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Rio de Janeiro, 22 de maio de 2024


Campus

Ali Kamel: "Os pilotis refletem a solidez da universidade"

Lucas Soares - Do Portal

10/12/2010

Mauro Pimentel

Na memória, a imagem de uma PUC noturna. A lembrança do costumeiro jantar: "Um queijo quente com banana caprichado e Coca-Cola". Todas as noites Ali Kamel pedia o lanche no extinto Cleptomania. Era na PUC que o jornalista terminava o dia repleto de obrigações. Estudante de ciências sociais na UFRJ e de comunicação na universidade católica, o hoje diretor da Central Globo de Jornalismo ainda arranjava tempo para estágio, no período da tarde. “Chegando em casa, eu só tinha tempo para dormir”, conta. Ao olhar para o retrovisor, ele vê, com orgulho, a liberdade oferecida pela instituição. Mais que um diferencial, uma recordação importante:

– Apesar de ser uma escola dirigida por jesuítas, a PUC era delegada aos profissionais leigos e laicos. Então, tinha algo que para os jornalistas era muito importante: éramos completamente livres.

Nascido no Rio de Janeiro, Kamel jamais pensara em ser jornalista até mergulhar, meio por acaso, no curso de comunicação da PUC-Rio. A ideia de fazê-lo partiu de um amigo, que o convencera de que o mercado de trabalho em sociologia era restrito. O argumento o sensibilizou, mas não a ponto de deixar as ciências sociais, sua primeira opção. A escolha pela PUC combinava comodidade de horário e a possibilidade de estudar em duas "ótimas universidades" ao mesmo tempo.

Filho de pai sírio e mãe brasileira, o jornalista tem três irmãos, uma delas gêmea. Cresceu no bairro do Catete e foi morar, ainda adolescente, no Cosme Velho. Estudou a maior parte do primário e do ensino secundário num colégio particular em Botafogo. Lá foi apresentado, aos 11 anos, a uma biblioteca. O entusiasmo deste encontro repetiria-se anos depois, ao conhecer a biblioteca da PUC. “Eu virei rato de biblioteca desde cedo. Quando conheci a da PUC, achei maravilhoso”, lembra. Ele lamenta o desprestígio dos livros por grande parte dos brasileiros.

 Mauro Pimentel Kamel recorda-se com igual carinho das rodas de amigos ao chão dos pilotis, nos intervalos das aulas. Obrigatórias para pôr o papo em dia, discutir política e conhecer gente nova. Naquele imenso pátio ele viu pela primeira vez a  atual esposa, a também jornalista Patrícia Kogut.

– Quando eu penso nos pilotis, eu me lembro da Patrícia. A primeira vez que eu a vi ela estava sentada com o grupo de literatura dela. Fiquei bastante impactado, mas acho que ela não se lembra disso – conta, em tom de descontração.

Na sala de aula, o desempenho era bom. Kamel ressalva, no entanto, que o CR nem sempre mantinha-se alto. “Nunca fui fissurado por nota”, justifica. O que importava, diz ele, era o aprendizado, a experiência. Prova disso foi o fato de ter tirado, no vestibular, nota inferior à suficiente para ser dispensado de uma disciplina de redação.

– No fim, ter cursado essa cadeira me ajudou muito. Mas não quer dizer que não sabia escrever – esclarece o autor de Não somos racistas (2006), Sobre o Islã: a afinidade entre muçulmanos, judeus e cristãos e a origem do terrorismo (2007) e Dicionário Lula (2009).

Dentre as disciplinas preferidas, estavam as de filosofia, sociologia e política. Detestava, confessa ele, Teoria da Comunicação, embora "adorasse a professora" Angeluccia Habert, atual diretora do departamento. A professora de Teoria da Significação, Vera Figueiredo, também é lembrada com afeto. Ela admirava a “grande bagagem de leitura” do aluno, e conta que hoje usa o exemplo do tímido Ali para reforçar a importância da formação humanística do curso aos alunos.

– Por motivos diversos, há alunos dos quais um professor nunca se esquece. Apesar do longo tempo decorrido, lembro do Ali como se tivesse sido meu aluno no semestre passado. Ele sentava-se na primeira fila, ao lado da colega Vera. Era um jovem magrinho, muito sério e muito educado – lembra Vera Figueiredo.

