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Rio de Janeiro, 24 de julho de 2024


Mundo

"Mães e avós da Praça de Maio são símbolo de luta"

Yasmim Rosa - Do Portal

07/05/2010

Ana Rodrigues

A argentina María Isabel Chorobik de Mariani é mais conhecida como Chicha Mariani, ninguém menos que a fundadora da organização não-governamental Avós da Praça de Maio. Sua vida mudou completamente aos 53 anos. Em 1976, forças do regime militar argentino entraram na casa de seu filho Daniel Mariani, na cidade de La Plata, e mataram sua nora Diana Teruggi e outros quatro militantes de esquerda que estavam no local no momento da invasão. Sua neta Clara Anahí, de apenas três meses, estava em casa e foi sequestrada pelos invasores. No ano seguinte, Daniel também foi assassinado.

Chicha deixou de lado a tristeza de ter perdido parte de sua família e começou a buscar pela neta depois de receber notícias comprovando que a menina havia sobrevivido ao ataque. Sua busca solitária enfrentou muitos obstáculos. Ela percorreu quartéis, delegacias, tribunais, mas sem resultados. Muitas vezes foi ameaçada por continuar sua busca por Anahí. 

Assim como Chicha, outras famílias viveram histórias semelhantes. Centenas de crianças, filhos de militantes, nasceram em centros clandestinos de detenção, foram raptadas e doadas a militares e famílias favoráveis ao governo. As crianças foram registradas pelos novos pais, o que fez desaparecer qualquer laço com as verdadeiras famílias.

Em busca dos desaparecidos, mães e pais se reuniram em um movimento pacífico para obter informações sobre o paradeiro de seus filhos e netos. Em 1977, começaram a marchar, toda quinta-feira, em torno da Obelisco de Maio, na praça de mesmo nome, em frente à Casa Rosada, a sede do governo argentino. Para chamar a atenção, as mulheres decidiram usar fraldas de pano branco cobrindo os cabelos. Com rapidez, o grupo recebeu o nome de Mães da Praça de Maio e começaram a exercer pressão sobre as decisões do governo em relação aos desaparecidos.    

Wikimedia Commons Chicha se uniu ao grupo de outras avós que buscavam por seus netos e em 1977 fundou o grupo Avós da Praça de Maio com outras 12 pessoas. Ela foi a segunda a presidir o grupo e em sua gestão promoveu o uso dos últimos avanços médicos para estabelecer um sistema para identificar os netos. Criou um catálogo genético que é a principal fonte de dados do grupo. Ela também se empenhou em pressionar o Estado para processar os responsáveis pelos raptos de crianças. Em 1989, ela deixou a organização por divergências com outros membros. Mais tarde, fundou uma associação de direitos humanos chamada Anahí.

Hoje, Chicha Mariani vive um outro dilema. Ela acredita que Marcela Noble, filha de Ernestina Herrera de Noble, dona do grupo Clarín, é, na verdade, sua neta. Chicha luta há anos na justiça para que seja feito um exame de DNA e que o resultado seja comparado com o catálogo genético das famílias que tiveram crianças raptadas. A ação segue sem resolução, mas há provas de que a adoção de Marcela e do irmão Felipe Noble foi feita de forma ilegal.

Divulgação O escritor Juan Martín Ramos Padilla é autor do livro Chica: a fundadora das Avós da Praça de Maio, publicado na Argentina pela Editora Dunken, em 2006. A obra ainda não foi publicada no Brasil. Além de contar a história da fundadora, Padilla fala sobre os desafios que o Avós da Praça de Maio enfrentam em sua busca cotidiana. Em entrevista, por e-mail, ao Portal PUC-Rio Digital, ele mostrou que Chicha é um exemplo de mulher incansável e de uma pessoa que uniu esforços para fazer justiça em um país aterrorizado pela ditadura.

Portal PUC-Rio Digital: As Avós têm uma trajetória difícil na história da Argentina, mas, apesar das dificuldades, o grupo já conseguiu encontrar muitos crianças desaparecidas. Hoje, qual a importância do grupo e de Chicha Mariani, em especial, para a história da Argentina?

