Projeto Comunicar
PUC-Rio

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

Rio de Janeiro, 24 de julho de 2024


Mundo

Há 20 anos: Nelson "Madiba" Mandela deixa a prisão

Lais Botelho e Mauro Pimentel - Do Portal

21/02/2010

 Mauro Pimentel

Depois de passar 27 anos atrás das grades, Nelson Mandela, também conhecido como "Madiba", um título honorário dos clãs dos Mandela, foi libertado há 20 anos, em 11 de fevereiro de 1990. O fato representou a queda do regime segregacionista do apartheid na África do Sul.

Considerado por muitos um guerrilheiro em busca da liberdade, para o governo sul-africano da época Mandela era um terrorista. Formado em Direito e um dos principais líderes do Congresso Nacional Africano (CNA), o primeiro presidente negro da África do Sul lutou contra o modo de governo que negava aos negros direitos políticos, sociais e econômicos.

Coordenou campanhas de sabotagem contra alvos militares e do governo, planejou guerrilhas e arrecadou fundos para o treinamento paramilitar do grupo. Não temeu as retaliações do regime racista e dedicou sua vida para salvar a de um povo à margem da sociedade. Foi preso em agosto de 1962, sentenciado a cinco anos de prisão e em 1964 foi condenado à prisão perpétua.

Em 1985, Mandela recusou trocar liberdade condicional pelo fim da luta armada. Cinco anos depois, pressionado pelas atividades do CNA e pela comunidade internacional, o então presidente sul-africano Frederik Willem de Klerk ordenou sua libertação e tirou o partido de Mandela da ilegalidade.

Nelson Mandela governou o país de 1994 a 1999 e ganhou o respeito internacional devido a sua luta em prol da reconciliação interna e externa.

 "Tenho defendido o ideal de uma sociedade democrática e livre na qual todas as pessoas convivam em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal pelo qual espero viver e que espero alcançar. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer", afirmou em um julgamento em 1963.

Em uma entrevista concedida ao Portal PUC-Rio Digital, o professor de História da África do Departamento de Relações Internacionais da PUC-Rio, Alexande Dos Santos, ressalta a importância de Nelson Mandela na história da África do Sul e analisa a mudança de perfil do país no cenário africano e internacional. Para o especialista, Nelson Mandela despertou os sul-africanos para o entendimento entre as raças.

 Mauro Pimentel Portal PUC-Rio Digital: Como o senhor define a África do Sul antes e depois da libertação de Nelson Mandela?

Alexandre dos Santos: Antes da libertação, a África do Sul vivia em uma realidade de separatismo racial entre negros, brancos e boêres. Após 1990, o país despertou para uma tentativa de entendimento entre as raças, apesar do temor de vingança. Eu acho que a vitória da África do Sul na Copa do Mundo de Rugby em 1995 sedimentou bem a ideia de que era possível criar uma identidade sul-africana sem conflitos, juntar todas as cores. Daí eles serem chamados de “nação arco-íris”.

P: Com a libertação de Mandela, o regime do apartheid chegou ao fim. O professor considera que há hoje no país uma integração total entre negros e brancos?

A: Acredito que total seja uma palavra perigosa mas podemos falar que há hoje uma integração muito forte. Apesar da existência de extremistas negros e brancos e seus partidos. Há também uma cidade com 3 mil habitantes, chamada Orania, que ainda vive sob o regime do apartheid. Divergências existem, faz parte da democracia ter diferentes representatividades.

P: Ao assumir a Presidência sul-africana em 1994, Mandela teve a preocupação em manter a paz entre negros e brancos. O senhor acha que essa posição de não desagradar nenhum dos lados foi um impasse no seu mandato?

A: Eu acho que o grande desafio do Mandela foi exatamente esse, o de encontrar o caminho do meio. Ele tinha que apaziguar a ala mais esquerdista dentro do CNA e provar para os brancos que eles não iriam tomar o poder e fazer uma reforma no país, com demissões e expulsões.

P: Superado o apartheid, qual seria o maior problema no país hoje?

A: Os maiores problemas enfrentados pelos sul-africanos hoje são de cunho político e social A corrupção e o vírus da AIDS são um deles. O Mandela deu início a projetos na área da saúde, com a distribuição de remédios e a disseminação de informações e seu sucessor pôs tudo a perder. O verdadeiro culpado das proporções da AIDS na África do Sul hoje é o Thabo Mbeki. Ele nomeou uma mulher para o Ministério da Saúde que negava que o HIV tinha ligações diretas com a AIDS. Dizia que a melhor precaução era tomar vitamina de beterraba. Daí o seu apelido “madame beterraba”.

 Mauro Pimentel P: Alguns críticos consideram que o afastamento de Thabo Mbeki e o escândalo sexual envolvendo o atual presidente Zuma tenham destruído o legado de Mandela. O senhor concorda?

A: O legado de Mandela jamais vai terminar. Eles podem ter uma péssima administração, mas as raízes são muito profundas.

P: Sendo escolhida como país sede da Copa do Mundo, derrotando o Egito e Marrocos, a África do Sul foi colocada em uma posição de destaque em relação aos outros. O que o senhor acha da escolha?

A: A escolha faz parte de um desenvolvimento de uma nova mentalidade sobre a África. Acho que é mais uma oportunidade e um voto de confiança.

P: Como o senhor definiria o papel do país hoje?

A: O país representa hoje um exemplo de superação social e política. No setor econômico, seria o farol do desenvolvimento, ajudando a alvancar toda a economia dos países vizinhos. Além disso, é hoje um grande parceiro econômico principalmente para o Brasil.

 Mauro Pimentel