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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

A síndrome da mulher maravilha

Luísa Sandes - Do Portal

08/03/2010

 Arquivo pessoal

A mulher contemporânea “acumulou funções” profissionais, domésticas, maternas, estéticas, amorosas e sexuais. Ela vive pressionada por essa sociedade consumista na qual as informações circulam com uma intensidade frenética. Para conversar sobre a condição da mulher na atualidade e as consequências que essa situação gera na vida dela, o Portal PUC-Rio Digital conversa com a professora do Departamento de Psicologia, Teresa Creusa Negreiros. A profissinal também é doutora em Psicologia Clínica e coordenadora do curso de pós-graduação em Prevenção e Tratamento do Abuso de Drogas da universidade.

Portal PUC-Rio Digital: Zygmunt Bauman escreve o seguinte em seu livro “Amor líquido”: “Você busca o relacionamento na expectativa de mitigar a insegurança que infestou sua solidão; mas o tratamento só faz expandir os sintomas, e agora você talvez se sinta mais inseguro que antes, ainda que essa “nova e agravada” insegurança provenha de outras paragens.”

O tempo todo somos bombardeados pela cultura do amor por meio de filmes, livros, novelas e músicas. A mídia passa a imagem de que só podemos ser felizes se estivermos em um relacionamento, como se a solidão fosse obrigatoriamente negativa. A senhora concorda? Como a senhora vê a situação contemporânea das mulheres em relação ao amor e ao relacionamento?

Teresa Creusa Negreiros: Eu acho que a solidão às vezes é muito bem-vinda, é uma necessidade do ser humano estar com ele mesmo, sem a presença de outros para ele poder se entender, fazer uma reflexão sobre a vida, sobre seus valores e dar asas à imaginação. Enfim, pensar nos sofrimentos, nas dores, nos amores e nas cores da vida. A solidão não é necessariamente negativa, ela só se torna negativa quando é sinônimo de exclusão e rejeição. Ficar sozinho é tão bom quanto o encontro humano porque é o encontro consigo próprio.

O ser humano sempre procurou um par, uma espécie de metade da sua maçã que ficou perdida talvez até no útero materno. Isso não é só da mulher, o homem também. O ser humano procura relacionamentos maduros que possam trazer bem-estar e uma felicidade duradoura. Porém a pessoa deve estar inteira para poder se inteirar com uma pessoa também inteira. As pessoas que lutam desesperadamente para encontrar um príncipe encantado ou uma mulher maravilha vão ficar sós. Uma relação homem-mulher depende de como a pessoa se sente relação a si mesma e ao mundo. Se alguém está tão carente que precisa de outra metade a qualquer custo, interpreta solidão como abandono e se sente insegura, vai ter uma sensação de vazio permanente que não vai ser nunca preenchido.

P: As mulheres são mais sensíveis, até por uma questão hormonal e estão mais suscetíveis a querer se relacionar ou isso também é um estigma imposto pela sociedade?

T: É muito difícil determinar o que é natural e o que é cultural. Há uma base biológica nas relações sociais humanas que pode estar ligada a hormônios ou a um cérebro diferenciado, mas o ser humano nasce em uma cultura e apreende os valores da civilização na qual está inserido. A maternidade, por exemplo, não é uma questão natural para todas as mulheres. Por exemplo, Madre Tereza de Calcutá e Joana D’arc não se realizaram com a maternidade. Seja por conta da natureza, da cultura ou da interação entre essas duas instâncias, a mulher procura o homem forte. Isso ocorre desde tempos remotos, no qual buscava proteger sua prole. Cada época tem um tipo de fortaleza: o da atual é o homem rico. A mulher procura esse príncipe, como se o seu relógio emocional não acompanhasse o ritmo frenético externo e ela ficasse com saudosismo do papel de suas ancestrais, quando eram protegidas.

P: O culto ao corpo feminino em publicidade, prostituição, carnaval e televisão interfere na vida sexual feminina, mesmo que de forma inconsciente?

T: Interfere porque ela está sempre procurando um padrão de beleza muito exigente para ser objeto de desejo. As crianças, ainda muito jovens, já estão com seus cabelos e unhas pintados, usam batom e sapato alto (o que é um crime para a coluna vertebral delas). A mulher pode ficar com medo de ser renegada, de ser pouco qualificada, pouco valorizada no mercado não só de trabalho, como no mercado afetivo sexual. Ela dá muita importância a isso, o que pode prejudicar sua sexualidade. Isso também pode aumentar o narcisismo e com o olhar para o próprio umbigo, deixa de encarar o outro. Isso acarreta a desilusão, pois ela vê o outro da forma que quer, com as fantasias que constrói e não como ele realmente é.

