Projeto Comunicar
PUC-Rio

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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Campus

Rodrigo Alvarez: "Meu sonho era trabalhar com ficção"

Carina Bacelar - Do Portal

10/12/2010

Arquivo pessoal

Nem toda trajetória de sucesso é marcada por decisões certeiras e precoces. Um exemplo disso é a história de Rodrigo Alvarez, ex-aluno dos cursos de desenho industrial e de jornalismo, para o qual migrou após dois anos e meio no primeiro. Hoje correspondente da TV Globo em Nova Yorque e apresentador do programa Mundo SA, da Globo News, o jovem de 17 anos que ingressou na PUC-Rio em 1991 "gostava de escrever histórias de ficção e letras de música", mas não sabia ainda como conduzir a própria trama. Optou pelo desenho industrial porque “gostava de inventar coisas”. Queria trabalhar com projetos e desenhos de produtos. Decepcionou-se:

– Ao longo do curso, percebi que eu era muito ruim nisso. Meus colegas de turma eram bem melhores. Comecei a achar que não tinha a menor chance naquela profissão – recorda.

Ao mudar, escolheu o jornalismo porque "escrever era aquilo de que mais gostava".  A professora Ana Branco, do Departamento de Desenho Industrial, conviveu com a dúvida – e o talento – de Rodrigo. Ela conta que os alunos, ao fim da aula, registravam em textos o conteúdo aprendido. Rodrigo escrevia "sempre de uma forma inusitada para aquela situação": ele fazia seus relatórios em forma de poesia, misturando letras de músicas e versos de autores famosos. “Cada uma mais bonita que a outra”, recorda a professora. Guarda na memória uma “pessoa de coração aberto para o novo”:

– Ele tinha curiosidade pela diferença. Acho que isso faz dele o bom jornalista que é.

Além do incentivo da professora Ana, Rodrigo não enfrentou resistência dos pais em relação à mudança de curso. Os dois “sempre o apoiaram, nunca disseram o que deveria ou não fazer”. Mas o estudante ainda não estava certo, ao ingressar na comunicação social, em 1993, se aquela era a profissão certa para ele.

– Gostava muito de literatura. Então achei que devia ir para um curso onde escrevesse. Não queria ser jornalista. Naquele momento, meu sonho era trabalhar com ficção. O projeto era acumular experiência, inclusive de vida, para um dia migrar para ficção. E esse projeto continua – afirma o correspondente da Globo.

As incertezas iniciais não lhe imperiram de cumprir as liturgias universitárias – das acadêmicas às sociais. Frequentou o Seu Pires, o Baixo Gávea, a Vila dos Diretórios (ou “ as casinhas”, como acostumou-se a chamar). Quando o dinheiro estava curto, ia com os amigos a um “quiosque bem pé-sujo em frente ao canal”.

Os “tempos de bagunça” foram maiores durante o curso de desenho, garante.  No jornalismo, Rodrigo estava "um pouco mais maduro e responsável", sem perder, no entanto, a irreverência característica. Esse traço da personalidade refletia-se até em trabalhos acadêmicos. Como o que elaborou para a disciplina Comunicação Impressa, com o amigo Leandro Braga, hoje repórter do canal Sportv: uma revista de mulheres nuas.

 – A gente correu atrás de alguém que topasse posar em fotos para a revista – diverte-se o jornalista, ao lembrar da brincadeira.

A maturidade que o fez valorizar disciplinas teóricas – a predileta era sociologia – como “pilares do  pensamento”, não fez dele um aluno propriamente estudioso. Rodrigo admite ter frequentado pouco a biblioteca e muito os pilotis, seu local favorito na universidade.

– Sentava no chão, discutia trabalhos, fazia bagunça, conversa e ria bastante. Sempre fui questionador. Gostava muito de assistir às aulas e de debater com os colegas. Mas tinha uma certa dificuldade de concentração – reconhece Rodrigo, que, se pudesse mudar algo da época, "estudaria mais".

O apreço à pluralidade o fez abandonar velhas crenças. Uma delas, a de que o bom texto estava necessariamente no jornal impresso, começou a cair por terra nas aulas do também jornalista Luís Nachbin. O estudante chegou à disciplina Telejornalismo com a certeza de que não queria trabalhar com televisão. Saiu de lá com o coração e a mente conquistador por essa mídia:

 Arquivo pessoal – Ter o Nachbin como professor foi essencial para eu desbravar a televisão e achá-la interessante, inteligente. Ver que valia a pena investir naquilo. Ele abriu horizontes. Hoje, acho muito mais difícil escrever para a televisão. Acho mais desafiador – confessa.

