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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Mundo

O drama de Gaza na visão de duas estudantes

Paula Araujo e Fernanda Corrêa - Do Portal

09/01/2009

O recrudescimento do conflito na Faixa de Gaza e no Sul de Israel repercute muito além das fronteiras do Oriente Médio e altera, às vezes dramaticamente, a rotina de pessoas a milhares de quilômetros. Alguns casos servem de esperança à tolerância e à paz. Colegas na PUC-Rio, as estudantes Júlia Cohen, de Comunicação, e Ragda Al Assar, de História, representam os dois lados de uma guerra que matou mais de 700, entre adultos e crianças, desde o reinício dos bombardeios, em 27 de dezembro.

Se na universidade a convivência entre judeus e palestinos é pacífica e cordial, em Gaza e nas cidades próximas à fronteira a realidade é oposta. "Falta tudo, até comida, aos palestinos", diz Ragda, de 21 anos, com base nos relatos diários dos parentes que moram naquele pedacinho de terra marcado pela guerra sem fim. Júlia, de 19, lembra que os ataques com foguetes obrigam os israelenses a viver em abrigos.

- Morei no Norte de Israel, rodeada de aldeias árabes. Lá era mais tranquilo, mas todas as casas têm bunker, espécie de abrigo contra os ataques. A população teve de se acostumar com os soldados andando armados nas ruas - observa a estudante judia, que viveu durante três meses em Israel e aprova ações contra o terrorismo.

Ragda Al Assar, muçulmana e filha de palestinos, têm toda a família morando na Faixa de Gaza.  Divide pela internet o drama dos pais, tios, primos. “Eles falam que há muito bombardeio e não dá para sair de casa. Comem o que dá. Quando tem arroz, comem arroz, quando tem carne, comem carne”, diz a estudante, que considera os bombardeios uma covardia. “Atacam casas, faculdades e escolas com mulheres e crianças refugiadas” (confira a íntegra da entrevista de Ragda na página de rádio do Portal PUC Rio-Digital). A destruição em Gaza, segundo os parentes, “é total”. (A foto que ilustra esta reportagem foi enviada por uma prima de Ragda, via internet.)

Segundo o professor do Departamento de Relações Internacionais da PUC-Rio Márcio Escalércio, Israel não levará este capítulo da briga muito adiante. “Os israelenses não vão reocupar a Faixa de Gaza. O objetivo deles é enfraquecer o Hamas e depois sair. Acredito que a ofensiva deve durar mais umas duas semanas”, prevê.

O professor de Jornalismo Internacional da PUC-Rio, Arthur Ituassu, acredita que a ofensiva não se justifica, mas era previsível. “Se o Hamas continuar atacando, é claro que Israel vai responder de Estado para Estado.”, avalia.

Para Escalércio, o governo israelense se utilizou de oportunismo eleitoral: “Acho que eles se aproveitaram da proximidade das eleições, em fevereiro. A oposição estava bem e os Trabalhistas devolveram com os ataques. Sendo vitoriosa, a ofensiva vai melhorar a situação do partido de direita Kadima e dos Trabalhistas.”, afirma. Júlia considera a situação de Israel “delicada, porque um dos partidos sempre sairá favorecido”.

- O Hamas usa os civis como escudo humano. O terrorismo tem que ser parado - argumenta a estudante.

Alguns analistas atribuem o recrudescimento do conflito a uma suposta omissão americana, cuja atuação dimplomática seria essencial à manutenção da trégua. Escalércio discorda. Para o especialista, os Estados Unidos sempre apoiaram Israel, independentemente do partido no poder, o que leva à expectativa de que o presidente Barack Obama seguirá este caminho. “Os Democratas são mais sensíveis à questão palestina, mas continuam aliados incondicionais de Israel.”, observa.

De acordo com o professor, a luta pela terra é o principal motivo para a extensão dos conflitos por seis décadas. Ele avalia que as divergências religiosas assumiram papel representativo só nos últimos anos. “A criação do Estado de Israel jamais foi aceita pelos árabes. Esse problema foi agravado na Guerra dos Seis Dias, em que diversos territórios foram tomados pelos israelenses.”, lembra.

Um dos entraves à paz, acredita Escalércio, é o mecanismo de veto que os EUA têm dentro da ONU. “Para o cessar-fogo ser aprovado, os Estados Unidos têm que aprovar. Se algo é contra Israel dentro da ONU, eles podem vetar, e isso dificulta a volta da paz.”, explica. Para ele, a solução exige a retirada das tropas israelenses dos territórios tomados e a permissão da ocupação palestina. “Enquanto isso não acontecer, qualquer medida pacífica fica mais difícil, porque os israelenses vão continuar com essa licença para matar e os palestinos vão continuar lançando mísseis.”, sintetiza o professor.

Sessenta anos de guerra

O fim do acordo de paz entre o grupo radical islâmico Hamas e o Estado de Israel, em dezembro do ano passado, enterrou a perspectiva de prorrogação da trégua de seis meses. A chuva de bombas, a contabilidade diária de mortos e feridos - ultrapassam 4 mil, em 13 dias - e as cenas de horror voltaram à rotina de Gaza. Uma rotina de origens remotas e explicações controversas.

Em 1948, por uma decisão da ONU, as terras palestinas foram divididas entre judeus e árabes. Insatisfeitos com a proclamação do Estado de Israel, Iraque, Líbano, Síria e Egito invadiram o novo país, mas perderam ainda mais territórios para o povo israelense, que contava com a importante ajuda dos Estados Unidos. O legado deste conflito dificultaria a volta da paz na região: milhares de palestinos ficaram sem uma nação e foram refugiados.

Em 1967, mais perdas árabes. Na Guerra dos Seis Dias, os judeus ficaram com importantes e sagradas terras palestinas, dentre elas a Faixa de Gaza, limitada ao Norte por Israel e ao Sul pelo Egito.

O primeiro acordo de paz, assinado em 1978, foi destruído por ameaças terroristas. Israel invadiu o Líbano. Depois da retirada das tropas, em 2000, os ataques recomeçaram seie anos mais tarde, em retaliação ao grupo Hezbollah.

O Hamas surgiu em 1987. O episódio ficou conhecido como a primeira Intifada, uma revolta palestina contra a ocupação israelense. Em 1993, houve o segundo acordo de paz e os judeus começavam a devolver os territórios ocupados. Mas, em 2000, o governo palestino se recusou a aceitar a proposta de controlar 95% das terras ampliadas. A segunda Intifada veio dois meses depois e a guerra prosseguiu.

Desde 2006, quando venceu as eleições legislativas palestinas, o Hamas controla a Faixa de Gaza. A partir daí, Israel passou a restringir a entrada de combustível e de suprimentos para o lugar. Em 60 anos de conflitos, milhares de palestinos e israelenses foram mortos.