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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Cidade

Ações e visões plurais contra a guerra urbana

Mauro Pimentel - Do Portal

01/09/2010

Priscila Marotti/Divulgação

Onze dias depois de o tiroteio entre policias e bandidos ter levado pânico a São Conrado, motoristas foram atropelados pelo medo quando um assalto no Túnel Zuzu Angel, terça-feira à noite, insinuava um arrastão. Subtraídas as apropriações eleitoreiras da violência, casos como esses reacendem discussões sobre os avanços necessários à segurança pública, inclusive às Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs); sobre o aperfeiçoamento de vacinas contra o tráfico, de forma a tratar as causas e não só os sintomas; sobre o desenvolvimento de um olhar plural e equilibrado diante da guerra urbana. 

Enquanto moradores de São Conrado e hóspdes do hotel invadido por traficantes de São Conrado se horrorizavam com a "guerra" que invadia a manhã de sábado, outros acostumaram-se com a tensão. "Para quem mora na Rocinha, a troca de tiros entre traficantes e a pollícia é uma rotina", diz a estudante E., de 22 anos. Ela mora lá com os pais  desde que nasceu. Nem, chefe do tráfico local e líder do grupo flagrado por policiais em São Conrado, "garante a integridade física dos moradores desde que eles não se virem contra suas atividades criminosas".

Segundo ela, a invasão dos traficantes ao Intercontinental levou à comunidade outro tipo de apreensão, pois muitos de seus vizinhos trabalham no hotel. "A ação da polícia foi rápida, diferente do que acontece na Rocinha", compara a jovem. Para E., a rapidez tem a ver com "a presença da mídia".

Outras vezes, conta a estudante, a aflição passa ao largo dos holofotes. "Não faz muito tempo, corri de uma van para me esconder num mercado próximo", lembra. Ela buscou o refúgio improvisado ao perceber a iminência de confronto entre policiais do Bope (Batalhão de Operações Especiais) e traficantes.

Expostas ou não pelo noticiário, cenas renitentes da violência urbana indicam a necessidade de aperfeiçoamentos dos mecanismos de segurança pública - sem desprezar os ganhos conquistados e, de preferência, com amplo debate social, apontam especialistas. O capitão da PM Luiz Alexandre, observa que a eficiência das UPPs também se sustentam em mudanças sociais na comunidade. "A UPP seria o meio para a solução, não a solução em si mesma", pondera Luiz Alexandre. Ele acredita na substituição, a longo prazo, da UPP pelo policiamento normal. "O importante é a polícia estar voltada para o cidadão", afirma.

Com a experiência de 29 anos de coberturas relacionadas à segurança pública, o jornalista Jorge Antônio Barros, do Globo, considera que a instalação das UPPs sem que o Estado atenda às demandas essenciais da comunidade (educação, saúde, emprego) seja "apenas uma troca de comando armado: do ilegal para o legal". Considera positiva, embora tardia (agosto deste ano), a implantação da UPP Social, programa que coordena programas sociais, culturais, ambientais. "As ações policiais e sociais devem ser simultâneas", argumenta o jornalista. Ele prevê a manutenção, mesmo a longo prazo, do modelo de Unidade de Polícia Pacificadora.  "A geografia acidentada das favelas impossibilita a saída das UPPs".  

Jorge Antônio Barros viveu algumas semanas na Rocinha, em 1988, quando preparava reportagem para o Jornal do Brasil. "Na época, o jogo do bicho estava presente na favela", lembra, observando em seguida: "O estereótipo do bandido está mudando". Técnicas de guerrilha incorporaram-se ao perfil e à rotina do crime.

O combate ao tráfico exige uma coordenação de esforços, dizem os especialistas. Desde as ações avançadas de inteligência e policiamento ostensivo até o suporte social às UPPs e o investimento em qualificação e tecnologia. Exige também uma cobertura atenta e equilibrada da imprensa, ressalta Jorge Barros.

Informação também é importante para dirimir preconceitos e medos, afirma psicólogo Bernardo Jablonski, do Departamento de Psicologia da PUC-Rio. "Naquela manhã, em São Conrado, eu fiquei parado no túnel (Zuzu Angel) sem saber o que acontecia à frente. Tentei me informar pelo rádio do carro, mas não havia notícias ainda sobre o tiroteio. A falta de informações aumentava a ansiedade e o pânico dos motoristas", conta Jablonski.

Por outro lado, o contato com relatos de violência expostos na mídia pode amplificar a sensação de insegurança quando o cidadão se vê supostamente diante de alguma situação do gênero. "Há pessoas idosas que ficam sabendo do mundo só pelo telejornal, que apresenta fatos violentos. Assim, ele pode construir a visão esteriotipada de uma cidade mergulhada no crime e decibir se isolar em casa", exemplifica o professor.