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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

A engenharia do século 21 em debate no Brasil

Ernesto Rodrigues - Do Portal

01/12/2008

“A natureza agora tem de fazer parte da conta do engenheiro”. Esta frase do professor Luiz Carlos Scavarda do Carmo, vice-reitor da PUC-Rio e coordenador geral do Comitê de Programa da WEC 2008, a convenção mundial que deverá reunir cerca de cinco mil engenheiros do planeta em Brasília entre os dias 2 e 6 de dezembro, sintetiza o desejo dos organizadores do evento de reafirmar seu forte compromisso com a chamada Nova Engenharia, uma atividade cada vez mais distante do estereótipo tecnicista, supostamente inquestionável e pretensamente imune aos impactos sociais e ambientais que provoca.

Os fóruns e painéis previstos para a WEC 2008 (World Engineering Convention 2008) deixam claro, segundo Luiz Carlos Scavarda, que o modelo de engenharia que viabilizou a sociedade industrial e tecnológica do século 20, com seus graves e conhecidos subprodutos, já não tem mais respostas eficazes para os riscos ambientais e para os desafios sociais que este mesmo modelo semeou ao longo das últimas décadas. Daí, segundo Scavarda, a imposição da Nova Engenharia, uma atividade atenta aos riscos planetários desse início de século, definitivamente comprometida com a produção sem degradação e regida por um novo conceito: a responsabilidade social ilimitada.

Por que a WEC 2008 usa a expressão risco planetário em sua programação de conteúdo?
Luiz Carlos Scavarda - "É porque nós temos de preparar a engenharia para tratar desses riscos. Vivemos um tempo em que cataclismas inesperados terão de ser tratados rapidamente porque as conseqüências, em termos humanos, são brutais. Esta é uma área da engenharia que está se tornando muito importante e não poderíamos deixar de tê-la na nossa convenção".

A China, como cenário recente de um cataclisma, certamente será discutida na WEC 2008, não?
Luiz Carlos Scavarda - "Os nossos palestrantes têm que vir de todos os lugares do mundo. Dada a dimensão da China, é natural que tenhamos dois chineses, os professores Yi-Xin Zhong e Pan Yunhe. Eles vão nos ajudar a entender o problema da China e como nós podemos engajar a América Latina num processo de crescimento rápido, mas sem os problemas ambientais e de aumento de desigualdade social que a China está enfrentando. O professor Yi-Xin Zhong é membro da Academia Chinesa de Engenharia e tem uma enorme preocupação com o conhecimento como mecanismo das nações em desenvolvimento. Ele está discutindo esta questão num país como a China, onde as desigualdades sociais estão crescendo, ao contrário do que está ocorrendo no Brasil. Por outro lado, a China é um país que está crescendo a uma velocidade fantástica.

Um dos princípios adotados pela WEC 2008 é o da necessidade de a engenharia respeitar os chamados limites sistêmicos...
Luiz Carlos Scavarda – “Exatamente. A engenharia sempre teve acesso às novas técnicas, mas desta vez ela precisa saber que também têm limitações sistêmicas. E que ela não pode simplesmente adotar, de braços abertos, as novas técnicas, sem preocupações sistêmicas. As novas tecnologias são sempre benvindas, mas a engenharia não pode mais buscar soluções e depois adotar corretivos para soluções que não respeitam o ambiente".

É um cenário que pede um outro tipo de engenharia...
Luiz Carlos Scavarda – “Sem dúvida. Nas décadas de 70 e 80, as grandes realizações exigiram que o novo engenheiro fosse também um grande gerente. Nesta época, o engenheiro absorveu a necessidade da gerência, mas não a questão social. Hoje você tem enormes massas fora do mundo da globalização, que foi assimétrica mas veio para ficar por causa da tecnologia. Então a responsabilidade social não pode ser, como dizem, até um certo ponto. Ela tem de ser ilimitada e as questões técnicas têm que se adaptar a uma nova situação social. Essa é a chamada Nova Engenharia. Só ela pode resgatar os problemas sociais que estão sendo colocados hoje em dia".