 Mauro Pimentel Ali Kamel conta que, enquanto a professora de literatura, Flora Sussekind, tinha uma visão estruturalista, Vera Figueiredo fazia uma "leitura marxista":

– A PUC é muito legal porque você tem acesso a visões de mundo diferentes. A Vera, por exemplo, foi uma professora muito importante para mim.

Havia também a Vera amiga, amiga desde os tempos de escola. Vera Novello, hoje professora da PUC, lembra que Ali era um aluno “inteligente, ágil no pensamento, na sua forma de articular e relacionar os fatos”. A parceria iniciada no colégio repetiu-se na PUC. Ela conta que fazia os trabalhos com Ali, dono de "uma didática própria na hora de trabalhar em grupo". Depois de discutir o assunto e decidir por onde começar, “ele levantava e falava como se estivesse dando um palestra sobre o tema”. Já outro costume do colega a deixava confusa: as enigmáticas frases escritas ao pé do caderno. Metáforas como “a vida é uma avestruz” jamais foram decifradas por Vera.

História curiosa também era a luta por equipamentos. O jornalista conta que ele e os amigos estavam "sempre pedindo" câmeras e gravadores novos, mesmo com o bem equipado estúdio de TV e rádio.  “A gente reclamava, mas a PUC, nesse sentido, já era muito bem equipada. A gente não se dava conta, talvez, que o diferencial estava nos professores que tínhamos”, reconhece. Kamel ressalta, em especial, o incentivo ao olhar crítico recebido pelos alunos:

– Nossos professsores estimulavam o pensamento crítico. Isso, para a formação de um jornalista, é fundamental. Os pilotis são de uma solidez que refletem a própria instituição universitária – compara.

Na Rádio Jornal do Brasil, a largada profissional

 Mauro Pimentel A primeira oportunidade de estágio surgiu ainda na faculdade. Por uma colega de classe, soube que a Rádio Jornal do Brasil estava contratando estagiários para a cobertura das eleições de 1982. Vera, a amiga, não demonstrou interesse, mas Ali Kamel candidatou-se à vaga atraído pela promessa de estágio fixo depois da votação. Trabalhou na apuração dos resultados das urnas. Recebia determinada quantidade de fichas para ligar, a cada urna apurada, para a redação e passar os "úlltimos números".

Conforme o prometido, ele conseguiu a vaga na rádio passada a eleição. Cursava o quinto período. O jornalista e professor Célio Campos conta que o então colega de turma foi destacado para selecionar e arquivar cartuchos de áudio reaproveitáveis. As gravações eram ouvidas pelo estagiário e recebiam novas edições de acordo com a demanda. Célio lembra que tanto em sala de aula quanto no estágio, o amigo era um “cara muito recatado, na dele”.

– Ele mostrava que tinha grande conhecimento de tudo – recorda.

 Mauro Pimentel Apesar de a carreira jornalística ter logo engrenado, Ali Kamel observa que a formação em sociologia "não foi em vão". Pelo contrário. O acúmulo das duas graduações revelou-se uma vantagem competitiva. O trunfo estava longe, contudo, de garantir-lhe tranquilidade na largada profissional. Na primeira vez em que esteve na Rádio JB, ele atravessou “o maior corredor de sua vida”:

– Era um corredor longuíssimo, todo revestido de mármore preto. Achei que nunca chegaria ao fim – brinca.

A angústia do iniciante diante do risco de que "algo pudesse dar errado" chegou a provocar enjoo no jovem Ali. Mas havia o lado positivo. A insegurança inicial manteve afastada a armadilha da prepotência e acendeu o caminho do aperfeiçoamento, atributos essenciais ao avanço na carreira.

Depois da rádio, Kamel passou por revistas como AfinalVeja, da qual foi editor-assistente na sucursal carioca. Em 1989, entrou no jornal O Globo, como chefe de reportagem dos Jornais de Bairros, e saiu de lá 12 anos depois, quando ocupava o cargo de editor-chefe do periódico. Migrou para a TV Globo, como diretor-executivo da Central Globo de Jornalismo, da qual hoje é diretor geral.