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Rio de Janeiro, 20 de junho de 2024


Cultura

Cacá Dieges explica o novo olhar das favelas

Marina Tolipan - Da sala de aula

09/10/2009

 Divulgação

Influenciado pelo neo-realismo italiano e pela nouvelle vague francesa, surgiu no fim dos anos 50 o Cinema Novo no Brasil. O movimento apostou mais no conteúdo do que na forma e elevou o cine­ma nacional a uma nova dimensão. “Uma câmera na mão e uma ideia na ca­beça”, assim definiu Glau­ber Rocha. As temáticas eram sobre a realidade do país, os filmes eram feitos com baixo orçamento e o objetivo era romper com a linguagem cinemato­gráfica da época.

O iní­cio dos anos 60 deflagrou o Cinema Novo. Deus e o Diabo na Terra do Sol, Vidas Secas e Cinco Vezes Favela firmaram os con­ceitos do movimento. Os dois primeiros filmes, respectivamente de Glauber Rocha e Nel­son Pereira dos Santos, tratavam dos conflitos do sertão brasileiro, da difi­culdade de viver diante da pobreza e da seca que afli­gem o nordestino. Em Cinco Vezes Favela, são apresentadas por cinco diretores histórias sobre o cotidiano das favelas cariocas: Zé da Cachor­ra, Couro de Gato, Escola de Samba Alegria de Viver, Um Favelado e Pedreira de São Die­go. Grandes nomes do cinema atual, como Cacá Diegues e Domingos de Oliveira, começaram com esse projeto.

Os anos se passa­ram e o envolvimento de Cacá Diegues com jovens de comunidades do Rio de Janeiro o fez repen­sar o filme de 1962. O crescimento da demo­cratização cultural atra­vés de cursos populares e da facilidade de produzir filmes incentivaram o di­retor a realizar um novo projeto. Uma nova versão de Cinco vezes Favela seria produzida, com a visão do pró­prio morador. Os jovens escolheram suas histó­rias e, após muitas aulas, a equipe técnica foi decidi­da. Nesta entrevista, Cacá Dieguyes revela os bastidores do novo desafio.


ENTREVISTA: Cacá Diegues

– O que o motivou a fazer uma releitura de Cinco Vezes Favela?
– Há mais de dez anos, comecei a dar aulas e fazer palestras sobre audio­visual em várias comunida­des do Rio de Janeiro. Aju­dei mesmo a fundar o curso de uma delas, a CUFA (Central Única de Favelas), se­diada na Cidade de Deus. Foram tantos e tão talento­sos os jovens cineastas que conheci nesses encontros, que imaginei que estava na hora de fazer um filme, no mesmo formato daquele que foi um dos pilares fun­dadores do Cinema Novo. Só que agora escrito, diri­gido e totalmente realiza­do por eles mesmos, esses jovens cineastas de favelas cariocas.

– Qual é a diferença entre a proposta de 1962 e a de 2009?
– A mesma diferença do Bra­sil daquela época para o Brasil de hoje. O cinema brasileiro avançou, o Brasil se modernizou, mas alguns de seus problemas sociais e cruciais permaneceram insolúveis. Mas agora são eles mesmos que vão falar sobre suas vidas, e não cinco bem intencionados jovens uni­versitários de classe média, como foi em 1962.

– Como foi o processo de seleção das histórias do fil­me?
– Há dois anos, organizamos cinco oficinas de roteiro com o patrocínio da Glo­bo Filmes. Cada uma delas se deu numa comunidade carioca, com o apoio de uma organização local: a CUFA em Cidade de Deus, o Nós do Morro no Vidigal, o AfroReggae em Parada de Lucas, o Observatório de Favelas na Maré e o Cine­maneiro/Cidadela na Lapa. Cada uma delas teve uma média de 50 alunos, todos moradores de cada uma dessas comunidades. Os alunos apresentavam seus argumentos e depois vota­vam para escolher um. Esse escolhido foi coletivamente desenvolvido como roteiro, pela respectiva oficina.

– Quais são as maiores de­ficiências do cinema brasi­leiro atualmente?
– O cinema brasileiro está vivendo um momento de crescimento, diversidade e muita qualidade. Falta muito para que considere­mos esta uma economia estável e permanente na vida do país, mas o talento e a competência das novas gerações de cineastas têm feito nossos filmes se destacarem junto ao público e à crítica. Alguns deles já são hoje conhecidos inter­nacionalmente, com filmes cultuados no mundo intei­ro.

– Quais são seus conselhos básicos para um cineasta iniciante?
– Todo cineasta precisa de obsessão e paciência, as virtudes essenciais para quem quer fazer cinema. E ser sincero – a sinceridade é indispensável ao bom fil­me.


* Texto produzido em sala de aula para a disciplina Comunicação Impressa, ministrada pela professora Suely Caldas.