Um desses problemas é também um princípio importante da WEC 2008: a finitude dos recursos naturais...
Luiz Carlos Scavarda – "A engenharia, por toda a sua tradição, é fundamentalmente voltada para um produto, um serviço e não importa o que ela tem de usar da natureza. É como se a natureza fosse infinita e pudesse ser usada e abusada indefinidamente. Isso obviamente não é mais verdade. Nós não podemos abusar da natureza. Isso muda o conceito do que é engenharia e a maneira de fazer engenharia. Ela não pode mais ignorar a finitude de nossos recursos naturais".

E o conceito de responsabilidade social ilimitada?
Luiz Carlos Scavarda – "Entre os vários axiomas da antiga engenharia, um deles é o de que a inovação é o caminho dos novos produtos e da tecnologia engajada com a produtividade. É importante? É. Mas se você gera uma inovação e essa inovação não respeita nem a sociedade nem o meio ambiente, ela não interessa mais. A inovação tem que ser sem degradação. E há vários exemplos. A Petrobras, que é uma das maiores empresas do mundo, a maior brasileira e a terceira do hemisfério americano, vai buscar petróleo no fundo do oceano a uma profundidade muito grande. Mas vai fazer isso sem degradar, tenho certeza. É fácil? Não, é difícil. É mais barato degradar? Claro que é mais barato, se você levar em consideração só os aspectos econômicos e de curto prazo. Mas não no que diz respeito ao planeta, que está no seu limite”.

A questão dos transgênicos seria outro exemplo?
Luiz Carlos Scavarda – "Sim, é um exemplo interessante. A gente não sabe todas as consequências dos transgênicos. No entanto, diversas técnicas de plantio usando transgênicos permitem que a produção de alimentos seja melhor distribuída no planeta. E estamos caminhando em direção a uma falta de alimentos. Isso está nos jornais e precisamos de novas tecnologias. Está aí, no entanto, uma nova tecnologia cujas consequências não são completamente conhecidas. Então a engenharia precisa usá-las, porém precisa saber de suas limitações e riscos".

O senhor poderia exemplificar?
Luiz Carlos Scavarda – "O raio-x. Quase todas as pessoas que descobriram o raio-x e começaram a transformá-lo em uma técnica de uso na ortopedia morreram de câncer. Não havia noção do risco que o raio-x aberto representava. Foram muitos os erros cometidos, mas foram erros necessários para o crescimento da humanidade. Mas a humanidade aprendeu com os próprios erros. Já sabemos que existem riscos. Temos agora que apreender sobre eles, porque as consequências dos erros, hoje, são maiores do que nunca".

Que outras áreas precisam ser mais conhecidas?
Luiz Carlos Scavarda – "Um outro exemplo é o foguete iônico, que gera um plasma que fica contido dentro de uma garrafa magnética. O plasma emite íons, que poderão fazer a propulsão das futuras naves interplanetárias a um custo muito mais baixo. O peso e a quantidade de material que tem que ser levada por um foguete químico são muito maiores. Quais serão as consequências? Ninguém sabe. Será que isso vai abrir novas portas? Será que o uso econômico da Lua ou de Marte vai ser visível para as gerações atuais? Será que isso pode ser feito sem uma análise cuidadosa? Os foguetes iônicos são uma realidade a curto prazo. Seu uso correto, no entanto, é uma questão está em aberto".

