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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Corrupção e pobreza são estopim da violência na Nigéria

Clarissa Pains - Do Portal

19/03/2010

 Fotos: Getty Images

No início de março, mais de 500 agricultores de aldeias cristãs, em sua maioria mulheres e crianças, foram assassinados em ataques praticados por pastores muçulmanos no centro do país. Desde a independência do Estado nigeriano, em 1960, os conflitos entre populações cristãs e muçulmanas se repetem com diferentes graus de violência.

O país está sob toque de recolher desde janeiro deste ano, quando, de acordo com a policia, 326 pessoas morreram em enfrentamentos semelhantes nos arredores da capital Jos. A região é palco de conflitos por estar na divisa entre o Norte, de maioria muçulmana, e o Sul, de maioria cristã.

Segundo o professor do Departamento de Relações Internacionais da PUC-Rio Alexandre dos Santos, especialista em África, os conflitos são de cunho étnico e religioso, mas o gatilho e o estopim para a violência é mesmo a pobreza da população muçulmana nessa região específica. Para ele, isso alimenta ações de vingança que não devem cessar tão logo, já que a polícia é majoritariamente cristã e possui índices altíssimos de corrupção.

– A pobreza é o catalisador dos massacres na Nigéria e os problemas na cidade de Jos são ainda mais complicados porque a capital está dividida também internamente em setores muçulmanos e bairros cristãos – disse o professor.

Para Santos, a instituição de assembleias que tenham representações proporcionais das etnias que compõem o país é a principal forma de se combater a corrupção. Com mais de 140 milhões de habitantes, distribuídos em mais de 250 etnias, a Nigéria é o país mais populoso da África e ocupa o 158º lugar em IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Sete etnias predominam: hauçás e fulas (29%), ioruba (21%), igbo (18%), ijaw (10%), kanuri (4%), ibibio (3,5%) e tiv (2,5%).

Além disso, o professor explica que, na Constituição, a posse da terra é determinada por uma lei que classifica e divide a população: há os indígenas, aqueles que têm o direito ancestral de posse da terra, e os “estabelecidos” (settlers), que não possuem direito à terra porque seus ancestrais não são originalmente da região, mas de famílias com passado nômade. O último caso é o dos hauçás e dos fulas, que não têm nem mesmo acesso à educação subsidiada pelo Estado.

– Os muçulmanos são os mais pobres por causa da falta de oportunidades, fruto da dificuldade de obter educação e de não poder cultivar as terras mais aráveis. O partido no poder também é ligado aos cristãos, que se beneficiam da riqueza e do favorecimento político. Isso gera, e sempre gerou, tensões nesse cinturão, do qual Jos é a principal cidade – afirmou Alexandre dos Santos.

O professor do Departamento de Ciências Políticas da Universidade de Rhodes, na África do Sul, Paul Henry Bischoff, entrevistado por email pelo Portal PUC-Rio Digital, também acredita que a pobreza e o sentimento de exclusão são os principais causadores dos “profundos problemas sociais” desse continente formado por 53 países.

– As pessoas se sentem marginalizadas pelo governo e por outras comunidades na luta pelos escassos recursos necessários para a sobrevivência e para o desenvolvimento: terra, crédito, educação, saúde e serviços governamentais, como estradas e infraestrutura. Muitas vezes, esse sentimento é alimentado pela corrupção, pela discriminação étnica e pelos enormes gastos das elites. Politicamente, isso causa secessão, populismo, insurreição, sectarismo etc.

Para ele, o problema da África só será resolvido quando a questão agrícola for solucionada. Ele lista o necessário para que isso aconteça:

– Os governos urbanos devem começar a investir na agricultura onde a maioria da população vive, a educação deve ser livre e acessível, a democracia e os movimentos populares devem passar a ser aceitos como parte da cultura política. Os conflitos no continente só serão solucionados quando os políticos não puderem mais manipular as massas para seus próprios fins de curto prazo e quando o resto do mundo permitir que os africanos tomem suas próprias decisões.

O professor Alexandre dos Santos afirmou que o principal impacto do conflito nigeriano no cenário político da África é “o perigo da polarização das discussões” entre os países de maioria muçulmana e os de maioria cristã, assim como entre países onde há uma crescente expansão islâmica, como Moçambique, e outros com expansão das religiões pentecostais, como a África do Sul.