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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Campus

Patrícia Kogut: "Quando volto aos pilotis, eu me sinto em casa"

Lucas Soares - Do Portal

10/12/2010

Mauro Pimentel

Ser crítica de tevê num grande periódico nem passava pela cabeça dela nos tempos de pilotis. A escolha acadêmica veio não por influência da televisão, muito menos do jornal. O que fez a estudante Patrícia Kogut, colunista do Globo, trocar o curso de Letras pela Comunicação foi o rádio. O estúdio que hoje ocupa o quinto andar do Kennedy irradiava, nos intervalos das aulas, as notas escritas em máquina de escrever. “Parece até que estou falando do tempo de Getúlio [Vargas], mas não é”, brinca a jornalista. A opção revelou-se acertada, embora os caminhos de Patrícia tenham migrado para o mundo impresso.

– Adoro trabalhar no jornal. É muito divertido, muito bom. Eu sei que o mercado é apertado, mas para mim deu certo – avalia a jornalista.

Carioca, primogênita de três irmãs – todas formadas pela PUC-Rio –, Patrícia fez vestibular para Letras. Com habilidade para línguas estrangeiras, pretendia ser tradutora, mesma carreira da mãe. Chegou a cursar dois períodos e, apesar de ter escolhido a habilitação português-francês, foi da professora alemã que ela guardou as mais doces lembranças:

– Lembro muito da Heidrun Krieger. Gostava da aula dela. Foi uma das melhores professoras que tive em Letras.

Os amigos e a curiosidade despertada pelo rádio mudaram os planos:

– Fui ao Departamento de Comunicação e pedi para trocar. Ao perguntarem o porquê, usei aqueles argumentos que você tem, mas ao mesmo tempo você não tem porque você não sabe nada direito ainda – conta, em tom de descontração.

Os argumentos (ainda bem) foram convincentes. O final feliz era o começo no jornalismo. Em 1983, às lembranças do curso diurno somam-se memórias do "conturbado contexto político que o país vivia". No Centro Acadêmico chamado O Beijo e no Cleptomania – onde hoje fica o bandejão – ela compartilhou com os amigos alguns dos melhores momentos na universidade.

 Núcleo de MemóriaVera Novello, professora da PUC-Rio e até hoje amiga de Patrícia, lembra que o período de abertura política se refletia nas conversas, humores, rotinas. No Cleptomania, Vera e Patrícia ouviram os primeiros relatos de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro retornando do exílio.

Apesar de nunca terem cursado disciplina juntas, elas cultivavam uma paixão em comum: a literatura. Foi durante a faculdade que Vera, Patrícia e o também jornalista Luiz Augusto Silveira montaram um grupo de estudos. Toda semana o trio lia e discutia uma obra. De Guimarães Rosa a Franz Kafka, os amigos deliciavam-se por horas com boas leituras.

– Nós três dávamos aulas de inglês. Tínhamos em comum a afinidade com o estudo da língua. Adorávamos ler e apreciar as obras originais, sem traduções – lembra Vera.

A poesia do grupo Camaleões, de Pedro Bial, Luís Petry e Claufe Rodrigues, também ficou na memória. Os recitais, no extinto miniginásio, reuniam muitos estudantes, assim como as festas. Passaportes para Patrícia fazer amigos da Comunicação, de Letras, e de tantas outras áreas. “Comunicação era amiga de Economia”, afirma.

Apesar de a PUC representar muito mais do que um ambiente acadêmico para Patrícia, a aluna jamais descuidou das notas. Era "uma aluna média", diz, modestamente. Para Lenira Alcure, uma de suas primeiras professoras no curso, a jovem Patrícia destacava-se pela inteligência e pela espontaneidade:

– Ela [Patrícia] sempre foi uma aluna muito espontânea, sempre agiu naturalmente. Hoje, estas características se refletem na competência profissional – elogia a professora e ex-colega de trabalho da jornalista.

Patrícia gostava das disciplinas de produção de texto. Fugia daquelas mais técnicas. Diferentemente da maioria dos colegas de turma, não quis fazer TV. Nem escrever sobre televisão fazia parte dos seus planos. Patrícia conta que naquele tempo ela pouco assistia TV. Sua primeira experiência profissional foi na editora Bloch. A jovem jornalista começou a escrever para a extinta revista Fatos, ainda cursando a faculdade. A largada no mercado implicou a troca do curso diurno pelo noturno.

– Foi uma mancada que eu dei. Hoje eu penso que não deveria ter trocado o curso para a noite. Acabei demorando a concluir – confessa.

A estagiária foi efetivada e, por quase dez anos, Patrícia escreveu para as revistas Fatos, Pais & Filhos e Desfile. No entanto, ela revela que sua maior escola foi o jornal:

– A experiência que eu tive escrevendo para revista foi ótima. Mas, o lugar que me formou, onde eu realmente aprendi, foi o jornal. Trabalhar no jornal exige esforço diário – justifica.

Mauro PimentelA convite de professores, Patrícia voltou à PUC algumas vezes para dividir com os alunos um pouco da experiência acumulada como colunista. Sentiu-se "acolhida". O sentimento de pertencimento ao ambiente acadêmico jamais se esvaiu, mesmo depois de 20 anos:

– Toda vez que volto à PUC, sinto-me integrada. Posso dizer que foi minha casa. Continuo me sentindo bem lá porque tenho as melhores lembranças daquele lugar. Ali eu fiz muitos amigos. Ali eu fui muito feliz. Parece que aquele tempo não passou. Quando volto aos pilotis, volto no tempo.

Agora as expectativas acadêmicas recaem sobre a filha, que também vai fazer Comunicação. "Falei para ela aproveitar, porque está começando uma nova fase da vida dela", conta.

Patrícia se diz orgulhosa de ter estudado na universidade, “um diferencial tanto na vida profissional quanto na pessoal”:

– É muito bom você poder chegar num trabalho e dizer que você pôde estudar numa boa universidade. Eu sei que muita coisa mudou, que a tecnologia faz diferença. Mas, para mim, o diferencial da PUC está nos professores.