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Rio de Janeiro, 8 de agosto de 2022


Cultura

O Rio de Janeiro na literatura

Carolina Frossard - Do Portal

28/10/2009

Lucas Landau

Há muito do universo carioca que está diretamente relacionado com o relevo, a praia, o mar e a divisão espacial da cidade da forma como figura nas escalas frias da cartografia urbana. No entanto, há também qualquer coisa no cenário que em nada se assemelha à Pedra da Gávea em concretude e é menos palpável que o vento que permite o voo das asas-deltas. Trata-se de um vasto material simbólico tecendo uma geografia de signos que se confunde com a física. Não é matéria que se possa ter em mãos, mas objeto de livro, de música e de filme. É aquilo que autores como João do Rio, Rubem Fonseca, Carlos Drummond de Andrade e o cartunista francês Jano tiveram o objetivo de capturar em suas obras.

Para Sergio Mota, professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio, não se pode separar literatura de cidade:

– Acho que a relação entre literatura e urbanismo é fundamental, não só porque diversos escritores tematizaram o Rio em suas obras, mas principalmente porque a cidade se revela como escrita, como um grande texto, constantemente renovado pelas mudanças do tecido urbano. A idéia de narrativa é algo eminentemente urbano, a cidade vai produzindo sem fim os seus diversos relatos.

Por ser multifacetado, o Rio é matéria-prima para representações das mais variadas. No entanto, o intuito de quem retrata a cidade em suas obras não é o de simplesmente mimetizar a realidade. A professora Eliana Yunes, Vice-Decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas (CTCH) da universidade, aponta para este aspecto das obras literárias:

– A literatura, em geral as artes, não se pretende retratista da realidade; ao contrário, deforma, reforma, conforma algo perturbador para que então se possa perceber “o real” em meio à estratificação da realidade.

A proximidade física que existe entre elementos que são tipicamente cariocas e, ainda assim, muito distintos, é uma das especificidades mais exploradas por quem deseja pintar um retrato do Rio, capaz de ir além do cartão-postal. As relações em alta tensão travadas entre o núcleo e a periferia e a forma como tais grupos se chocam quando misturados figuram em obras que se tornaram ícones da representação do universo carioca.

No conto Feliz Ano Novo (1975), de Rubem Fonseca, uma festa de réveillon de classe média alta é brutalmente interrompida pela presença de um trio de marginais que não pertence ao contexto. O conto retrata dois pólos da sociedade carioca que não se comunicam, apontando para as tensões entre os donos da festa e aqueles à margem desta sociedade, sem possibilidade de pertencimento.

A incomunicabilidade entre os que se excluem e aqueles excluídos, para a autora Eliana Kuster, doutoranda em Planejamento Urbano no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR / UFRJ), resulta em uma cidade segregada. "Nenhum dos dois grupos retratados no conto se vê como pertencente a esse coletivo urbano. Nenhum deles têm sentido de “comunidade”, de aspecto em comum, com a cidade.", explica, no artigo Comemorar na cidade: Clarice Lispector, Rubem Fonseca e suas felicidades urbanas (2008), publicado na Revista Rio de Janeiro, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

O distanciamento entre as classes que não se reconhecem costuma levar à violência – física e simbólica. Em Feliz Ano Novo, a ação prossegue com agressões cruéis, sofridas pelos “bacanas” da festa de réveillon. No conto Passeio Noturno I (1975), do mesmo autor, o Rio de Janeiro volta a ser retratado como uma cidade partida. A narrativa descreve os atos de um morador da Zona Sul que de madrugada se desloca para a periferia carioca com o objetivo de atropelar mulheres desconhecidas. Fora de seu ambiente, o assassino da classe alta se permite desempenhar atos da mais bárbara violência.

Em A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro (1992), também de Rubem Fonseca, o personagem Augusto flana por uma cidade em ruínas e visivelmente segregada. Na pesquisa para um futuro livro, atira-se de corpo inteiro nas ruas em decadência do Rio – mais especificamente, nas ruas do Centro. Lá, a experiência urbana atinge seu ápice, devido à convergência de diversos fluxos. Em sua trajetória, Augusto convive com prostitutas e moradores de rua, lidando com os resíduos da cidade que tenta decifrar. Rodeado pela história da metrópole, o personagem se rende à nostalgia e se esforça para resgatar aquilo que se desfaz. No Centro, a memória do que já foi belo se confronta com sua realidade em ruínas.

