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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Caminhos para converter a consciência negra em conquistas

Carolina Heringer - Do Portal

19/11/2008

 Carolina Heringer

Comemorado em 20 de novembro, alusão à morte de Zumbi dos Palmares, o Dia da Consciência Negra renova discussões sobre os desafios da inclusão social e reacende a polêmica em torno do feriado. Enquanto movimentos negros apresentam propostas para que seja nacionalizado, diversas cidades resistem. De um total de 5.561 municípios brasileiros, menos de 300 aderem ao feriado. Em entrevista ao Portal PUC-Rio Digital, a coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Reflexão e Memória Afrodescendente (NIREMA), Sonia Giacomini, defende o feriado - um símbolo para a busca da sociedade igualitária -, projeta o alcance da vitória de Barack Obama, primeiro negro a aleger-se presidente americano, e aponta diferenças entre as relações raciais no Brasil e nos Estados Unidos.

- Alvo de polêmica recorrente, o feriado do Dia da Consciência Negra deve ser reconhecido nacionalmente?

- Sim. Temos políticas públicas de promoção da igualdade racial e um movimento pelo reconhecimento do lugar da população negra na história nacional. É muito importante essa simbologia do 20 de Novembro, porque ainda estamos longe de conseguir, por exemplo, eleger um presidente negro. Talvez um dia não seja mais necessário, assim como o sistema de cotas, mas hoje ainda é.

- Alguns historiadores consideram o Dia da Consciência Negra um protesto que denuncia a falsa abolição da escravatura, em 13 de maio de 1888. A senhora concorda com este ponto de vista?

- O 13 de Maio é uma data importante, mas está associado à idéia de uma abolição concedida, o que não é verdade. Já havia grande movimentação em outros países, além de uma falta de legitimidade a nível internacional e das pressões econômicas. Não foi algo que caiu do céu. O 20 de Novembro é uma contraposição ao 13 de Maio, com o objetivo de resgatar Zumbi, símbolo da luta contra a escravidão. Com a Constituição de 1988, a sociedade organizada e os movimentos sociais voltaram a ter espaço para se expressar. Aos poucos, o 20 de Novembro foi sendo mais comemorado do que o 13 de Maio. Esse deslocamento é importante para o tipo de identidade dos negros que será construída.

- Qual foi a importância de Zumbi dos Palmares na luta pela liberdade dos escravos? E qual é a sua importância hoje, na luta pelo fim da discriminação racial?

- Ao criar os quilombos, Zumbi montou o que seria, mal comparando, um poder paralelo no Brasil. Essa estrutura tornou possível as fugas dos escravos, pois eles passaram a ter um lugar no qual poderiam se esconder. A importância de Zumbi está no exemplo de luta que ele representa. A figura de Zumbi é muito simbólica.

- O NIREMA tem como eixo de trabalho estudos comparativos das relações raciais do Brasil e dos Estados Unidos. Quais são as principais diferenças dessas relações nos dois países?

- Os brasileiros sempre se comparam aos americanos para dizer que lá existe uma identidade étnica que foi forjada com base na exclusão e na segregação, mas naquele país o negro teve acesso a uma série de benesses da sociedade moderna, como educação e saúde. No Brasil, os negros não têm oportunidades. Essa sociedade que criticamos vai ter um presidente negro muito antes de nós. Ao mesmo tempo, nos EUA existe racismo, um ódio mortal que poucos brasileiros teriam coragem de expressar.

- O que representa a eleição de Obama, o primeiro presidente negro da história americana?

- A vitória [de Obama] representa algo muito novo, que abre espaço a várias perspectivas. A crise econômica proporcionou condições para uma mudança radical. Se os americanos tivessem suas hipotecas em ordem, seus financiamentos garantidos, dizem que Obama talvez não tivesse sido eleito. Ainda assim, acho que um americano branco votar num negro é uma coisa de tirar o chapéu.

- Quais são as principais propostas do NIREMA para consolidar a 'consciência negra', para transformá-la em avanços sociais?

- Temos um grande projeto de intercâmbio de alunos, pesquisas e estágios entre a PUC-Rio e as universidades de Dakar, no Senegal, e Morgan States, nos EUA. Também estamos fazendo uma pesquisa para avaliar os impactos da política de cotas e de outros mecanismos de acesso facilitado nas universidades públicas.