Projeto Comunicar
PUC-Rio

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

Rio de Janeiro, 24 de maio de 2022


Economia

“Está mais difícil resistir à metáfora da montanha mágica”

Juliana Reigosa - aplicativo - Do Portal

09/07/2015

 Thayana Pelluso

Infiltrado nas reuniões do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, o jornalista e escritor britânico Andy Robinson reuniu material para escrever “Um repórter na montanha mágica: como a elite econômica de Davos afundou o mundo” (Editora Apicuri, 2015), lançado nesta segunda-feira (29) no Rio. Ele denuncia, no livro, "o capitalismo camuflado em meio à filantropia", que, segundo ele, passa ao largo da cobertiura midiática hegeônica. Em entrevista ao Portal PUC-Rio Digital, o colaborador do jornal espanhol La Vanguardia compara a atual elite de Davos com a do século XX, representada por Thomas Mann em “A montanha mágica”. “Mann disse que a montanha mágica era o canto do cisne para a elite da época. Esta metáfora me pareceu muito aplicável a atual elite econômica de Davos, pois também vivemos em níveis de desigualdade altos, com o capitalismo se movendo sem qualquer regulação”, explica o jornalista, que contou a estudantes de Jornalismo da PUC-Rio, na sexta-feira passada, bastidores da incursões de "penetra" na festa capitalista (o crachá marrom restringia o acesso oficial ao alto escalão).

Portal: Como surgiu a ideia de escrever o livro-reportagem?

Andy: Escrevi o livro em 2011, quando o tema da desigualdade começava a ganhar mais força, sobretudo nos Estados Unidos. Na época, era correspondente do La Vanguardia em Nova York. Comecei então a frequentar as convenções de Davos e pensei que a desigualdade sim era o tema do momento. Por isso, decidi escrever sobre Davos, o cenário escolhido também por Thomas Mann e o local perfeito para fazer uma crítica global ao sistema de capitalismo.

Quais foram as maiores dificuldades encontradas?

O livro foi escrito a partir dos blocos. Então, o material já estava pronto, só faltava juntar tudo. O mais difícil foi mesclar um livro com crítica econômica a uma leitura fácil e divertida, pois o enredo pretendia ser um pouco irônico, fazendo as pessoas rirem. É um gênero inovador. De um lado, trata da parte econômica, falando sobre as desigualdades e os problemas da economia de mercado e, de outro, de um jornalismo de celebridades, com comentários sobre aonde iam, como vivem, os hotéis e festas que frequentam. Tudo isso com uma dose de humor. Manter esse equilíbrio foi o mais difícil.

Para o senhor, o que representa o Fórum Econômico Mundial de Davos?

Por um lado, é a criação de relações públicas para permitir que uma elite sem nenhuma legitimidade possa se apresentar como filantrópica, isto é, comprometida com a melhora do mundo. Esse “filantrocapitalismo” (a captação de grandes doações em prol de causas sociais e ambientais ao redor do mundo) é parte do seu papel de relações públicas para justificar o injustificável. O outro lado é uma porta giratória, em que os ministros falam com as empresas: “eu sou o ministro das finanças, vamos fazer uma política de inversão. O que querem?”. E as empresas respondem: “queremos que não haja impostos”. Em troca, dentro de três anos, esses ministros se incorporam ao conselho das empresas. Por exemplo, o antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair acabou incorporando-se ao conselho da J.P. Morgan, o banco de investidores americano; o presidente da Goldman Sachs, Henry "Hank" Paulson, terminou como secretário do tesouro do governo de George W. Bush; a ministra das Finanças da Espanha Elena Salgado foi a Davos e incorporou-se ao conselho da Endesa, empresa elétrica espanhola, que também está no Brasil. Então, defino o Fórum de Davos como uma porta giratória.  

Comparando “A montanha mágica”, de Thomas Mann, com a sua obra, de que forma a metáfora da decadência histórica da elite europeia do século XX pode ser aplicada à elite econômica de Davos?

