inscritos pelo time de Vinícius Milani (foto), que fez parte de uma equipe da First Lego League (Primeira Liga Lego, ou FLL na sigla em inglês) aos 12 anos, quando foi campeão mundial. Vinicius acredita que  “esses robôs de Lego são a melhor forma de começar, porque aqui você aprende brincando”, esclareceu.

 Mauro Pimentel

É esse espírito de brincadeira que se mantém na competição e fora dela. Em muitas situações, por exemplo, quando algum dos robôs caía de mal jeito, sem conseguir se movimentar, mas ainda funcionando, o adversário gentilmente o retira da incômoda posição e a batalha recomeça. “Sempre houve fairplay e sempre haverá”, explicou Leonardo Alves, da equipe independente Unknown.

Mas, apesar do fairplay, foram as batalhas que trouxeram o público para o evento. Wakeman Padim, 33 anos, estava apenas conhecendo Campos do Jordão quando se deparou com “essa surpresa maravilhosa".

– Nunca tinha ouvido falar, mas estou gostando bastante de ver a tecnologia brasileira funcionando – afirmou.

Além disso, o evento reune sempre seus entusiastas. Luiz Ricardo Velozo, 17 anos, veio de São José dos Campos para assistir aos combates. Ainda na escola, já sonha em cursar engenharia elétrica e fazer parte da equipe Mr. Fusion da Universidade Paulista (UNIP).

Paulo Lenz, administrador da Robocore, explicou que a competição tem o objetivo de "fomentar o interesse pelo conhecimento, principalmente entre os mais jovens que, depois de ver muita teoria na aula, se perguntam sobre a aplicação e ficam um pouco desmotivados". Com esse torneio, afirmou, "queremos estimular esses estudantes”.

Essa, aliás, parece ser a opinião da maioria ali presente. Daniela Diodato (foto), da equipe Thunder Ratz — ligada à Escola Politécnica da USP — concorda:

– Quem entra nas equipes muitas vezes é porque gosta da parte prática da engenharia, às vezes no projeto ou, até mesmo, na hora de botar a mão na massa – analisou.

Mas nem tudo são flores, há, por exemplo, uma grande dificuldade dos competidores em adquirir recursos.

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– É bem complicado procurar patrocínio para robôs de combate. Quando falamos sobre isso com as empresas, ninguém entende direito o gasto de 15 ou 20 mil reais em um robô que vai lutar contra outro. Não dá para perceber tudo que está envolvido na produção deles: tem o projeto mecânico e elétrico, a execução, detecção de falhas, resolução, etc. – explicou Daniela.

O preço de uma dessas máquinas varia de acordo com seu tamanho, peso e os materiais envolvidos mas, só para se ter uma idéia, um robô da categoria Featherweight (13,6 kg) custa, em média, 3 mil reais e um robô da Middleweight (55 kg), 20 mil reais.

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Sem patrocínio, muitas vezes o jeito é improvisar. Foi o caso dos garotos Arthur Costa da Silva e José Tachdjiam (foto), ambos com 12 anos, que construíram suas próprias máquinas. A ajuda veio do pai de José, Edouard Tachdjiam. Os meninos entraram na arena com os robôs Tico & Teco, uma combinação multi-bot de dois robôs que juntos chegam ao peso da categoria, no caso, Featherweight.

– Sempre entrei nas competições com robôs bem leves. Daí, quando vimos em vídeos de outras competições a idéia do multi-bot, resolvemos usar juntos. Percebemos que a união faz a força – revela José.

Para saber mais...

O manual escrito pelo prof. Marco Antônio Meggiolaro da Riobotz informa tudo sobre a construção de robôs para competições do gênero. Para algo mais fácil, vale a pena tentar os kits da Lego ou da VEX Robotics. Além disso, outras imagens da competição estão disponíveis em nossa galeria de fotos.

Entenda a competição

A competição Winter Challenge promovida pela Robocore é dividida em 4 modalidades, cada uma delas organizada em categorias por peso. Segue uma lista delas:

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Combate – O objetivo da modalidade de combate é fazer o robô adversário parar de funcionar. O robô é considerado vencido no caso de parar de se mover por 10 segundos consecutivos. Caso o round alcance 3 minutos sem que nenhum robô tenha sido derrotado, a decisão fica a cargo dos juízes. Nessa contagem, 3 juízes somam notas considerando duas qualidades dos competidores: agressividade, que soma de 1 a 6 pontos; e dano, que soma de 1 a 5 pontos. Um robô mais agressivo, que ataca com mais frequência, tem mais chances de ganhar do que um robô que provocou somente danos no oponente. O combate é dividido nas categorias: hobbyweight (5,44  kg), featherweight (13,6 kg) e middleweight (54,4 kg). Fora do país, existem categorias ainda maiores.

 

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Sumô
– Dois robôs são colocados em uma arena cujo tamanho varia entre as categorias. O objetivo é derrubar o concorrente da plataforma. São duas categorias de peso: Lego/Vex, comporta robôs até 1 kg, e a categoria de 3 kg. Os robôs Lego/VEX têm uma forma de luta autônoma, sem o piloto por controle remoto. Esses autômatos usam sensores e programação para identificar seus alvos e desenvolver estratégias de ataque. Os de 3kg se diferenciam entre autônomos e radiocontrolados.

 

 

 

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Hockey
– A modalidade é disputada entre dois times, com três robôs cada, com até 5,5 kg de peso para cada robô. Os dois times tem o seu gol e devem levar um disco comum de hockey até o gol adversário no tempo de 5 minutos. Aqui, não há faltas e normalmente as equipes formam times com dois “artilheiros” que levam o disco e um “batedor” que derruba a concorrência. Não há outras categorias no Brasil.

 

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Seguidor de Linha (ou Followline)
– A novidade do evento fica para esta competição. Cada competidor deve construir um robô autônomo que deve seguir uma linha branca desenhada no piso preto. O complexo dessa competição é a programação desse robô, que exige muita paciência e tentativa e erro por parte dos competidores. Nos dois dias de evento, as equipes estavam constantemente modificando e testando os robôs dessa competição.