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Rio de Janeiro, 8 de agosto de 2022


Cidade

Liberdade e esperança em reabilitação

José Augusto Martini - Do Portal

10/11/2008

 José Augusto Martini Pedro (nome fictício) segue a mesma rotina há 11 meses. Levanta-se às seis da manhã, lava o rosto, troca de roupa e anda até uma pequena capela para rezar o terço. Depois de um breve descanso vai trabalhar na horta ou na manutenção do Sítio Liberdade, uma clínica de reabilitação de dependentes químicos situada numa região montanhosa perto de Teresópolis. Outros 57 internos dividem as tarefas na fazenda, que tem capacidade para receber até 60 pessoas. A religiosidade se faz presente no período de recuperação, que dura 12 meses, e o dia que começa com uma oração em grupo termina com uma missa noturna.

Pedro tem 22 anos e começou a usar drogas aos 11, a mesma idade com que fez sexo pela primeira vez. “Andava com um grupo mais velho que me influenciou bastante. Mudei meu visual e passei a freqüentar shows de rock. Depois disso não parei mais de usar drogas, e olha que não tinha nem 12 anos”, contou Pedro, que diz “estar no caminho”, termo usado pelos internos para se referir àqueles que estão cumprindo o programa.

Assim que chegam à fazenda os internos ficam três meses num período de triagem no qual permanecem afastados e não têm direito às visitas mensais. Roberto (nome fictício) tem 24 anos e passou por outras dez clínicas de reabilitação antes de conhecer o Sítio da Liberdade. “Tinha muita raiva, se alguém me olhava torto na rua já ia para cima”, disse Roberto, que ao chegar não queria ficar, mas depois de dois meses internado mudou sua opinião: “Agora não quero sair”, revelou.

Pedro e Roberto têm a mesma visão a respeito das drogas: “elas são boas”. O que para muitos pode parecer politicamente incorreto ou sugerir um desvio devido ao vício recente, para eles soa como natural. “Claro que a droga é boa, se não fosse não teríamos tanta gente usando. O problema é que o que ela traz de mal não compensa aquele momento de prazer”, explicou Pedro, que tem dificuldade em enumerar a quantidade de drogas que experimentou.

“O grande problema das drogas está na compulsão”, afirmou Padre Eduardo, Coordenador da Pastoral Anchieta da PUC-Rio.“O cara já perdeu tudo e não tem medo de se abrir e se mostrar por inteiro”, contou o Padre, para quem a transparência das pessoas na fazenda é o que mais chama atenção. Para ele, a diferença em relação a uma clínica de reabilitação tradicional é que no Sítio a pessoa não recebe medicamentos durante o tratamento. A expectativa é a de libertar o usuário de qualquer tipo de compulsão.

 A PUC, por meio da Pastoral Anchieta, possui um sistema de visitas mensais ao Sítio. Os alunos da universidade têm a oportunidade de encarar uma realidade, que muitas vezes, está mais próxima de suas vidas do que eles tendem a aceitar. A aluna de Pedagogia  Tâmer Fonseca é quem organiza os encontros. “As pessoas que vão querem conhecer essa realidade”, contou Tâmer, que foi pela primeira vez há dois anos. A estudante de Psicologia Maíra Costa, 18 anos, surpreendeu-se ao chegar à fazenda. “Achei que ia encontrar pessoas fechadas e eles foram muito receptivos. São pessoas normais”, disse.

O Sítio Liberdade está ligado ao projeto da Fazenda da Esperança, que conta com 32 comunidades no Brasil e nove no exterior. O projeto surgiu em 1964 e foi oficializado em 1970. Desde 2007, com a visita do papa Bento XVI  à Fazenda da Esperança de Guaratinguetá, interior de São Paulo, o número de pedidos de internação aumentou e a espera por uma vaga dura até três meses.

Depois de cumprido o período de reabilitação, muitos ex-internos juntam-se aos Grupos Esperança Viva. No Brasil são mais de 50 GEVs, como são chamados, que acompanham jovens e famílias sob tratamento ou na lista de espera. O objetivo é partilhar suas experiências e dar continuidade às práticas religiosas. Os GEVs desempenham atividades de prevenção, de re-socialização e de preparação para internação. “O exemplo deles mostra um caminho do bem. O percurso é difícil, mas o resultado pode ser medido pela mudança que cada um passa”, contou Tâmer Fonseca.

 O dia é de festa. Além de ser dia de visitas, é dia de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira da casa principal da fazenda. Pedro tem outros motivos para comemorar: falta um mês para completar seu período de internação. Depois de tanto sacrifício, ele começa a planejar como será voltar para a sociedade. Pedro não tem muitos planos, mas sonha a cada momento com os que têm: andar de moto e dar um mergulho no mar. E o futuro? “Quero voltar para minha mulher que está me esperando e tentar fazer faculdade de medicina”, revelou, com ares de quem terá uma segunda chance. O recém-chegado Roberto vislumbra em Pedro o seu próprio futuro, quer chegar até o fim do processo. Depois de terminado, Roberto pretende seguir carreira no jornalismo, mas ele sabe que isso é um sonho ainda distante. Uma estrada de terra batida os trouxe até o sítio. A mesma estrada que os levará à conquista desses sonhos.