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Rio de Janeiro, 22 de abril de 2024


Cultura

Augusto Boal e seu teatro transformador

Rafaella Mangione e Yasmim Rosa - Do Portal

01/08/2009

Centro de Teatro do Oprimido

Nomeado em março embaixador mundial do teatro pela Unesco, o braço da Organização das Nações Unidas para educação, ciência e cultura, Augusto Boal trouxe uma nova proposta para os palcos. Criador do Teatro do Oprimido, na década de 1970, pode ser considerado um dos maiores teatrólogos brasileiros. Em entrevista ao Correio da Unesco, Boal afirmou que “todos são atores e cidadão não é aquele que vive em sociedade, é aquele que a transforma”.

Para a professora de Artes Cênicas da PUC-Rio, Pina Arnoldi, Augusto Boal representou uma grande inovação em termos cênicos.

- Ele foi um marco para o teatro. Significou a criação de uma teoria com forte divulgação no exterior. Significou tudo - afirmou.

Com a proposta de ser ao mesmo tempo arte, ação social e movimento político, as produções do diretor têm como tema a injustiça, principalmente em comunidades pobres, cuja representação política quase sempre é deficitária. Em seu livro Teatro do Oprimido, Boal afirma que o teatro é necessariamente político, porque todas as atividades do homem são políticas.

O diretor também destinou seu conhecimento às obras sociais. Ele valorizava a ideia do teatro como auxiliador das transformações coletivas e formador de lideranças nas comunidades rurais e nos subúrbios. Uma de suas iniciativas foi ligar o Teatro do Oprimido aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), que atendem portadores de deficiência mental. Outro trabalho é feito com o Movimento dos Sem Terra (MST). A partir do teatro, o grupo pode expor a ideologia que está por trás da organização.

Segundo Pina, a visão política e o lado social de Boal inauguraram um novo modo de fazer teatro no Brasil. Junto com José Renato Pécora, ele participou do Teatro Arena.

- O Arena era algo que nunca havia sido visto. Seus espetáculos tinham uma temática social e política muito forte. Não havia cenário e os atores não se maquiavam. Boal também criou o sistema coringa, em que vários atores interpretavam o mesmo personagem.

Interessado na relação entre espectador e ator, o dramaturgo buscou, durante sua carreira, integrar esses dois lados por meio do teatro interativo. Para ele, todos são atores que não têm consciência de estar em uma peça. Em seus espetáculos, o público normalmente se tornava um participante ativo da própria encenação.

Segundo a professora Pina, hoje a questão da interatividade é menos agressiva do que na década de 60.

- Na época da peça Roda Viva, o espectador era puxado à força para o palco e os atores caiam sentados em seu colo. Se pensarmos no espetáculo Z.É.- Zenas Emprovisadas, um sucesso atualmente, os atores certamente interagem com a platéia de uma forma mais suave.

Ator do Centro de Teatro do Oprimido, Flávio Sanctum afirma que Boal tem um trabalho mais atual da filosofia da arte.

- Isso é muito revolucionário. Traz uma ideia de que todas as pessoas são artistas. A arte é um elemento importante, além da vida social. É importante na vida das pessoas, para a comunicação delas. Acho que essa contribuição já é um grande avanço - explicou.

Além de dramaturgo, Boal também escreveu livros importantes, como Jogos para Atores e Não Atores, que fala sobre essa integração entre atores e espectadores, e a autobiografia Hamlet e o Filho do Padeiro.

Carioca, filho de pais portugueses, Boal nasceu em 1931. Estudou engenharia química, mas se interessou pelo teatro ainda na infância. Interesse esse que se intensificou quando foi para Nova Iorque, nos anos 50, e frequentou a Universidade de Columbia. Lá, continuou seus estudos na área científica e se dedicou à dramaturgia. Só voltou ao Brasil em 1955, quando abandonou a carreira de químico e foi trabalhar como diretor no Teatro Arena, em São Paulo. A partir do Arena, criou o Teatro do Oprimido, que se tornou um movimento internacional com seguidores em mais de 40 países.

De acordo com o dramaturgo, em sua última entrevista à revista Carta Capital, publicada no dia 3 de abril, as ações do Teatro do Oprimido têm como objetivo transformar a sociedade e fazer oposição à estética dominante através das palavras, imagens e sons.

O diretor morreu aos 78 anos, no dia 2 de maio, no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro. Ele sofria de leucemia e estava internado no Centro de Tratamento Intensivo. A causa da morte foi insuficiência respiratória.