Augusto e o Rio se relacionam através da entrega física e espiritual do personagem, que se deixa engolir pelas ruas cariocas. Esse magnetismo típico das cidades, presente em A Alma Encantadora das Ruas (1908), de João do Rio, instiga artistas e escritores e dá sentido aos flâneurs – aqueles que percorrem a pé os caminhos da vida urbana. No texto, o autor exalta o espírito da rua, apresentada como o principal elemento constituinte da cidade. João do Rio enaltece os tipos que se dedicam à experiência urbana, seja para traduzi-la em obras literárias ou simplesmente pelo caminhar descompromissado do flâneur, cujo espírito vagabundo é elogiado: "É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí, o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas.".

Embora cite outras metrópoles, deixando claro que a alma da rua é um conceito que transcende contextos culturais específicos, João do Rio tem como foco a cidade que leva no nome. Mostrando uma intimidade muito grande com ruas e personagens cariocas, o autor traça um mapa muito sensível da cidade, ressaltando elementos que não se fazem presentes em qualquer cartografia.

Em A Alma Encantadora das Ruas, a constante mutação, típica dos grandes centros urbanos, está entre os aspectos apresentados: “Olhai o mapa das cidades modernas. De século em século, a transformação é quase radical. As ruas são perecíveis como os homens.” Quem sofre com as nem sempre graduais mudanças urbanas são aqueles que mantêm relações sentimentais e muito próximas com as ruas das cidades e seus universos. O tema da nostalgia está presente no conto, em que Augusto tenta resistir à modernidade que se apodera de sua cidade. No entanto, aos seres essencialmente urbanos não resta alternativa: é preciso reconhecer e aceitar a narrativa inconstante protagonizada pela metrópole.

O poema Elegia Carioca, de Carlos Drummond de Andrade, é permeado por um imenso saudosismo. Nostálgico, o eu-lírico elenca amigos ausentes, entre desencontros e mudanças na paisagem. No entanto, seus lamentos tecem um discurso resignado, que pouco tem de revolta. Na última das seis estrofes, o personagem reconhece sua unidade com a metrópole e sintetiza a indivisibilidade do relacionamento intenso e repleto de ambiguidades estabelecido entre a cidade e quem a habita:

 “Ser um contigo, ó cidade
é prêmio ou pena? Já nem sei
se te pranteio ou te agradeço
por este jantar de luz que me oferece
se a ácida sobremesa de problemas
que comigo repartes
no incessante fazer-se, desfazer-se
que um Rio novo molda a cada instante
e a cada instante mata
um Rio amantiamado há 40 anos.”

O Rio visto de fora

Muitas vezes, as representações do Rio de Janeiro feitas a partir de um olhar estrangeiro são consideradas menos enviesadas do que as que surgem de uma visão local, já condicionada por noções pré-concebidas. Para o professor Sergio Mota, o olhar de fora tem um frescor inerente, que provém da surpresa perante o desconhecido:

– O olhar estrangeiro é uma estratégia simbólica proposta por Walter Benjamim, para ver a cidade com olhos livres, mantendo a relação de novidade e surpresa com o que é percebido na relação entre sujeito e cidade. Esse olhar renovado, limpo de posturas pré-moldadas, está ligado às ideias de novidade, surpresa e contentamento, aguçados por um intenso interesse, para fornecer um olhar carregado de curiosidade. E, ao mesmo tempo, se estabelece um olhar impressionista, que pode variar a cada momento, dada a quantidade de leituras dessa cidade ávida para se revelar como escrita.

Este olhar estrangeiro funcionou a favor do cartunista e desenhista francês Jean le Guay, mais conhecido como Jano. Em suas ilustrações do povo carioca, presentes no livro Os cadernos de viagem de Jano: Rio de Janeiro (2001), muitos o julgaram capaz de capturar a alma da cidade. Para tal, o francês usou uma estratégia de imersão no universo carioca, com o qual teve um contato próximo e intenso. O documentário Rio de Jano (2001), de Anna Azevedo, Eduardo Souza Lima e Renata Baldi, mostra a trajetória do cartunista pelos principais elementos deste imaginário carioca. Seja no retrato dos banhistas da praia de Copacabana, ou na caricatura da torcida flamenguista nas arquibancadas do Maracanã, Jano atingiu o difícil objetivo de ir além do distanciamento do cartão-postal, adicionando à paisagem personagens capturados com perspicácia e sensibilidade.