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Rio de Janeiro, 25 de junho de 2022


País

A paz que todos nós queremos construir

Fernanda Ralile - Do Portal

29/11/2007

Paz. Palavrinha simples, curta, muito ouvida no dia-a-dia e usada por todos em diferentes contextos. Mas a impressão é que sempre falta alguma coisa... Com a idéia de fazer a universidade ser, além de um local de aprendizado, um espaço para o diálogo, a PUC-Rio promoveu, durante três dias, em novembro, o "PUC Pela Paz: universidade a serviço da sociedade", que mobilizou o campus numa reflexão coletiva, na busca de soluções e caminhos alternativos que levem ao encontro da tão sonhada... paz. Em várias salas e locais da universidade se viam e ouviam debates - às vezes em áreas ao ar livre, ou no próprio pilotis, entre microfones, poltronas feitas de garrafas recicladas e almofadas, tudo num clima bem informal.

“Funcionários, alunos e professores uniram suas forças para construir um processo em nome da paz, em que todos possam aproveitar ao máximo”, disse Marivani Aquino, uma das organizadoras. Para o padre Francisco Ivern, reitor em exercício, que esteve presente no primeiro painel de discussão, “Universidades construindo a paz”, o "PUC pela Paz" é uma forma de ver como as universidades e os organismos políticos e sociais podem contribuir para essa construção. Além dele, estiveram presentes os professores Paulo Alcântara, reitor da Universidade Castelo Branco e ex- reitor da UFRJ, e Sônia Wanderlei, que representava o reitor da Uerj, Nival Nunes. Sônia começou o debate falando que o papel da universidade é muito mais do que produzir conhecimento, mas fazer uso dele para buscar, com criatividade, soluções para os problemas da sociedade. Problemas esses que são nossos também. “Por isso esse tema é de fundamental importância para ser discutido aqui. Não basta estar pensando só academicamente no que pode ser feito, mas agir”, disse ela.

“As religiões construindo a paz” foi o tema do segundo painel de discussão. Participaram Diane Kuperman, da Fraternidade Cristã Judaica, o padre Marcial Maçaneiro, que é assessor da Confederação Brasileira de Bispos do Brasil (CNBB), e o professor João Dornelles, como mediador do debate. Diane e Marcial concordaram que as brigas religiosas costumam ser frutos da falta de conversa e de informação entre os grupos. “Quando a gente não estuda a questão, a violência é promovida em cima de preconceito e ignorância, é isso que acontece nas religiões”, diz Marcial. Quando questionados a respeito dos entraves para o diálogo inter-religioso, respostas diferentes foram dadas. Para Diane o que acontece é que, quase sempre, "um acha que o outro fala com a intenção de querer convertê-lo, o que nem sempre é verdade". Ela defende a idéia de que você pode ter sua identidade religiosa e ao mesmo tempo não só respeitar o próximo como ser capaz de ajudá-lo. Marcial diz que os líderes religiosos precisam assumir e se obrigar ao diálogo, que o empecilho está na falta dele. Andréa Mendonça, coordenadora Nacional das Escolas de Perdão e Reconciliação, reconhece que a realização do "PUC pela Paz" é a prova viva de que o “eu” pode construir a paz - e esse foi justamente o tema do terceiro painel. Em debate, o perdão, que se torna elemento fundamental no caminho para uma melhor convivência - não significa abrir mão da justiça, mas ver o outro como alguém que pode ajudar, e não como uma ameaça.

Nesta terceira mesa, o psicanalista Jurandir Freire Costa falou sobre uma certa "ética do perdão", dizendo que ela não está somente ligada ao campo da religião. “Paz não é um adereço que a gente pode colar à nossa personalidade e retirar quando bem quisermos. A gente pode até viver sem ela, mas o preço pago é a devastação psicológica de todos nós e a descrença de valores que nos são básicos.” O sociólogo Luiz Eduardo Soares encerrou este painel dizendo que a associação simplista e mecânica entre pobreza e violência é, na verdade, um grande equívoco - e que pode levar a planos genocidas. Para ele, toda generalização requer muito cuidado, pois elas podem acabar legitimando e fundamentando políticas irresponsáveis e inconseqüentes.

Outras mesas completaram o evento. O painel "Governos pela Paz", por exemplo, reuniu o secretário nacional de Segurança Pública, Antônio Carlos Biscaia, e o secretário de Segurança do Estado do Rio, Marcos Derenne. Como moderador, o escritor Alcione Araújo. O foco era o caminho para se combater a violência. Para Biscaia, o maior problema da segurança é a falta de direitos básicos garantidos à população. "Isso gera violência", disse ele. “A impunidade aliada à corrupção nos leva a quase uma guerra, na qual somos vítimas dos dois lados”, observou o escritor Araújo. O secretário Derenne disse acreditar acredita que a polícia está sobrecarregada devido a falhas em instituições de saúde e educação, por exemplo. “A polícia tem obrigação para com a segurança. Se o estado não tem uma estrutura decente, fica difícil reverter o quadro que é causado pela desordem. Mas mesmo assim continuamos indo lá, subindo o morro e desarmando os criminosos”, explicou.

E ainda houve eventos ecumênicos, exibição de filmes e shows. Dois quilos de alimento foram o preço do ingresso para assistir ao show do cantor e compositor Marcelo D2, no ginásio. Com sucessos como “Maldição do samba”, “À procura da batida perfeita”, “Qual é?”, “Profissão MC” e “1967”, D2 arrastou fãs e curiosos ao ginásio. No palco, D2 pedia ao público que cantasse com ele e o imitasse nos gestos. Recado prontamente aceito pela platéia animada. E que estava, bem no embalo do evento, na maior paz.