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Rio de Janeiro, 8 de agosto de 2022


Cultura

O legado transformador de Claude Lévi-Strauss

Bruna Santamarina e Luísa Sandes - Do Portal

04/11/2009

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Anunciada pela Academia francesa nesta terça-feira, 3, a morte de Claude Lévi-Strauss, aos 100 anos, tem um simbolismo proporcional à transformação histórica imprimida pelo pai da antropologia moderna. O autor de clássicos como O pensamento selvagemTristres Trópicos, este baseado na incursão brasileira entre 1935 e 1939, influenciou gerações de pensadores. Mais que isso, mudou o eixo do pensamento científico. Ao legado da renovação intelectual, da diversidade contra a pasteurização cultural, soma-se a pergunta: quais os caminhos antropológicos depois de Lévi-Strauss?

– Agora, vai continuar a polêmica se os antropólogos vão seguir Lévi-Strauss ou caminhos diferentes – prevê o antropólogo e professor da PUC-Rio José Carlos Rodrigues.

José Carlos reforça o coro dos que apontam o trabalho de Lévi-Strauss como divisor de águas. Da "obra gigantesca, praticamente finalizada" do antropólogo, o professor da PUC-Rio destaca a introdução de um novo olhar sobre as tribos. Antes do intelectual, nascido em 1908 em Bruxelas, os grupos eram divididos entre civilizados e primitivos, lembra José Carlos. Com os estudos do pensador, um dos fundadores do estruturalismo, o ser humano passou a estar teoricamente no mesmo plano.

Everardo Rocha, também antropólogo e professor da PUC-Rio, afirma que Lévi-Strauss deixa um importante legado não só para a sua área de estudos específica, mas para as ciências humanas, as artes, a humanidade. Segundo Everardo, duas das principais contribuições do pioneiro da antropologia moderna são o "trabalho com generosidade" e a "voz às minorias":

– Ele (Lévi-Strauss) mostrou que os seres humanos são iguais. Não há superioridade de nenhuma espécie. Estamos todos em um mesmo barco, vivendo em um pequeno planeta. Não somos melhores ou piores por essência. Ele relativizou qualquer possibilidade de criar diferenças, principalmente entre o Ocidente e as tribos indígenas.

Santuza Cambraia Naves, professora do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio, concorda que Lévi-Strauss deixa um legado imenso, uma vez que sua teoria foi inteiramente nova e multidisciplinar e abrangeu campos como a filosofia, as artes e a música, fato raro entre os acadêmicos.

– A morte dele não mudará muita coisa, pois seus ensinamentos são sempre recuperados e atualizados.

De 1935 e 1939, Lévi-Strauss lecionou sociologia na Universidade de São Paulo (USP) e fez várias expedições pela região central do Brasil, onde estudou e conviveu com os índios bororós, nambikwaras e tupis-kawahib. Estas experiências o orientaram no campo antropológico de maneira determinante. Ele jamais aceitou a hipótese de que a mente do homem civilizado fosse superior à do selvagem.

A professora Santuza conta que o antropólogo tinha críticas em relação aos brasileiros, principalmente os paulistas, com quem teve mais contato. Credita isso ao fato de os intelectuais de São Paulo buscarem estar sempre afinados com "o último grito, a última moda e o último pensamento".

– Lévi-Strauss aprendeu mais com o Brasil do que o Brasil com ele – avalia Santuza.

Membro de família judia francesa, Claude Lévi-Strauss estudou direito e filosofia na Sorbonne, em Paris. Esteve exilado nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Quando retornou à França, deu continuidade a sua carreira acadêmica, fazendo parte do círculo intelectual de Jean Paul Sartre. Em 1959, assumiu a direção do departamento de Antropologia Social do College de France, onde ficou até se aposentar, em 1982.

Foi membro da Academia de Ciências Francesa e de muitas outras, em especial europeias e norte-americanas. Também é doutor honoris causa das universidades de Bruxelas, Oxford, Chicago, Stirling, Upsala, Montréal, México, Québec, Zaïre, Visva Bharati, Yale, Harvard, Johns Hopkins e Columbia. Aos 97 anos, em 2005, recebeu o 17º Prêmio Internacional Catalunha, na Espanha.

O antropólogo sofria de mal de Parkinson e completaria 101 anos no próximo dia 28.