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Rio de Janeiro, 24 de setembro de 2022


Cultura

Livro revela bastidores da revista Manchete

José Augusto Martini - Do Portal

05/12/2008

Visual moderno e uma equipe formada por grandes escritores e jornalistas compõem o legado da Manchete. Outra herança igualmente rica é o baú de histórias amealhadas nos pouco mais de 50 anos em que a revista foi do sucesso de vendas à falência, no ano 2000. Parte deste bastidor é revelado no recém-lançado Aconteceu na Manchete, uma coletânea de histórias vividas por profissionais que ajudaram a construir a Bloch Editores. Como a professora de jornalismo da PUC-Rio Angela de Rego Monteiro, que trabalhou durante oito anos como editora de moda da Bloch. “As revistas da Bloch estiveram presentes em todos os grandes fatos históricos”, lembra. Em entrevista ao Portal PUC-Rio Digital, Angela conta por que a Manchete marcou época.

- Quais foram os principais elementos que caracterizaram o sucesso repentino da Manchete?

- A Manchete veio para disputar com a revista O Cruzeiro. O primeiro grande diferencial foi a qualidade gráfica. O aspecto visual, as fotografias, as reportagens com fotos abertas em duas páginas. Depois, o elenco de jornalistas fez a diferença. No governo Juscelino houve um “apadrinhamento” benéfico. Um dos grandes números da revista foi a edição especial comemorativa da inauguração de Brasília, que em dois dias vendeu 500 mil exemplares, um recorde para a época. Assim, tomou o lugar da Cruzeiro e se firmou como a mais influente do país e mais presente nas bancas.

- As revistas da Bloch Editores ficaram famosas pelo formato em cores, por utilizar muitas fotos para compor as matérias. De que forma este pioneirismo visual foi importante para as revistas?

- O forte da Manchete era justamente o lado fotográfico. Havia uma preocupação visual muito grande. Os diretores se preocupavam com o impacto estético.

- Alguns consideravam a Manchete sensacionalista, outros diziam que fazia grande jornalismo. Quem está mais próximo do que foi a revista?

- Não era nem uma coisa nem outra. Não vou dizer que era um jornalismo de extrapordinária qualidade, pois a revista era uma coisa da época, assim como era a Life, por exemplo. Elas traziam reportagens baseadas em belas fotografias. Era uma forma de jornalismo, mas sensacionalismo não havia. Havia, sim, na Cruzeiro, que chegou a produzir uma matéria sobre discos voadores na Barra da Tijuca.

- A senhora era editora de moda do jornal O Globo quando recebeu o convite para trabalhar na Desfile, da Bloch Editores. O que significou esta transição: sair de um jornal diário, à época preto-e-branco, para uma revista colorida mensal?

- Foi um susto. Nunca havia lidado com cor. Nunca havia tido essa preocupação fotográfica. Na Bloch comecei a trabalhar interferindo na foto, produzindo fotografias. Embora no Globo trabalhasse com moda, eu pautava um tema e encomendava para o fotógrafo. Na Bloch tinha que ir para o estúdio e me preocupar com o visual de tudo. Tive que aprender a trabalhar com a estética nas fotos. Foi um período maravilhoso na minha vida.

- Até meados dos anos 60, o jornalismo de moda não fazia parte dos grandes jornais. Atualmente, todos os veículos dedicam algum espaço para essa cobertura. O que mudou?

- Não existia moda no Brasil. A moda surgiu por aqui no final da década de 60. Até então havia indústrias de grande escala, que não faziam moda. Na outra ponta havia os famosos costureiros que faziam eventuais roupas para uma clientela de alto poder aquisitivo. Para atender à classe predominante havia as costureiras de bairro. Mais tarde surgiram pequenas confecções de roupa comandadas por brasileiros que se interessavam por moda. Roupas com tendência internacional e acessíveis a todos. Isso acarretou o surgimento de revistas femininas em grande quantidade e a presença maciça da moda nos jornais. Antes o jornal contava apenas com páginas femininas voltadas para as mulheres.

- Quais as melhores lembranças de seu trabalho na Bloch Editores?

- Acompanhei a época áurea da Bloch. As revistas da Bloch estiveram presentes em todos os grandes fatos históricos daquela época. Outra coisa: todo o trabalho que desenvolvi como editora de moda coincidiu com o súbito amadurecimento da moda brasileira. Nossos estilistas se tornaram em pouco tempo estilistas respeitados internacionalmente. Acompanhei também as reviravoltas na moda internacional. Como o aparecimento de Kenzo, o primeiro estilista japonês a aportar em Paris. Em seu primeiro desfile, ele reproduziu a consagração de Napoleão na passarela e colocou um cavalo para desfilar. Foi uma revolução. A partir daí, a moda passou a ser um show.

- O livro conta a história da Manchete de uma forma diferente, quase como extraído das páginas de um diário daqueles que a fizeram. Qual a história mais curiosa que a senhora viveu enquanto trabalhava na Bloch Editores?

 - Esse livro é uma forma de tentar manter aceso o que foi a Manchete. Atualmente todos associam o nome com a TV Manchete. A TV não teve nada a ver com o que foi a revista. Procuramos, por meio de histórias e fatos, contar um pouco de nossa relação com a Bloch.

- Adolpho Bloch construiu um império de comunicação. A revista Manchete chegou a ter o maior parque gráfico da América Latina. Mas, como a senhora mesmo observou, o nome é mais associado à TV. Por que essa distorção?

- Além da má administração, o grande problema da Bloch foi a chegada da TV. Os irmãos Bloch eram gráficos excelentes, inclusive eram de origem gráfica. Eles foram tomados pela novidade. Um risco, pois não eram deste ramo. Começaram a tirar o dinheiro das revistas para a televisão. Foi uma pena, porque o nível das revistas era muito bom. Os textos eram muito bons, muito sérios.