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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Meio Ambiente

Poluição e mobilização convivem na Baía de Guanabara

Carina Bacelar - Do Portal

26/08/2010

 Mauro Pimentel

A paixão que a paulista Julia do Brasil Salgado encontrou quando chegou ao Rio é, ironicamente, um dos motivos de reclamações recorrentes dos cariocas. Há três anos o pai foi dela transferido do emprego em São Paulo para a capital fluminense, e desde então Julia veleja na Baía de Guanabara. Lá a estudante une a rotina esportiva aos deveres da faculdade de biologia. A vela e o estudo esbarram, porém, na poluição crônica, especialmente sob a forma de lixo flutuante e de manchas de óleo. À coordenação de esforços públicos e privados necessária para resolvê-la, ou pelo menos reduzi-la, somam-se os trabalhos voluntários e as parcerias com universidades – como o projeto Baía Nossa de Guanabara, apresentado por uma série de palestras e ações ao longo da XIV Mostra PUC, na semana passada.

Apesar dos avanços na área, a poluição ainda assombra o cartão postal do Rio. Levantamentos feitos desde 2007 pelo Departamento de Química da PUC-Rio – e cujos números finais ainda serão divulgados – indicam a manutenção de grandes quantidades de resíduos tóxicos naquelas águas. A poluição renitente causam desde aflições mais perceptíveis, como as que prejudicam a rotina de Julia e de tantos outros frequentadores, até mais discretas, que prejudicam a vida dos organismos ligados à Baía. (Por exemplo, a presença de tributilestanho vem inibindo a reprodução de gastrópodos, por estimular o surgimento de órgãos sexuais masculinos nas fêmeas). As medições apontam ainda concentração de derivados industriais acima do tolerável.   

 Mauro Pimentel – Os esgotos que chegam à Baía são muito mais complexos do que imaginamos. Os primeiros trabalhos do Departamento de Química mostram, por exemplo, alterações por contaminação com metais e os efeitos deletérios de organoestânicos (antiincrustantes usadas em tintas navais) – destaca a professor Angela Rebello, do Departamento de Química. Ela alerta que a poluição também "compromete as atividades econômicas na região" – como a pesca, a produção de alimento, o turismo – e o aproveitamento da biodiversidade.

Axel Grael, diretor do Projeto Grael, em parceria com os irmãos e medalhistas olímpicos Torben e Lars, concorda com Angela. Para ele, apesar do “seu potencial fantástico”, muitas vezes a Baía é um entrave aos anseios da cidade. Alex afirma que os deveres de casa para as Olimpíadas estão atrasados:

 – O segundo maior ponto fraco da cidade, na avaliação internacional para os Jogos 2016, é a poluição da Baía. O Rio comprometeu-se em resolver o problema. O tempo está passando e não se veem ações serem implantadas.

A ONG de Axel, fundada em 1998, busca resgatar o tal “potencial fantástico”. Reúne 700 crianças de comunidades carentes em Niterói, em programas de iniciação esportiva, capacitação educativa e educação ambiental. Ele lembra que a Baía já trouxe à tona vários talentos, mas ressalva que formar campeões "não é objetivo", e sim a consciência ambiental. 

Educação ambiental deve incorporar objetivos práticos

 Mauro Pimentel Na busca da Baída de Guanabara compatível com as ambições ecológicas, esportivas e comerciais, os especialistas apontam caminhos convergentes: consolidação e ampliação de ações de despoluição; educação ambiental; parcerias entre as niciativas pública e privada e as instituições de pesquisa; qualificação profissionais relacionadas às demandas náuticas, juntam-se oportunidades como astronomia náutica (aprendida, por exemplo, no curso o Projeto Grael em parceria com o Planetário); aplicação de novas tecnologias (como a embarcação movida a energia solar desenvolvida pela UFRJ para o projeto Desafio Solar; trabalho voluntário. 

– É importante que a educação ambiental não seja de “quadro e sala de aula”, mas incorpore objetivos práticos. Deve-se por a mão na massa, para se tornar um cidadão mais consciente e comprometido com o meio ambientel – diz Axel.