O antigo mestre acalenta com carinho recíproco as lembranças do aluno Rodrigo. Nachbin conta que, em poucas aulas, já tinha a sensação de “conhecer bem o rapaz”. Em sala, ele parecia “sempre interessado”, mas a busca por conhecimentos e experiência estavam longe de ser uma obsessão:

– Rodrigo desfrutava, no sentido mais amplo possível, da universidade. Circulava por vários grupos, estava aberto aos caminhos do acaso – destaca. 

Foi justamente para a disciplina de Nachbin que Rodrigo elaborou sua primeira matéria para a televisão, sobre a construção do terminal rodoviário da PUC-Rio, na rua Padre Leonel Franca. Ele aproveitou o assunto abordado na reportagem que fizera para o estágio no Projeto Comunicar. Lá, trabalhou com Ricardo Villela, hoje editor do Jornal da Globo, no qual a dobradinha se repete. Na entrevista para o Portal PUC-Rio Digital, Rodrigo mostrava-se preocupado em terminar no prazo um VT combinado com Vilella. O editor do JG ressalta o espírito empreendedor do colega, identificado já naquele tempo:

– Lembro-me de uma sugestão dele para que criássemos, no Jornal da PUC, uma página dedicada ao mercado de trabalho. Acabou virando uma página fixa.

No Comunicar, Rodrigo conheceu duas amigas decisivas para o rumo profissional: Adriana Tiefentaler e Taiga Assumpção. Adriana era fotógrafa. Taiga e Rodrigo eram repórteres – e namorados. Ao saberem do concurso para trainees aberto pela Globo, em 1996, as duas logo se inscreveram. (Revelaria-se uma seleção para novo canal de notícias: Globo News.) Rodrigo não queria participar. Diante da resistência, elas levaram o currículo do amigo à emissora. Depois de superar a concorrência de 600 candidatos, o trio ficou entre os sete selecionados. 

– O fato de a gente já trabalhar junto pesou a favor. Acharam que seria bom para o canal contar com pessoas entrosadas que gostavam de trabalhar em equipe – acredita Rodrigo.

O jornalista diz que, no seu enredo, coadjuvantes fugiram ao clichê. Desempenharam mais do que papéis secundários. Foram essenciais à trama. Por outro lado, considera-se também um bom coadjuvante nas histórias dos muitos amigos feitos na PUC.  Uma dessas histórias ele faz questão de contar, a do ator Marcelo Mel, que trabalhou em novelas da  Globo. O menino de origem pobre era funcionário do laboratório de fotografia frequentado por Rodrigo. O convívio tranformou-se em incentivo para Marcelo superar adversidades e formar-se em desenho industrial.

Das reuniões no laboratório de fotografia, Rodrigo cultiva lembranças dos papos com os colegas e da paixão pelas imagens. "Elas são o dia a dia de um repórter televisivo", sintetiza. Muitas foram marcantes. Como as da viagem de 17 dias durante a corrida presidencial que levou Barack Obama à Casa Branca; e as da devastação do terremoto que matou 300 mil. Experiências tão marcantes que viraram livros: “No país de Obama” (Editora Nova Fronteira) e “Haiti depois do inferno” (Editora Globo). Para escrevê-los, Rodrigo diz que deixou para trás a inquietação da juventude. Já na rotina jornalística, não há como dispensá-la:

– Com o trabalho no Fantástico, toda semana vivo no limite. Essas situações extremas acabam virando rotina. Viver em aeroporto, não dormir em casa, passar metade do mês fora de casa, estar sempre de malas meio prontas – observa o jornalista, que acompanhou a passagem de um tornado nos Estados Unidos.

Curiosamente, a rotina atribulada proporciona reencontros. Na sala de espera do aeroporto de Miami, por exemplo, dividiu com o professor Luís Nachbin boas recordações dos tempos de universitário.

– Ouvi o sempre prazeroso chamado: "Professoooooooor!". Era o Rodrigo Alvarez, com a esposa e os dois filhos. O jovem já era pai. Assim como eu – lembra Nachbin, com alegre nostalgia. 

Além da paternidade, o menino que gostava de “inventar coisas” descobriu que realidade e imaginação são aliadas. Suas paixões – a imagem, o som, a narrativa – mostram-se peças de um quebra-cabeça montado com ajuda especial do acaso. Nele, a PUC, segundo Rodrigo, também foi peça fundamental:

– A universidade me proporcionou equilíbrio entre a vida prática e a formação humana. Tive uma formação sólida dentro das ciências humanas. Essa base mais profunda é o que diferencia quem sai da PUC, e acho que ajudou a me diferenciar também.