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Rio de Janeiro, 20 de maio de 2024


Cultura

O Rio de Artur Azevedo, entre o erudito e o popular

Gisele Ferreira - aplicativo - Do Portal

25/11/2014

Gisele Ferreira

Nascido em São Luís, o jornalista, cronista e teatrólogo Artur Azevedo (1855-1908) deu voz a personagens cotidianos do Rio de Janeiro na virada do século XIX. Encantada com a visão do escritor sobre o Rio e suas representações da cidade no teatro, a professora Tatiana Siciliano, do Departamento de Comunicação da PUC-Rio, dedicou a ele sua tese de doutorado em antropologia. Agora, ela detalha o olhar do escritor sobre a cidade no livro O Rio de Janeiro de Artur Azevedo: cenas de um teatro urbano, que será lançado nesta quarta, dia 26, na livraria Timbre, no Shopping da Gávea.

O livro de Tatiana percorre um Rio em processo de transformações urbanas, com grande influência das grandes capitais europeias como Paris, Viena e Barcelona, num desejo de que a cidade se tornasse uma metonímia do Brasil e uma vitrine do país para os estrangeiros. Para a autora, o posicionamento das elites da belle époque, a favor das mudanças, contrasta com a de hoje:

– Assim como ele, toda a elite letrada da época de Azevedo aderiu ao projeto civilizador. Hoje essa elite não adere mais. Ela critica projetos como o Porto Maravilha e os megaeventos que, em comum com o século XIX, continuam querendo propagar a ideia do Rio de Janeiro como vitrine para o exterior.

Apesar de defensor do projeto de urbanização - teve papel fundamental, por exemplo, para a construção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, apoiando o prefeito Pereira Passos -, Artur Azevedo ironizava situações e personagens do cotidiano carioca, como em Guanabarina, peça de teatro de revista escrita em parceria com Gastão Bousquet, que fazia uma retrospectiva de 1905.

– Ele brincava com os fatos mais marcantes do ano, que eram dramatizados no palco. A febre amarela, recorrente durante a virada do século XIX para o XX, era retratada na peça com humor, como uma espécie de Casseta & Planeta – compara.

O humor era a marca do escritor ao retratar tipos populares do ambiente social. “Ele dá voz a essa multiplicidade de atores sociais que a gente tem”, comenta a carioca Tatiana, que se surpreendeu com a atualidade dos temas e o carisma do escritor ao ver crianças assistindo a cenas curtas que Arthur Azevedo publicou, entre 1904 e 1908, em sua coluna “Teatro a vapor”, reproduzidas no espetáculo Encontros de Machado de Assis & Artur Azevedo, na Academia Brasileira de Letras:

– As peças fizeram os meninos rirem! As pessoas continuam achando engraçado, porque na verdade ele faz piada com questões culturais que persistem na nossa sociedade.

O sucesso das montagens resultava na popularização de canções, antes mesmo da chegada do rádio:

– Pequenas estrofes das peças mais famosas eram cantaroladas nas ruas. As pessoas sabiam de cor, de tanto que viam os teatros da revista de ano.

Embora o teatro fosse o meio de comunicação de massa da época, Artur também era conhecido por suas publicações em jornais. Tatiana explica que a oralidade foi importante para o jornalista se tornar popular também nesse meio: “Esquecemos que muitas pessoas eram analfabetas, mas quem não era lia para o outro”, lembra a pesquisadora. De acordo com a Diretoria Geral de Estatística, no período de transição do século XIX para o XX, mais de 70% da população brasileira era analfabeta.

Conhecido por transitar entre a elite letrada e as camadas mais populares, com peças teatrais que retratavam a linguagem popular carioca, Artur teve um papel importante no teatro de costumes do Brasil. O cronista foi o fundador da cadeira 29 da Academia Brasileira de Letras cujo patrono é Martins Pena, um dos precursores do gênero.

“Ele foi um dos primeiros a se posicionar como um ‘comunicador de massas’, tornando-se conhecido pelos meios mais populares da época: o teatro e o jornalismo”, escreve a autora no capítulo Entre o literário e o jornalístico: o efêmero e o trivial como matéria prima literária, registrando que Azevedo desempenhou importante papel de mediação entre categorias culturais e sociais distintas, não só ao trazer a linguagem das ruas para os palcos, mas também como jornalista, numa época em que o jornalismo e a literatura não se diferenciavam – até porque boa parte dos escritores se sustentava trabalhando na imprensa:

– É preciso lembrar que o jornalismo tinha fortes características literárias. Só a partir da década de 50 começa a ser mais objetivo, mais arrumado, com uma orientação mais americana.

Um dos motivos que mobilizaram Tatiana para pesquisar e escrever o livro sobre Artur Azevedo foi tentar entender por que um autor tão importante é tão pouco lembrado atualmente. Para a pesquisadora, os críticos têm um importante papel na construção da memória popular. Embora Azevedo tenha escrito mais de 200 peças, hoje os arquivos do escritor organizados pela Funarte só contam com pouco mais de mil páginas:

– Considerando o sucesso que fez no século XX e o volume de produção de arte dramática, pode-se dizer que ele foi um dos maiores autores da época. Fiquei intrigada sobre como uma figura tão importante teve esse apagamento, e acredito que o fato de ele trabalhar com elementos da cultura embrionária de massas abriu uma brecha que resultou no seu esquecimento por parte da crítica.