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Rio de Janeiro, 23 de julho de 2024


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Felipe Machado - Do Portal

22/11/2007

Apesar da evolução na integração de mulheres nas Forças Armadas, as resistências ainda são grandes por parte dos homens. No entanto, não se pode generalizar, como explica a socióloga portuguesa Helena Carreiras, do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), em Lisboa. Ela diz que cada país tem sua peculiaridade e cada caso está inserido em um contexto. Em decorrência disso, há diferentes formas de reação tanto por parte das mulheres, que podem desenvolver atitudes femininas ou masculinas em excesso, quanto por parte dos homens, que podem ter uma idéia de integração, ou reagir negativamente até com assédio sexual.

Por outro lado, Helena diz que a presença das mulheres nas missões de paz como oficiais, e não mais somente em serviços de apoio, ajudou a diminuir os abusos sexuais nas unidades e melhorou a relação das Forças Armadas com a sociedade civil. “Razões que atraem as mulheres para as Forças Militares podem variar muito e, seguramente, a motivação inicial vai sofrer alterações. Quem entra pela vontade de ter uma vida estruturada em um mundo organizado e quem entra querendo ter uma vida de aventura, ou mais operacional”, explica ela nessa entrevista.

Como foi seu trabalho nas Forças Armadas?

Consegui acesso para estudar as Forças Armadas portuguesas através de pessoas que tinham feito o trabalho anteriormente. Então, o primeiro trabalho que fiz foi minha tese de graduação. Estudei os jovens no serviço militar em Portugal. Depois, continuei a fazer minhas investigações, me interessava muito o tema do conflito e como as sociedades geram o conflito. Continuei, estudei a entrada das primeiras mulheres nas Forças Armadas em Portugal, o que me levou a desenvolver ainda mais o tema numa perspectiva comparativa internacional.

As mulheres entraram nas Forças Armadas por necessidade das Forças Armadas?

Há uma mistura de dois tipos de fatores importantes. Elas nunca teriam podido entrar se não houvesse condições sociais e políticas. Por exemplo, o desenvolvimento da democracia, com a idéia de cidadania, da importância de estender os direitos de igualdade aos cidadãos em geral, sem exceções de sexo, raça. Sem essa base sociopolítica e o desenvolvimento de processos de inclusão nessas sociedades não teria sido possível. Na base dessa condição, a razão que mais diretamente provocou foi quando muitas dessas forças tiveram necessidade de mulheres para preencher os seus quadros de pessoal, ou melhor, ampliar a base de recrutamento, na expectativa de que não teriam voluntários homens em número suficiente. Foi por essa razão instrumental e pragmática que as mulheres foram chamadas a aspirantes.

Pelas Forças Armadas terem a imagem de um ambiente masculino, como foi a aceitação por parte das próprias mulheres? Elas tomaram a iniciativa de procurar ou as Forças Armadas convenceram-nas?

Há muita variação no tempo e no espaço. No início, dependendo das condições econômicas. Nos países industrializados e mais desenvolvidos, as mulheres aderiram a essa nova possibilidade de forma abrangente. Era um triunfo para muitas delas. Estudos sobre as motivações mostram que muitas dessas mulheres quiseram ir para as Forças Armadas porque era um espaço que lhes era fechado. E isso é a conquista da possibilidade de fazer coisas que eram proibidas. Um estudo que fiz sobre as primeiras mulheres militares em Portugal mostrou que, em termos das motivações, elas eram mais atraídas por aspectos institucionais, como a busca de um ambiente disciplinar, de uma vida estruturada. Era a razão mais importante, e não tanto o emprego, ou a segurança no trabalho, que muitos imaginavam que seria. Isso também era, porém o mais importante era essa atração por um ambiente organizado. Claro que as motivações vão variando. Há países que continuam a ter muitos candidatos femininos, e a preencher as vagas que têm. Outros países têm dificuldade em chegar a porcentagens que vão fixando, e não conseguem porque as mulheres não aderem tanto. Depende muito das condições sócio-econômicas do país. Não é possível generalizar.

E a aceitação por parte da sociedade civil?

Nos países ocidentais mais industrializados, um universo que conheço melhor, naturalmente, a opinião pública, em geral, é bastante favorável à presença de mulheres nas Forças Armadas. As opiniões dividem mais no que diz respeito às funções. Muitas pessoas consideram que elas só devem estar nas funções mais logísticas, nos serviços de apoio, outros acham que deveriam poder atender também às forças de combate.

Em que contexto internacional as primeiras inserções das mulheres nas Forças Armadas ocorreu, em termos das relações internacionais?

Foi nos anos 1970, no pós-Vietnã. Quando nos EUA se instituiu a chamada All-Volunteer Force, um contingente exclusivamente voluntário, o serviço militar deixou de ser obrigatório. Justamente nesse contexto houve a necessidade de ampliar a base de recrutamento. Contando com as mulheres, pôde-se recrutar pessoal mais qualificado também, não tiveram que contar com os piores dos homens. Aliás, em muitos países que abriram mais recentemente as fileiras, já havia experiências anteriores. Em Portugal elas entraram nos anos 1990, mas durante a guerra colonial havia um corpo de enfermeiras na Força Aérea. Na Inglaterra, as mulheres entraram com esse novo estatuto mais recentemente, mas houve experiência histórica de participação, de recrutamento de mulheres para as forças durante a Primeira e Segunda Guerra Mundial.