P: Como a senhora vê a pressão de a mulher (além de cuidar de si mesma, dos filhos, da casa) ser bem sucedida profissionalmente?

T: Essa é a síndrome da mulher maravilha. Ela fica com essa fantasia de que pode ser tudo, mas ninguém pode ser tudo. Isso gera muita culpa. Gera problemáticas na educação dos filhos, porque ela vai falhar em alguns momentos. O sucesso é muito valorizado na nossa sociedade. Ela vai se sentir culpada pelo desemprego do marido, pelo uso de tóxico do filho, pela maternidade precoce da filha. Essa jovem maravilha acaba sendo uma mulher madura culpada e uma senhora vítima, que mergulha na autopiedade e na depressão.

P: Em “Amor líquido”, Zygmunt Bauman diz que uma cultura consumista como a nossa favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. Qual a posição da mulher nessa sociedade consumista na qual os acontecimentos estão cada vez mais acelerados? Ela sofre mais com a ansiedade do consumo do que o homem?

T: Ela sofre pela ansiedade do consumo até por uma espécie de pressão de ser competente. Anteriormente bastava ela dar conta da vida doméstica e agora tem que dar conta de muitas coisas. Com isso ela vai manifestando sempre um vazio e essa falta vai ser preenchida pelo consumo. A nossa sociedade é repleta de compulsivos: seja por bebida, sexo, trabalho ou compras. O certificado de garantia citado por Bauman é interessante, pois é caso como se a mulher quisesse um certificado de garantia também nas relações, mas isso não existe. Relação amorosa é sempre risco.

P: A mulher sofre também uma pressão estética, tem a obrigação de estar sempre bonita. Por que isso acontece? Quais as conseqüências disso na vida da mulher contemporânea?

T: A valorização de uma sociedade materialista é o corpo e não o espírito. O indivíduo tem que ser sempre mais jovem e belo do que o outro. Isso gera sentimentos de insegurança, patologias de anorexia e bulimia, pois a pessoa procura um padrão de beleza inatingível. E também a questão da pessoa não saber ficar sozinha, a capacidade de conquistar é muito importante. Riquezas interiores e conquistar sua própria liberdade passam a menos relevantes. A mulher se sente incapaz, o que gera frustração e agressão ao outro e a si própria que culmina em depressão.

P: A culpa de ter pouco tempo para ficar com filhos interfere de que maneira na vida da mulher?

T: A culpa resulta na dificuldade de dar limites aos filhos no sentido educacional. As vezes a culpa é tão forte que a mulher passa a ter dificuldade de discernir o que é certo e errado, o possível e impossível, o justo e o injusto, ela não sabe como apresentar isso para seus filhos. Essa dificuldade pode gerar consequências muito prejudiciais ao futuro deles.

P: O que todas essas pressões geram no inconsciente feminino? No bem-estar das mulheres?

T: A mulher está acumulando dois papéis: o masculino e o feminino. Ela está sobrecarregada com o papel feminino de se tornar bela, de se tornar uma pessoa sempre desejada. Ela fica sobrecarregada com uma espécie de jornada quádrupla de trabalho: externo, doméstico, cuidados com ela mesma e de estudos, porque na sociedade atual é importante manter uma educação permanente. A mulher acumulou papéis. Como o humano é um ser que se adapta, muitas vezes não sente que está sob essas pressões. Isso causa estresse, patologias diversas, físicas e mentais: compulsões, depressões e sintomas de ansiedade.

P: Feminilidade hoje tem a ver com excesso?

T: O homem não pode manifestar suas emoções é um dado cultural. As doenças muitas vezes ocorrem por essa repressão emocional. A mulher exagerada é uma figura muito atual, é como se ela precisasse afirmar os valores nessa sociedade consumista na qual os laços afetivos, a solidariedade, enfim, toda uma dimensão espiritual, está pouco presente. O supérfluo tornou-se necessário. Uma grife é mais importante do que uma vestimenta em si, existe uma espécie de logotipo que faz a diferença. A mulher tem necessidade de fazer parte do grupo de eleitos de uma classe social, aí vem esse exagero. Ela própria não está suficientemente segura.

P: Vinicius de Moraes diz que o amor só é bom se doer. Hoje, o amor faz a mulher sofrer?

T: O amor sempre fez os seres humanos sofrerem porque é um investimento muito forte em um outro que não é impossível de ser controlado. A mulher acha que pode mudar o ser amado. Mas a pessoa só muda se quiser, não através do outro. O amor só é mais intenso se estiver no limite da dor e do prazer. Basta a retirada do prazer para causar a dor. Por exemplo, se a pessoa se afasta por algum motivo qualquer, causa dor. Se ela suspeita que vai ser trocada, causa dor. Assim como amor e ódio, sofrimento e prazer são faces da mesma moeda.