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Rio de Janeiro, 8 de agosto de 2022


Cidade

Patrimônio do Rio, a Bossa pode estar de volta

Rômulo Pereira - Da sala de aula

06/02/2009

Apenas 49 passos é o que se gasta para percorrer a travessa entre os edifícios de números 21 e 37, na Rua Duvivier, em Copacabana. Foi no Beco das Garrafas que a Bossa Nova começou a crescer. Nos pequenos palcos do “templo da Bossa Nova”, que era formado por três boates, Little Club, Bottle’s Bar e Baccara, ouviram-se os primeiros acordes da música de compositores instrumentais como Sergio Mendes e Luiz Carlos Vinhas e, em alguns casos, os últimos, como os de Dolores Duran, que cantou na Little Club até morrer, em 1959.

O nome foi dado por Sergio Porto. No começo era Beco das Garrafadas, depois, para facilitar, ficou somente Beco das Garrafas. Jorge dos Santos é morador da rua e, na época das garrafas, era muito jovem, como mesmo diz, “pouco mais do que uma criança”. Contudo, se lembra de seus pais e tios comentando sobre alguns arruaceiros que vagavam pela região. Daí o nome. Músicos e boêmios conviviam com a chuva de garrafas jogadas pelos moradores dos prédios das redondezas. Seu Jorge lembra com prazer, “São as histórias, né? Se não fossem, não estaríamos aqui conversando.”

Uma lista de todos os músicos importantes que passaram por lá preencheria um parágrafo inteiro desse texto. Mas, de qualquer forma, alguns deles não poderiam ficar de fora. Baden Powell, Sylvinha Telles, Tião Neto, Chico Batera, Wilson das Neves e Alaíde Costa. Além deles, nomes mais do que clássicos, importantes e famosos da música brasileira, colocaram os pés naqueles palcos, como Nara Leão, Jorge Ben, Sérgio Ricardo e Wilson Simonal. Elis Regina, uma das nossas maiores intérpretes, novinha, começou por lá.

Depois da popularização da Bossa Nova, as boates viveram um momento de decadência. Seus artistas foram tocar em outras bandas. Elis, por exemplo, virou a diva que todos conhecem e foi para palcos maiores, como o do Canecão, e, é claro, passou a receber cachê. Dinheiro não era coisa comum para os músicos do Beco, a grande maioria trabalhava sem receber um tostão. Além disso, toda a produção era improvisada. Luiz Carlos Miéle e Ronaldo Bôscoli, responsáveis por essa parte, usavam até caixas de sapato e lanternas como canhões de luz. Após o período de decadência, a ruela caiu no esquecimento. A maioria das pessoas que passam por lá não tem idéia da história do local. O vendedor ambulante Camilo Souza, que perambula pela região vendendo balas, chocolates e chicletes, não imaginava que aquele pequeno beco foi um dia “templo da Bossa Nova”. “Não sabia, só sabia que olhava essas lojas aí e elas estavam sempre fechadas”, diz Camilo.

Depois de tantos anos, a idéia agora é revitalizar. Mesmo sem ter vivido aquela época, quem olha ao redor percebe que muito da região mudou. A Praça Cardeal Arcoverde ganhou uma estação de metrô, os prédios ao redor e nas ruas próximas ganharam muros, grades e alarmes e o número de carros aumentou incrivelmente. Trafegar pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana é estressante e quase impossível, seja a qualquer hora. Mas essa pequena e escondida parte quer voltar ao que foi um dia. Compradas por três empresários, Sergio Martino, Fernando Motta e Carlos Henrique Pollo, as boates estão sendo reformadas e, em breve, devem ser reabertas. Miéle é o diretor artístico responsável pela reformulação e o arquiteto e compositor Carlos Pingarrilho, pela obra.

O projeto de Pingarrilho prevê a união de duas das três boates, formando um espaço único para 110 pessoas. Na outra, com capacidade para 40, a idéia é construir um misto de museu da Bossa e local para jam sessions. Ainda não existe uma data certa para a reabertura, mas Miéle acredita que até o começo do próximo ano as boates devem estar funcionando. Para o diretor, o maior problema é conseguir patrocinadores. Caso esse objetivo seja alcançado, nada impedirá as boates de voltarem a tocar a boa velha música. Contudo, Miéle lembra que o espaço não vai servir somente para a memória. “Novos artistas vão ser incentivados a se apresentar”, diz.

De acordo com Miéle, o Rio de Janeiro sofre com a falta de espaço para a Bossa Nova, que é um de seus principais patrimônios. “Os gringos vêm para cá e ficam impressionados por não existir um lugar na cidade dedicado à Bossa Nova.”. O público alvo são os estrangeiros que lotam os hotéis de Copacabana e estão loucos para ouvir a música que, no seu aniversário de 50 anos, não é tão tocada como antigamente. Ainda segundo Miéle, os cariocas também estão convidados a aparecer. Outra idéia, em fase de promessa, é a volta dos pocket shows, que eram apresentados nas tardes de domingo.

Enquanto as portas ainda estão fechadas, os moradores dos velhos prédios vizinhos não entendem direito o que vai acontecer. Será a volta das garrafadas? Para o estudante de direito José Luis Borges, que não conhecia a história do Beco, é uma boa idéia o retorno das boates e dos shows. “Deve ficar legal, eu não sabia que a Bossa Nova tinha nascido aqui. É bom até para a gente que mora perto, talvez seja um lugar para poder ir. Eu moro em Copacabana, mas não costumo sair por aqui, vou mais para Ipanema, Leblon.”. A professora primária Maria Helena Dias gostou da idéia, mas o entusiasmo não é tão grande. “Vai melhorar a região, né? Espero que não fique uma barulheira até tarde, minhas filhas acordam cedo para a escola.”. Será Maria Helena uma nova adepta das garrafadas? Ela desconversa e diz que “Não daria pra ficar atirando coisas nas pessoas, não faria isso.” Agora, é só esperar a vozes das cantoras e os acordes de piano e violão voltarem a ecoar pelo Beco e, quem sabe, se espalharem por Copacabana.