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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Atentados na Rússia são problema local

Juliana Oliveto - Do Portal

31/03/2010

 Arte: Camila Monteiro

Quatro ataques suicidas atingiram Moscou em três dias matando pelo menos 50 pessoas. As autoridades russas estão em estado de alerta e afirmam que é uma questão de honra chegar até os responsáveis. Segundo o Kremlin, trata-se de uma ação dos separatistas chechenos. O professor Maurício Parada, do Departamento de História da PUC-Rio, conversou com o Portal PUC-Rio Digital e ressaltou o caráter nacionalista e não religioso dos atentados.

Portal PUC-Rio Digital: Como a Rússia surge nesse cenário do terrorismo internacional? Os atentados não estão mais conectados a um conflito local?

Maurício Parada: Na verdade é um problema interno, sim. Não há dúvida nenhuma que existem grandes áreas na região do Cáucaso buscando independência e que, de alguma forma, estão envolvidas nesse tipo de ação terrorista. Algumas áreas têm também uma forte presença de população islâmica o que, de certo modo, acabou gerando tensões semelhantes a que existem em outros lugares como, por exemplo, na Chechênia. Esse não é o apelo principal, mas sem dúvida alguma isso pode permitir uma aproximação com a forma geral do terrorismo atual, ligado à religião. Mas é evidente que a principal questão, o principal movimento, tem a ver com um certo nacionalismo local de grupos que buscam autonomia e que, de alguma forma, são muito ativos na Rússia – principalmente agora depois desse último atentado.

P: O interesse da Rússia é mesmo na Geórgia ou pode se estender aos outros países do norte caucasiano?

MP: O Cáucaso é uma área relativamente importante em termos estratégicos para a geopolítica da Federação Russa. A existência de uma ruptura na ideia da confederação pode gerar uma situação de desmonte semelhante ao que ocorreu na União Soviética em relação aos outros países que eram satélites, o que não é politicamente desejável. O que me parece mais importante é a Rússia conseguir manter a integridade de seu território.

P: A postura do ex-presidente e atual primeiro-ministro Vladimir Putin, manifestando o desejo de retomar as antigas repúblicas soviéticas, pode ser o fator responsável por estimular essas reações?

MP: A posição do atual primeiro-ministro é não deixar que haja qualquer tipo de movimento de separação. O tratamento dado às questões do terrorismo é o mais severo e, nesse sentido, há uma certa igualdade com o que acontece em outros países do Ocidente. É uma posição muito hostil contra o terrorismo, que aparece como uma praga dentro da situação da Rússia, e se iguala no discurso a outros países como Espanha, Inglaterra e Estados Unidos. Não acho que haja nenhum tipo de tolerância a esses movimentos e a repressão será muito forte.

P: E como fica a população em uma situação dessas?

MP: Não deixam de existir várias posições a esse respeito, até porque existe uma situação muito clara, uma possibilidade muito fácil, de os meios de comunicação estarem “sob controle” (por falta de melhor palavra). Mas existe também uma certa facilidade, vamos chamar assim, no trânsito dos meios de comunicação com o governo e isso, sem dúvida, gera uma possibilidade de criar – ainda mais em situações como ataques desse tipo – um sentimento claramente negativo em relação a esses atos. Não me parece que haja nenhum tipo de popularidade dentro desses projetos de terror, ao contrário, acho que são projetos que tendem a ser vistos pela população de uma forma preocupante, apavorante. Então eu acho que a forma como o governo Putín controla algumas áreas de informação e de formação de opinião é muito favorável para que o governo mantenha uma posição de rechaçar qualquer tipo de apoio a movimentos de separação, autonomia ou mesmo de ações violentas que poderiam acontecer dentro das cidades. Não há na Rússia nenhuma popularidade para o terrorismo. Não é uma questão popular como, por exemplo, poderia ser nos países árabes a questão pró-Palestina.

P: Alguns analistas creditam os ataques à organização conhecida como Viúvas-Negras. O que justifica o uso de mulheres nesses atentados?

MP: É difícil fazer uma análise mais cuidadosa, afirmar se existe um projeto ideológico consistente por trás dos ataques. Nesses últimos é evidente que tem um nacionalismo local como inspiração imediata; autonomia e liberdade para os povos reprimidos pela Rússia parece ser a fala geral de unidade desse tipo de grupo. Diferente do que acontece em outras áreas, é uma questão muito menos religiosa. As mulheres, no caso, são figuras improváveis como assassinas. Talvez o sistema de segurança russo não estivesse esperando que houvesse uma situação desse tipo, que existisse um engajamento de mulheres em movimentos que pudessem carregar bombas ou explosivos. Então, nesse sentido, o grupo escolhe aquele que chama menos atenção, por isso a escolha de mulheres nesse momento. Provavelmente a vigilância sobre as mulheres, especialmente vestidas de negro, vai ser claramente mais controlada a partir de agora, e vai gerar mais observação, mais desconfiança. Dificilmente algo desse tipo vai acontecer outra vez. Talvez outros atentados, mas não com esse mesmo perfil.

P: Essa reação pode estar ligada ao fato da intervenção do governo russo na Chechênia ter sido excessivamente violenta e ignorado os direitos humanos?

MP: Claro que existe um ar de vingança quase tribal nesse cenário. O fato de não se esperar ataques vindos de mulheres, o que ajudou a driblar a segurança, sem dúvida mostra uma população disponível a exercer um tipo de reação, como a de atacar o centro de Moscou, que evidentemente foi uma retaliação às diversas intervenções violentíssimas que a Rússia cometeu na região da Chechênia e da Geórgia. De modo algum os ataques russos tiveram qualquer pudor.