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Rio de Janeiro, 25 de julho de 2024


Cultura

Schelling inspira diálogo multidisciplinar

Luísa Sandes - Do Portal

07/06/2010

Reprodução


Aforismos para Introdução à Filosofia da Natureza e Aforismos sobre Filosofia da Natureza, Friedrich Wilhelm Joseph Schelling

A filosofia da natureza diz respeito aos princípios e à essência do mundo material. O filósofo alemão Friedrich Schelling reúne, no livro Aforismos para a introdução à filosofia da natureza e Aforismos sobre a filosofia da natureza, uma série de máximas que expressam seu pensamento sobre traços fundamentais da relação entre a matéria e o espírito. Schelling concebe a natureza como uma totalidade viva e manifestação exterior da razão que se desenvolve por meio de uma lógica interna. O filósofo acredita que Deus cria as coisas no momento em que as pensa. Para ele, essa razão mística resolve a contradição da natureza e do espírito, do finito e do infinito, do objeto e do sujeito.

A Editora PUC-Rio lançou, em março, em parceria com as Edições Loyola, a tradução da obra de Schelling feita e introduzida pela professora da Uerj e doutora em filosofia pela Universidade de Berlim, Márcia C. F. Gonçalves, que conversou com o Portal e analisou a importância e a posição de Schelling em relação à filosofia da natureza. De acordo com a professora, o filósofo inaugurou o debate entre os diferentes campos da ciência, além de ter oferecido uma visão bastante atual sobre a natureza. Márcia acredita que os aforismos de Schelling têm um motivo teórico muito mais profundo do que a busca de um estilo poético. Para ela, eles integram uma totalidade sistemática e fundamentam a filosofia da natureza do autor.

Portal PUC-Rio Digital: Qual a importância de Schelling na história do pensamento?

Márcia Gonçalves: Friedrich Schelling é um dos idealistas alemães, juntamente com Fichte e Hegel. Esta denominação, entretanto, não é muito adequada, já que sua filosofia pretende superar o idealismo do tipo subjetivo, como de Kant e Fichte. A obra de Shelling, embora muito pouco conhecida no Brasil, oferece uma chave muito importante para a filosofia clássica alemã, na medida em que oferece uma continuidade crítica em relação ao pensamento de Kant (1724-1804) e de Fichte (1726-1814), ao mesmo tempo em que prepara o terreno conceitual para o sistema de Hegel (1770-1831). Embora cinco anos mais jovem, Schelling começa a publicar muito antes de Hegel, que lança seu primeiro livro em 1807, aos 37 anos, ao passo que Schelling, uma espécie de menino prodígio recebe, aos 23 anos, um convite, por influência de Goethe, para assumir a cátedra de Fichte na Universidade de Jena. No início do século XIX, Schelling se torna um dos mais importantes filósofos da Europa. 

P: Quais são os principais aspectos da obra de Schelling?

MG: A obra de Schelling costuma ser dividida em vários sistemas, que podem ser denominados como filosofia da subjetividade, da natureza, da identidade, da liberdade e da mitologia. Entretanto, o próprio Schelling compreendia sua obra como um todo sistemático que poderia ser dividido em dois momentos complementares: a filosofia negativa, que analisa o objeto em sua universalidade e necessidade, e a filosofia positiva, que considera o ente existencial em sua contingência, ou seja, o ser na sua relação com o tempo histórico. O primeiro momento é composto pelas primeiras obras de Schelling, inclusive aquelas que tratam da filosofia da natureza. O segundo momento se inicia com um ensaio sobre a liberdade humana, publicada em 1809, e envolve toda a produção tardia de Schelling, até sua morte em 1854. Apesar dessa divisão didática, eu considero a filosofia da natureza de Schelling o eixo central de todo o seu sistema filosófico. Os Aforismos sobre a Filosofia da Natureza integram, junto com mais de uma dezena de textos escritos entre 1797 e 1812, a filosofia da natureza de Schelling.

P: O livro é uma grande coleção de aforismos. O que há de específico na análise dessa forma de expressar o pensamento? De que forma os fragmentos compõem uma unidade?