Com que funções?

Sempre em papéis auxiliares, em corpos separados. A novidade dos anos 1970 é que elas começam a ser integradas em circunstâncias de cada vez maior igualdade, em corpos mistos, e não em corpos exclusivamente femininos – como eram nesses conflitos históricos –, com um status plenamente militar, com direitos e deveres idênticos aos dos seus pares masculinos. Essa é a grande diferença.

Como se deu e como se dá hoje o tratamento das mulheres nas Forças Armadas por parte das mulheres?

Não é fácil generalizar, é preciso buscar contextos diferentes, em que as situações também são diferentes. Mas, em geral, ser minoria numa organização em que há outro grupo dominante tem sempre alguns problemas. Mais ainda quando há uns que associam a essas concessões papéis sociais femininos e masculinos com os quais, relativamente, a missão das Forças Armadas tem uma relação muito forte. Há resistências à presença feminina: as mulheres sentem o problema de isolamento social, por serem muitas vezes vítimas de estereótipos, mas procuram também reagir a isso de formas diferentes. Há algumas tipologias sobre diferentes formas de reação. Há mulheres que tendem a desenvolver uma atitude exageradamente feminina, por exemplo. Há outras que tendem a fazer o contrário, uma atitude masculina para se identificarem com a instituição em que estão. Há outras, que é a maioria, creio eu, nos estudos que conheço, que desenvolvem uma posição mais conformista. Querem manter um perfil baixo, não ser demasiado vistas, não querem que notem muito a sua presença, nem ser tão avaliadas ou testadas permanentemente. Portanto, há muitas formas de adaptação.

E os homens?

Conheço uma tipologia em que se distinguem os cavalheiros, homens que têm sobre as mulheres uma atitude de proteção, sobretudo, e aplicam códigos de relacionamentos que tem a ver com o modelo do cavalheiro, do protetor. Há os machistas, naturalmente, que reagem negativamente à presença das mulheres e não evitam muitas vezes exprimi-lo em atitudes ou comportamentos que podem ir da mera ironia ao assédio sexual. Um outro perfil são os integradores, que partilham desses ideais da igualdade, sabem que a instituição tem que mudar e que a melhor maneira de mudar é integrar esses novos membros.

E em quais países elas sofrem mais dificuldades?

O meu índice em princípio procura uma parte da resposta a essa pergunta. Há países onde a integração atingiu níveis mais elevados, o que não quer dizer que as mulheres não sintam, muitas vezes, maiores dificuldades. Às vezes, quando o número de mulheres é maior, elas também podem ser vistas como mais ameaçadoras. Portanto, não há estudos comparativos que permitam dizer em que países é que sofrem mais. Na Polônia, na Turquia, elas estão em número reduzidos, completamente confinadas às especialidades, às áreas tradicionalmente mais femininas, mas podem estar muito felizes com isso. Portanto, depende sempre do que significa pensar onde sentem mais dificuldade. Não é fácil responder a isso, e é preciso fazer uma investigação mais qualitativa, em determinados contextos. Não há uma resposta evidente e direta para essa questão.

Quais são os motivos que podem atrair as mulheres para as Forças Armadas daqui para frente?

Daqui para frente depende muito de onde e quando estamos a falar. Quando, nem tanto, mas no Brasil, em Portugal, ou nos EUA, será muito diferente. Razões que atraem as mulheres para as Forças Militares podem variar muito e, seguramente, a motivação inicial vai sofrer alterações, há alguma erosão. Quem entra pela vontade de ter uma vida estruturada em um mundo organizado e quem entra querendo ter uma vida de aventura, ou mais operacional. Pode vir a alterar essa motivação quando há resistências, quando começam a ter família e filhos. Os estudos sobre motivações não são muitos, não abundam, podem ser questões materiais, financeiras e de segurança. As Forças Armadas, em vários países ocidentais, perderam muito do seu prestígio tradicional, e aqui também.

Há especificidades do caso brasileiro?

No Brasil, depois das aventuras militares na política, não são propriamente a instituição mais acarinhada, imagino. Mas as mulheres podem encontrar aí um campo de profissionalização interessante e mais oportunidades de integração no trabalho. As Forças Armadas, hoje, têm perfis muito diferentes, como se sabe. Elas passam muitas vezes a ser árbitros. Nas missões de paz os militares não são um dos intervenientes no conflito, como no passado, são árbitros, são parceiros entre forças opostas. Somos países de tipos muitos diferentes, que podem constituir um espaço interessante para as mulheres. Portanto, pode continuar a haver muitas razões que atraiam as mulheres a esse mundo. Mas vai sofrer alterações e é por isso que é importante fazer estudos comparativos. E as respostas são sempre provisórias, são sempre contextuais.