O acesso à informação também faz parte deste novo cenário da engenharia?
Luiz Carlos Scavarda – "Sim, mas não apenas o acesso. Falam muito na divisão entre os que têm e os que não têm acesso à informação. É um aspecto importante da informática e, portanto, da engenharia. O esforço que se faz hoje em dia para facilitar o acesso à informação de todas as camadas sociais é muito grande. Mas não basta dar acesso. Nós temos que gerar, nas diversas camadas da sociedade, capacidade de interpretar essa informação. Nós temos que abrir o conhecimento para todos. Isso faz parte de uma conferência que discute engenharia e o conhecimento como uma nova forma de riqueza. Como distribuir esse conhecimento? A informação é uma parte dele, mas não é tudo".

O senhor pode exemplificar?
Luiz Carlos Scavarda – "Digamos que você consiga um computador barato. Há várias propostas de computadores extremamente baratos. Digamos que você consiga produzir uma quantidade de computadores tal que todos tenham facilidade de acesso à informação. Eu garanto a você que uma boa parte da população estaria se preocupando com entretenimento. O entretenimento é bom, mas poucos transformam o acesso à informação em capacidade de melhorar suas fontes de informação, seu conhecimento, sua cultura e seu acesso ao conhecimento tecnológico. Portanto, não basta acesso à informação. Isso é uma condição necessária, mas não é suficiente".

Mas neste caso qual seria o papel do novo engenheiro?
Luiz Carlos Scavarda – "O engenheiro precisa trabalhar tão intensamente na distribuição do conhecimento quanto pode trabalhar na distribuição da informação. Não bastam softwares de primeira qualidade ou hardwares mais baratos. Ele precisa de trabalhar também mecanismos de acessar conhecimento”

E o princípio da visão sistêmica? Como ele está presente na temática da WEC 2008?
Luiz Carlos Scavarda – Quando você tem que resolver um problema, não importa se você tem uma questão de engenharia civil ou mecânica. O engenheiro tem que superar essa fronteira de conhecimentos. Na década de 50, por exemplo, os soviéticos conseguiam botar satélites no espaço e os americanos não, mesmo tendo muito mais tecnologia. Isso acontecia porque os soviéticos tinham uma engenharia de sistema, uma engenharia capaz de observar todas as áreas ao mesmo tempo. Hoje você tem essa visão sistêmica até aumentada pelo fato de a natureza ser finita, de os recursos serem finitos e de os problemas sociais fazerem parte da engenharia.

Os riscos da engenharia serão temas da WEC 2008?
Luiz Carlos Scavarda – “Teremos um painel que tratará especificamente de como gerenciar riscos. Riscos importantes do planeta estão aparecendo. O aquecimento global tem gerado mais ciclones, mais tufões, mais riscos meteorológicos e isso está se transformando num problema essencial da engenharia, que vai ser tratado num dos nossos painéis”.

Haverá algum documento?
Luiz Carlos Scavarda – "Vamos apresentar a Carta de Brasília, um resumo da conferência que será apresentado por um pesquisador de ponta. E vamos apresentar ainda um report que está sendo organizado pela UNESCO”.

Por que o Brasil como sede?
Luiz Carlos Scavarda –"A Alemanha, sede da primeira WEC, é um país inquestionavelmente desenvolvido. E a engenharia alemã é um exemplo para todos. A China, sede da segunda WEC, está num processo de rápido desenvolvimento, mas com um respeito ambiental pelo menos questionável. O fato de a primeira sede da WEC ter sido um país que não questiona o paradigma da engenharia e de a segunda ser um país que tem uma boa engenharia mas que não respeita o paradigma ambiental fez com que a decisão natural recaísse geopoliticamente para o Brasil, um país onde a questão social está efervescente. Além disso, o Brasil é, hoje, entre os países em desenvolvimento, o que obviamente possui muita tecnologia. Produzimos aviões - a terceira fábrica de aviões do mundo está no Brasil - e a Petrobras busca petróleo em águas profundas, num trabalho de primeiríssima linha. A produção de grãos tem inquestionável tecnologia agrícola. Mas o Brasil também é um lugar onde o ambiente precisa ser respeitado, onde a questão social precisa ser enfrentada e onde a engenharia não é tão iniciante assim. Daí a escolha.”