A professora da PUC-Rio Marimar Stahl destaca a importância da integração entre a prática ambiental e as iniciativas de conscientização. Como exemplo, ela destaca os projetos sócio-educativos e culturais desenvolvidos pelo Baía Nossa de Guanabara O “Jovens Ambientalistas da Guanabara” capacita mão de obra para implantar ações que ajudem as comunidades no entorno da baía a preservar os recursos naturais. Já no “Contrastes da Guanabara”, uma exposição fotos com belezas e problemas da área percorrem escolas e centros culturais. O “Navegando pela Guanabara”, em parceria com a Marinha, promove visitas guiadas aos fortes da Baía por alunos da rede pública. Estas iniciativas mostram, segundo Marimar, a importância dos voluntários. "Ainda são muito poucos", constata.

Estímulos para ampliar o trabalho voluntário

Para despertar o interesse dos jovens pelo voluntariado, a professora Adriana Carvalho, também da PUC-Rio, aposta na “Gincana Universitária Tesouros da Baía”, a qual coordena. As inscrições estão abertas a grupos de até três alunos de instituições do ensino superior. Eles realizam pesquisas e trabalhos sobre a Baía. Os primeiros colocados ganham uma viagem para conhecer o Museu do Louvre, em Paris, e os vice-campeões, para Moscou. Para Adriana, , é preciso estimular mais no Brasil algo já comum no exterior: um voluntariado com ação rotineira, "e não pontual e emergencial". Fora os benefícios sociais e ambientais, ações do gênero amadurecem como trunfo profissional:

– O mercado de trabalho começa a exigir "experiência de vida". Questionários para vaga de emprego já incluem perguntas sobre trabalhos voluntários – afirma a professora.

Esse contato com a realidade fora da descrição encontrada em livros e jornais faz com que os voluntários, para Carlos Viveiros, diretor do Instituto Baía de Guanabara, enxerguem a Baía como algo “além de um mero acidente geográfico”. A experiência de Viveiros em ver cidadãos engajados vem dos projetos desenvolvidos pelo IBM no entorno da área: o Centro de Informações da Baía de Guanabara, que busca integrar a quantidade enorme de estudos e trabalhos sobre o tema dispersos em várias instituições e de difícil acesso; e o Aguardeira, do qual participam professores e alunos de escolas públicas próximas aos rios da bacia hidrográfica. São promovidas a medição da qualidade das águas e a conscientização de crianças para o cuidado com os rios. A mobilização dos cidadãos, acredita o especialista, "força o estado a agir".

Especialista vê com cautela ações do governo na área 

Mauro Pimentel De olho nos jogos de 2016, o governo estadual, em parceria com a UFRJ e com a Petrobrás, desenvolveu o Projeto de Recuperação do Canal do Fundão. Inclui, segundo Fátima Soares, gerente de avaliação da qualidade das águas do Instituto Estadual das Águas (INEA), a dragagem do local, o tratamento do material retirado da Baía e a recuperação dos mangues. A meta, segundo ela, é a retirada de 250.000 m³ de sedimentos por mês e a revitalização de 165.000 m² de manguezais. 

A representante do INEA acredita que a poluição das águas possa ser sanada se houver um planejamento de reconstituição das matas ciliares e implantação de infraestrutura sanitária nas áreas ao redor da Baía. Segundo ela, o maior problema da região é o despejo de esgotos domésticos. O controle dos resíduos industriais já seria feito, e com tecnologia de ponta:

– Eu não veja negligência por parte do governo. Eu vejo uma situação absolutamente complicada, porque temos que contar também com as municipalidades. Os municípios não se preparam em termos de infraestrutura sanitária. Preferem investir em outras áreas ou de outra forma – reconhece Fátima.

A professora Angela Rebello contesta essa visão. Para ela, os governos, “ao longo dos anos e em todos os níveis”, foram negligentes com o problema:

– A falta de vontade política para realizar a ordenação da ocupação do solo e investir na recuperação ambiental, protegendo o bem-estar da população, gerou a situação que vivenciamos há tempos – argumenta a especialista.

Apesar de as medições ainda indicarem níveis preocupantes de substância tóxicas, Vinícius Palermo, um dos coordenadores do Projeto Águas Limpas, da ONG dos irmãos Grael, acredita "na força da mobilização dos cidadãos" para aproximar a Baía da sonhada despoluição:

 – O primeiro passo é conhecer a Baía e a história dela, que é muito grande. Depois, envolver-se em algum movimento de conservação do local. Essa iniciativa do Baía Nossa de Guanabara é excelente, pois agrega todas as pessoas que trabalham pela causa.

Se depender da velejadora Julia, o número de pessoas vai aumentar:

– Fiquei muito interessada pelos projetos. Já realizei trabalhos voluntários com crianças, e faria sim algo relacionado à Baía de Guanabara – projeta a futura bióloga.