Juan Martín Ramos Padilla: Chicha Mariani e as Mães e Avós da Praça de Maio não são somente um símbolo feminino, mas também um símbolo da luta, perseverança na busca de justiça e dignidade. Sua persistência na luta por mais de 30 anos, sempre com manifestações pacíficas, e o seu apelo para a justiça e não para a vingança tornaram-se um exemplo fundamental para as gerações futuras.

P: As mulheres que lutam para encontrar seus netos sofrem também com a perda de seus filhos. Qual é a maior dificuldade que elas enfrentam hoje?

JMRP: A principal dificuldade se dá pelo fato de que a apropriação de crianças foi feita por famílias ligadas ao poder econômico e à imprensa. O diretor do Grupo Clarín, que roubou um menino e uma menina, comanda uma enorme empresa que detém poder econômico e político no país.

P: Você tem conhecimento de quantas pessoas já foram localizadas?

JMRP: Até agora, eles encontraram 101 netos. Estima-se que 500 netos foram roubados pelo terrorismo do Estado nos anos 1970.

P: E de que forma o governo argentino ajuda nas buscas?

Getty Images JMRP: Neste momento, o governo argentino colocou a política de direitos humanos como um dos principais eixos dessa luta. Derrubou a anulação da lei que proibia investigar, processar e punir os opressores e tem trabalhado para consolidar as ferramentas do Estado para proteger os direitos humanos. O apoio é grande e de todos os tipos. A presidente referiu-se às Avós da Praça de Maio em quase todos os seus discursos. Ela também converteu os antigos campos de concentração em museus de memória e tem fornecido subsídios e leis de reparação para as organizações de direitos humanos e para as vítimas do terrorismo de Estado.

P: O que acontece com os pais que adotaram essas crianças? Eles são punidos de alguma forma?

JMRP: Os filhos que desapareceram não foram "adotados", já que não houve abandono prévio. Houve sim um assalto ou seqüestro. Foram muito poucos os que de boa fé adotaram um filho de desaparecidos. Na maioria dos casos, as adoções foram bastante irregulares, com falsificação de documentos públicos, registros, testemunhas falsas etc. Em alguns casos, as crianças foram “adotadas” diretamente pelos carrascos dos pais. Naturalmente, o roubo de crianças é um crime punível com prisão e penas imprescritíveis.

P: O que te motivou a escrever um livro sobre as Abuelas?

JMRP: Creio que as Abuelas é um dos grandes orgulhos que temos na história da Argentina. Tenho a sorte de conhecê-las desde a minha infância e penso que devemos a elas muitas das liberdades que desfrutamos em nossa democracia atualmente.

P: Chicha Mariani acredita que Marcela Noble, filha de Ernestina Herrera de Noble, dona do grupo Clarín, seja sua neta desaparecida. Qual a repercussão desse caso na Argentina? O que pode acontecer caso isso seja provado?

Wikimedia Commons JMRP: Chicha Mariani realmente acredita que Marcela e Felipe Noble são netos roubados. Clara Anahí poderia ser sua neta ou a neta de outro. De uma forma ou de outra, Chicha está pedindo que cruzem o sangue de Marcela com todas as amostras que estão no banco de dados genético construído pelo grupo. Ela considera indispensável que Marcela e Felipe saibam sua verdadeira identidade independentemente do resultado do exame. O impacto do caso é muito, muito forte. Durante muitos anos, essa questão foi silenciada e o poder econômico e da mídia, que durante 90 anos esteve aliado ao poder político, determinou que o assunto não deveria ser tratado nos meios de comunicação. Hoje a situação mudou e de alguns meses para cá o caso Noble é a maior novidade em alguns jornais que não pertencem ao monopólio do Clarín. Caso seja provado que Marcela Noble é uma neta roubada, isso significaria a queda do império Clarín e a prisão de seus diretores.

P: Você conviveu com Chicha Mariani? O que você pode dizer sobre sua personalidade?

JMRP: Chicha Mariani, apesar de seus 86 anos e os problemas de visão, está muito lúcida e muito ativa. É uma pessoa muito feliz. Na verdade, eu a encontro sempre que estou de mau humor. Ela é muito fácil conviver e espalha alegria. É surpreendente que, apesar de tudo o que aconteceu, é tão brilhante, alegre, simpática e generosa. É um exemplo como mulher e como ser humano.