No livro-novela de Thomas Mann, a montanha mágica representava Davos, um lugar com os principais sanatórios para tuberculosos. A tuberculose se converte na metáfora da decadência daquela elite do século XX, que tinha os dias contatos devido aos acontecimentos apocalípticos, como a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa e, posteriormente, o fascismo e o nazismo. Em sua última entrevista, Mann disse que a montanha mágica era o canto do cisne para a elite da época. Essa metáfora me pareceu muito aplicável a atual elite econômica de Davos, que não está disposta a soltar os mandos do poder. Hoje, voltamos a ter níveis de desigualdade como no início do século XX. Além disso, temos, assim como no século passado, um capitalismo se movendo pelo mundo sem qualquer regulação, desestabilizando mercados e provocando crises profundas. Está cada vez mais difícil resistir à metáfora da montanha mágica.  

Por que, na sua visão, a elite econômica de Davos "afundou o mundo"?

Quem provocou a crise econômica de 2008 foi essa elite de Davos. Quando se tem tanta desigualdade, problemas para a sustentabilidade do capitalismo são gerados. A cada aumento do Produto Interno Bruto (PIB, a soma das riquezas produzidas), uma porcentagem cada vez maior da renda vai para a elite, que corresponde a 1% da população. Os 99% restantes têm salários estancados e não podem consumir, comprar um automóvel, uma televisão, ou o que seja. Então, pedem crédito e se endividam, gerando mais dívidas na economia. Foi por isso que a dívida privada subiu a níveis astronômicos, provocando a crise financeira. A elite de Davos está se convertendo no único beneficiário da crise econômica, ao mesmo tempo em que o capitalismo se destrói. Ele é autodestrutivo porque deixa a grande maioria dos cidadãos só podendo consumir a partir de empréstimos, endividando-se a grandes níveis.

No prefácio, o senhor afirma que a onda de protestos de 2013 no Brasil é parte de uma reivindicação contra a filosofia de Davos. Por quê?

Em 2013, houve no Brasil reivindicações por serviços públicos bons, sem o Padrão FIFA, isto é, sem a lista de grandes corporações como Coca-Coca, McDonald's, Heineken. Esses protestos questionavam o modelo de capitalismo baseado nas grandes empresas globais. Davos é o maior símbolo desse modelo: é o local corporativo das privatizações, onde essas corporações estão espalhadas.

Segundo as fontes consultadas, que panorama nos espera? As desigualdades socioeconômicas seguirão crescendo?

Se não houver uma reação para debilitar essa elite e começar a democratizar a sociedade, a desigualdade seguirá e a polarização da renda aumentará cada vez mais, até que os cidadãos comecem a se organizar para mudar o sistema. Também há motivo para otimismo: na Espanha, estamos em um momento alentador porque novos partidos que questionam o modelo de Davos emergiram a partir dos protestos e ganharam as eleições em Madri e Barcelona. Então, é um motivo para pensar que as coisas podem mudar.

VEJA MAIS: Jornalista Andy Robinson critica influência do Fórum de Davos nas economias mundiais

Um repórter na montanha mágica: como a elite econômica de Davos afundou o mundo” (Editora Apicuri, 2015)

O livro escrito por Andy Robinson denuncia, com ironia, os males do atual sistema econômico, mostrando como a elite do 1% mais rico assegura seu futuro à custa do cidadão médio, apoiando medidas que continuam a aumentar a polarização da renda e o crescimento de sua própria riqueza. O cenário escolhido foi o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, que ocorre em janeiro de cada ano. É nesse ambiente que o “cinismo se traveste de filantropia, e o pensamento unilateral, de debate aberto”.

Sobre o autor:

O jornalista e escritor Andy Robinson nasceu nos arredores de Liverpool, em 1960. É formado em Ciências Econômicas pela London School of Economics e em Jornalismo pela Escuela de Periodismo UAM – El País. Começou sua carreira jornalística no final da década de 1980, com uma série de artigos sobre o Reino Unido, publicados pela revista catalã El Mon. Traduziu “Barcelonas”, de Vázquez Montalbán.

Andy foi colaborador de diversos jornais, como o The Nation e The Guardian. Entre 2001 e 2008, foi correspondente do La Vanguardia, em Nova York. Já na Espanha, trabalhou para Cinco Días, Business Week, The New Statesman, Ajo Blanco, Blue print e Vogue. Atualmente é “correspondente itinerante” para o mesmo jornal, onde escreve o blog Diario Itinerante.

 Divulgação

Um repórter na montanha mágica: como a elite econômica de Davos afundou o mundo

Andy Robinson

Editora Apicuri

ISBN: 9788583170365

Número de páginas: 224

R$ 39,00