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Rio de Janeiro, 25 de junho de 2022


País

Educação é requisito de desenvolvimento

Felipe Machado - Do Portal

18/01/2008

Neonacionalismo e neopopulismo são as palavras para o futuro do Brasil, segundo o economista Carlos Lessa. Defensor de um ideal de nação, Lessa não acha que a atual política do governo brasileiro valorize esse conceito. Ele menciona a superação da Argentina diante da crise econômica como um exemplo da aceitação de nacionalidade do povo argentino. Por isso, a diferença entre o país antes e depois da crise, segundo ele, é brutal.

“Quando se abandona a idéia de nação, a idéia de República se atrofia. Hoje, os argentinos resolveram ser argentinos. Eles estavam de costas para o próprio país”, afirma. Apesar de se dizer pessimista em relação ao Brasil, o ex-presidente do BNDES confessa: “Não desejo uma crise similar para o Brasil, mas o país tem mil vezes a capacidade da Argentina de sacodir a poeira e dar a volta por cima”.

Carlos Lessa foi um dos convidados do seminário Caminhos do Brasil, organizado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) em parceria com a Elo Consultoria Jr. e com os Centros Acadêmicos de Direito, História e Economia da PUC-Rio.

No evento, Lessa criticou duramente o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Segundo ele, por causa da política monetária, o Brasil foi eleito o segundo país emergente com maior risco no mercado no mundo. “A política do doutor Meirelles é um pesadelo. Falei isso e fui demitido. Ele está lá”, protestou. “A diferença entre o Singer e o Meirelles é semelhante à desigualdade no Brasil. Um Meirelles vale 20, 40 mil Singers. Só que o Singer é um velho guerreiro”, concluiu, referindo-se a seu amigo, o sociólogo Paul Singer, atual secretário nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho.

Singer alerta para o fato de que o Brasil continua sendo um dos países mais desiguais do mundo. Segundo ele, apenas 3,6% da população ganha dez salários mínimos ou mais. Ele vê motivação nos movimentos que chama de “anti-desiguais”, como dos sem-terra e os sindicatos.
“Igualdade e justiça são feitas e refeitas a cada dia, não é herança do passado, da época da escravidão”, diz. E o primeiro passo para uma sociedade mais igualitária, segundo Singer, é promover o acesso das pequenas e médias empresas ao capital, à tecnologia e ao mercado, além de uma associação desses empreendimentos.

Outro fator importante seria coletivizar a propriedade das grandes empresas. “Conheço casos de empresas recuperadas em que os empregados têm fração igual da empresa, ou seja, todos são proprietários e têm poder de decisão”, argumenta.

Ele fala da necessidade de uma reforma progressista que valorize o serviço público, principalmente saúde e educação. Singer diz que nas periferias o abandono de escolas, em especial por parte de garotos, é cada vez maior e o desemprego nessas comunidades chega a quase 100%. Nas cidades grandes é de aproximadamente 15%. Para o doutor em Sociologia pela USP, estudar em uma boa faculdade é um privilégio da elite que corresponde aos 3,6%, tanto nas universidades privadas quanto nas públicas.

Lessa chama a atenção para a discrepância entre o projeto da Constituição de 1988 e a realidade do país. Segundo ele, pela Constituição, pobreza e discriminação não existiriam no Brasil. Além disso, ela afirma o trabalho como um direito a todo brasileiro, o que não condiz com a realidade. “O emprego passou a ser um bem público, não um direito ao cidadão”, diz.

O Brasil nas negociações internacionais

Nas negociações econômicas internacionais, o Brasil segue defendendo fortemente seus interesses, segundo o economista Paulo Ferracioli, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio. Ele comenta a posição de países europeus e dos EUA, que evitam diminuir os subsídios agrícolas, e criticam a política agrária brasileira de grande exportador. “O que eu constato inexoravelmente é que todos são a favor do livre comércio, principalmente no país dos outros”, diz.

Ferracioli explica que as negociações do país foram mudando de acordo com a evolução econômica, mas critica a posição do país diante do setor agrário: “Qual o projeto que o Brasil tem? É o chamado Projeto Fazendão?”. E lembra que, para a OMC, produto agrícola não é apenas o produto in natura, mas os processados também, como óleo de soja e etanol.
A indústria brasileira, segundo Ferracioli, tem sido extremamente exposta pela taxa de câmbio. Isso acontece porque, se a cotação do dólar está muito baixa, alguns produtos importados podem ficar mais baratos que os nacionais. Mas o Brasil é o país em desenvolvimento com mais investimentos no mundo. “Estamos em um posicionamento novo, de defesa efetiva de nossos interesses. As críticas que ouço têm um interesse em determinados setores por trás. O próprio país deve se olhar e saber o que fazer”, conclui.

Dica de Paul Singer: Para entender a economia brasileira, a indicação de leitura de Singer é A Crise do Desenvolvimento, Uma Estratégia para o Futuro, organizado por Carlos Geraldo Langoni (Editora José Olympio, 1985).