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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Cidade

Siderúrgica procura PUC para analisar poluição em Santa Cruz

Stéphanie Saramago - Do Portal

27/09/2010

 Stéphanie Saramago

A Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), do grupo Thyssenkrupp, no município de Santa Cruz, no estado do Rio de Janeiro, procurou a PUC-Rio para analisar as partículas liberadas pela indústria durante a fase de pré-operacão. O vazamento de partículas pela siderúrgica foi constatado no fim de semana dos dias 14 e 15 de agosto e notificado pela empresa no dia 17. Em função do ocorrido, a Secretaria Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro multou a CSA em R$ 1,8 milhão.

A poeira foi liberada pela empresa produtora de aço após ter de desviar o metal líquido para um poço de resfriamento depois de um erro inesperado em outra etapa da produção. O professor José Carlos de D´abreu, do Departamento de Engenharia Metalúrgica da PUC-Rio, explica que quando este metal é resfriado de forma inadequada um pó é levantado.

Até o momento, não se sabe a exata composição da poeira. O professor D´abreu explicou que esta análise é demorada e deve ser refeita duas, três vezes até a confirmação. Só a partir dessa análise será possível saber se existe algum risco para a saúde dos moradores de Santa Cruz. Professores e alunos de pós-graduação e mestrado trabalham em conjunto nos laboratórios da universidade.

D´abreu ressalta a importância da CSA para o estado do Rio de Janeiro, que agora é o maior produtor de aço do país. Segundo ele, este posto trás uma responsabilidade maior já que vários setores da economia são movimentados. O Portal entrevistou o professor sobre o caso.

 Stéphanie Saramago

Portal Puc Rio Digital: Em termos técnicos, o que causou o erro da Companhia Siderúrgica do Atlântico?

José Carlos D´Abreu: Há uma cadeia de produção que é composta de vários equipamentos e várias etapas. Uma delas está logo após que você usa o primeiro ferro líquido produzido, antes de fabricar o aço. Esse ferro líquido então vai para outro setor onde o aço vai ser fabricado. Esse transporte todo é feito na forma líquida. Ele sai desse equipamento, chamado alto forno, e vai para o conversor, um outro equipamento onde vai ser fabricado o aço, e tudo isso vai ser feito com o material líquido, em alta temperatura, na ordem de 1500°C. Vale lembrar que esses movimentos são feitos em grandes toneladas, de 250 toneladas, 300 toneladas. Uma usina que está iniciando é uma usina que está sempre à mercê de uma dessas etapas ter que parar para fazer algum tipo de adaptação, e foi isso que aconteceu. Então eles tiveram que pegar esse metal líquido que estava sendo produzido e tentar lingotar esse material. Como isso não era uma coisa prevista na cadeia produtiva normal, eles tiveram que adaptar isso na hora. Quando você faz isso, esse material líquido vai se solidificar de uma maneira não tão adequada como deveria ser, embora isso seja uma operação que ocorre em todas as usinas do mundo, não é nada especial. Nesse momento, você levanta um pó. Um pó que contém uma série de elementos que estavam presentes na composição daquele material. Isso, infelizmente, trás uma preocupação para toda a comunidade. Não chega a ser uma quantidade muito grande, mas como é uma coisa que não estava prevista, a comunidade reage. Isso é normal. Então o que é preciso é que primeiro tudo isso seja analisado. Identificar exatamente qual é a composição, ver se existe de fato algum componente que poderia criar algum tipo de problema.

Portal: O problema já foi corrigido?

D´Abreu: Sim. Foi só naquele período. Uma parte do equipamento não podia receber e outra continuava produzindo, e você não para um equipamento desse. Não é como, por exemplo, você desligar, tipo um computador. Um equipamento produz uma quantidade enorme de material por dia, são milhares de toneladas diárias e para você desligar um equipamento desse você precisa de algumas horas.

Portal: Essa poluição leva algum risco para a população?

D´Abreu: Até o momento não se pode afirmar absolutamente que o pó teria algum elemento perigoso. Não existe nenhuma análise concreta que se permita falar sobre isso. As primeiras análises estão mostrando que é um pó, que não teria grandes elementos. Então depois disso feito é que poderá se especular. Ele não tem absolutamente nenhum material nuclear, portanto não tem nenhum perigo de radiação, isso está completamente descartado. E esse material se deposita, é como se fosse uma poeira, um pó que carrega muitas partículas finas. E como é uma partícula que esta sendo formada em condições diferentes, ela precisa ser analisada pra ver exatamente que elementos contêm.

Portal: Na fase de pré-produção, é comum a ocorrência de erros em uma companhia deste porte?

D´Abreu: Não é comum. Mas para evitar esse tipo de erro, você teria que ter alguns equipamentos que só seriam usados de vez em quando. Como nós estamos falando investimentos muito grandes, as empresas preferem pagar a multa se algo acontecer.

Portal: Qual é a importância da Companhia para o Rio de Janeiro?

D´Abreu: O Rio de Janeiro, o estado do Rio é o segundo maior produtor de aço do Brasil. Com a CSA, com outra usina em Resende, o estado do Rio de Janeiro passa a ser o maior produtor de aço do Brasil. Passa Minas Gerais. Regionalmente, a produção de aço no Brasil está no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, muito na região Sudeste. E esta liderança trás uma responsabilidade muito grande, que é o risco de acidentes, de formação de recursos humanos, tudo é movimentado a partir disso.