MG: A forma dos aforismos tornou-se uma espécie de moda no início do século XIX, com o movimento do primeiro romantismo, que considerava essa forma literária fragmentária uma alternativa poética para os sistemas filosóficos racionais. No caso específico de Schelling, houve uma influência recíproca entre ele e os românticos de Jena. A adoção dos aforismos tem um motivo teórico muito mais profundo do que a busca de um estilo poético, pois uma das intenções de Schelling foi demonstrar que, embora a natureza se apresente aos nossos sentidos como um conjunto de entes particulares aparentemente desconectados, é possível conceber a natureza como uma totalidade sistemática. O laço que une todas as coisas é o princípio de produtividade que perpassa cada organismo vivo, uma espécie de alma do mundo, comum a todos os seres naturais. Nesse sentido, o estilo literário dos aforismos pretende refletir ou espelhar essa dualidade dialética entre a aparente autonomia de cada parte ou fragmento e a conexão racional que sistematiza ou integra o todo. Os aforismos de Schelling não são meros fragmentos poéticos, ainda que possuam certo aspecto enigmático, pois eles seguem uma ordem de apresentação de teses que introduzem e fundamentam sua filosofia da natureza.  Arquivo pessoal 

P: A questão da filosofia da natureza é um ponto central da obra de Schelling. Qual a visão de Schelling sobre a relação do ser humano com o mundo exterior?

MG: Schelling foi um dos primeiros filósofos a conceber uma história da natureza, um processo de evolução da natureza fundado em um princípio de auto-formação e auto-organização da matéria. Ao contrário de pensar a natureza como um objeto tanto do conhecimento quanto do uso e apropriação do ser humano, Schelling a compreende em sua autonomia e liberdade. Para Schelling, a natureza possui uma inteligência própria, responsável por todos os seus processos. Mesmo a natureza inorgânica move-se e desenvolve-se segundo os princípios da natureza que seguem alguma racionalidade. O homem não é superior à natureza, a importância do ser humano está no fato de que nele a inteligência da natureza, que nos outros seres atua ainda de modo inconsciente, desperta e se torna consciente. A própria natureza se autoconhece através do ser humano. Com essa concepção, Schelling relativiza a idéia de natureza como um mundo exterior, na medida em que ela corresponde ao todo absoluto que não apenas envolve exteriormente o ser humano, mas o constitui como a todos os outros seres do universo. O homem é um ser natural por meio do qual a natureza pode tomar consciência de sua racionalidade.

P: Qual é a contribuição de Schelling para o pensamento ecológico atual?

MG: A filosofia da natureza de Schelling desenvolveu um conceito que serve de alternativa para a concepção de natureza pressuposta pelas ciências mais tradicionais. O movimento ecológico, desenvolvido a partir da segunda metade do século XX, se baseia nesse conceito, segundo o qual a natureza não é mais um mero objeto para o consumo do ser humano. Ao contrário, ele consiste em um sistema autônomo, que se auto-organiza conectando todos os seres e envolve todo o universo. Ainda que o movimento ecológico se sustente sobre ações práticas e mudanças de comportamento em relação à natureza, uma compreensão filosófica mais profunda sobre o próprio conceito de natureza pode fundamentar essa ação, tornando-a mais autoconsciente.

P: Na introdução do livro, a senhora diz que Schelling antecipa a unificação de novas teorias na física, na biologia, na medicina e na psicologia. De que forma o filósofo explicita uma tendência cada vez maior de promover a multidisciplinaridade entre as ciências?

 Editora PUC-Rio MG: Esse é um dos aspectos mais importantes que move o estudo de filósofos sistemáticos como Schelling. Ao longo do século XX, a filosofia sofreu uma crise contra o pensamento sistemático, influenciada pelo desenvolvimento da ciência contemporânea, com a crescente tendência para a especialização. A filosofia abriu mão da pretensão de compreender a realidade em sua totalidade. Schelling e Hegel foram os últimos filósofos sistemáticos da história da filosofia. Ambos filosofaram sobre diversos temas, como a história, a arte, a religião, a ética, a natureza e a própria filosofia. No século XIX, os filósofos se especializaram em filosofia política, em filosofia da arte, da linguagem e na lógica. Uma das justificativas para a filosofia não ocupar-se mais com o tema da natureza consiste no reconhecimento da grande complexidade da ciência contemporânea. A mesma ciência da natureza que levou a filosofia à especialização, reconheceu nas últimas décadas a necessidade de um movimento inverso, capaz de conectar os vários saberes da natureza e reinaugurar a multidisciplinaridade. Recentemente, vimos surgir uma série de novas ciências integradas, como a biofísica, a bioquímica e a bioética. A pesquisa científica sobre o ecossistema envolve a presença de várias ciências, da geologia à economia, da química à antropologia. A filosofia da natureza de Schelling, com sua sistematicidade e diálogo com as diferentes ciências, além de oferecer uma visão bastante atual sobre a natureza, pode servir como inspiração para que os filósofos recuperem a capacidade de dialogar com outros campos do saber, com o objetivo de conquistar uma visão mais abrangente do mundo.