Quantos participantes são esperados?
Luiz Carlos Scavarda – "Essa conferência pretende trazer para o Brasil 5 mil pessoas, metade brasileiros e duas mil e quinhentas vindo de todos os países do mundo. Um dos truques da convenção foi fazê-la barata. A inscrição, de 250 dólares, é muito barata para os padrões internacionais. Contamos também com um forte apoio da UNESCO e da OEA.

E os palestrantes brasileiros?
Luiz Carlos Scavarda – "O professor João Alziro Herz da Jornada é presidente do Inmetro e um dos grandes cientistas brasileiros. Ele tem uma enorme responsabilidade, que é desenvolver um organismo que parte das ciências básicas para estabelecer os padrões que permitem a nossa inserção na produção globalizada. O milímetro no Brasil tem de ser igual ao milímetro na China, México ou Estados Unidos. A manutenção e o desenvolvimento dos conceitos que decorrem desses padrões e que chegam à globalização do processo produtivo passam pelo Inmetro, que é um dos mais importantes organismos brasileiros. O professor Jornada vai discutir, portanto, a questão da engenharia no mundo globalizado".

E os representantes da América Latina?
Luiz Carlos Scavarda – "Um dos palestrantes latino-americanos é o professor Jorge Vélez Arocho, da Universidade de Porto Rico. Por ser porto-riquenho, ele é cidadão americano. Por ser porto-riquenho, ele também é latino-americano. É uma pessoa interessante, que tem um pé no hemisfério Norte e um pé no hemisfério Sul, o cérebro americano e a alma absolutamente latino-americana. Ele fundou uma instituição que propõe gerar um mecanismo de convivência entre os Estados Unidos e a América Latina".

Qual será o tema da palestra de Jorge Arocho?
Luiz Carlos Scavarda – "Se nós olharmos o mundo, nos últimos 20 anos a América Latina deixou de ser 10% do PIB do planeta para ser 7%. Mas os países em desenvolvimento da Ásia, incluindo China, Índia e Coréia do Sul, passaram a representar 27% do planeta, quando também eram 10% do PIB há 20 anos. A China mordeu os países desenvolvidos, incluindo os Estados Unidos. Então, hoje nós estamos num hemisfério em que todos somos um pouquinho menos importantes do que éramos 20 anos atrás. Incluindo os Estados Unidos. Existe uma situação curiosa e incomum: apesar de nossos irmãos do Norte serem muito mais ricos que nós e de terem uma presença planetária muito maior que a nossa, eles têm hoje uma presença planetária menor. E nós, latino-americanos, também. Este é o tema do professor Jorge Arocho”.

E a África?
Luiz Carlos Scavarda – "A WEC é uma convenção internacional e nós não podemos nos dar ao luxo de esquecer nossos irmãos que estão em situação seguramente mais difícil que a nossa. Maria Mutagamba representa esse mundo. Ela é uma pessoa paradigmática, uma mulher que é ministra de Uganda e que está vindo ao Brasil exatamente para discutir problemas de meio ambiente, problemas básicos de água e saneamento, que são relevantes inclusive para os países da América Latina. A nossa situação pode não ser tão dramática quanto a deles, mas continua dramática quando comparada à dos países já desenvolvidos"


Como a maior empresa de engenharia brasileira vai participar?
Luiz Carlos Scavarda – "Um dos nossos palestrantes centrais, que vai abrir o congresso que trata exatamente de inovação sem degradação, é Luiz Fernando Frutuoso, que vai falar sobre os grandes avanços da empresa na pesquisa em águas profundas”.

Haverá também uma programação simultânea para a engenharia brasileira?
Luiz Carlos Scavarda – "Sim. Esse ano, junto com a WEC, vai acontecer a Semana da Engenharia, que é organizada pelo Conselho Federal de Engenharia, Agronomia e Arquitetura (Confea)”.