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Rio de Janeiro, 20 de maio de 2024


Cultura

Pesquisador fala da musicalidade e do temperamento de Tim Maia

Felipe Castello Branco - aplicativo - Do Portal

27/11/2014

 Divulgação

No início do livro Vale Tudo – O som e a fúria de Tim Maia (Ed. Objetiva, 2006), Nelson Motta conta que a filha ganhou um gatinho e deu a ele o nome de Tim Maia. Ao saber da homenagem, o músico exultou: “Já sei, porque é preto, gordo e cafajeste!”. Baseado no livro de Motta, o filme Tim Maia, do diretor Mauro Lima, enfoca a vida do astro desde a infância pobre na Tijuca até sua consagração, expondo traços de sua musicalidade e personalidade, fatores que, respectivamente ajudaram e atrapalharam sua vida, interrompida aos 56 anos, em 1998, por complicações de um edema pulmonar. De temperamento explosivo, transgressor, debochado e exagerado, Tim Maia era, ao mesmo tempo, amoroso, romântico, terno e sensível. Mas, se a personalidade do Síndico era controversa e polêmica, sua musicalidade é reconhecida unanimemente.

– Tim Maia, definitivamente, era um ser musical. Não teve uma formação musical própria, então as coisas eram muito intuitivas, no feeling. Os sons estavam na cabeça dele. Ao longo de suas composições, ele já imaginava a pegada do baixo, a levada da guitarra, as frases dos sopros. A sua musicalidade era total – afirma o historiador e pesquisador de música brasileira Paulo Cesar de Araújo, professor de cultura brasileira na PUC-Rio e autor dos livros Eu não sou cachorro, não: música popular cafona e ditadura militar (Record, 2002), Roberto Carlos em detalhes (Planeta, 2006), biografia do “Rei” censurada após ação movida por Roberto Carlos; e O réu e o rei (Cia. das Letras, 2014).

Apesar de ter tido contato com a música desde cedo – aos 14 anos formou seu primeiro grupo –, Tim Maia não teve uma formação musical propriamente dita. Ainda assim, conseguia imaginar os fraseados de cada instrumento, que passava depois à banda. Se a genialidade como músico contribuiu para que alcançasse o sucesso, seu temperamento quase punha tudo a perder. Tim arrumou diversas confusões ao longo da vida. Ainda na adolescência, nos Sputniks, grupo formado em 1957, brigou com Roberto Carlos e os outros integrantes, Arlênio Lívio, Edson Trindade e Wellington Oliveira.

Paulo Cesar enxerga em Tim Maia um homem à frente do seu tempo. Por ter tido uma experiência no exterior, foi influenciado por estilos sequer ouvidos por aqui. Aos 17 anos, Tim teve a oportunidade de ir para os Estados Unidos, e ouvir o rock e o soul diretamente nas suas matrizes musicais. O rock ele já havia conhecido no Brasil – diferentemente da Zona Sul, que ouvia jazz e musicais da Broadway, no fim dos anos 50, ouvia-se Little Richard e Elvis Presley na zona norte – mas o soul e R&B eram estilos totalmente novos. Exatamente nessa época, nomes como Stevie Wonder estavam surgindo e a soul music ganhava cada vez mais força. Obviamente, Tim ficou deslumbrado e consolidou suas influências mesclando o rock, velho conhecido, à soul music. Ao retornar ao Brasil, ele percebeu que nada do que ele ouvia era tocado aqui. O historiador acredita que isso atrapalhou Tim no seu retorno:

– Quando voltou ao Brasil, Tim chegou com todas aquelas músicas em primeira mão. Aquilo que o pessoal da Tijuca só viria a conhecer anos depois, ele já tinha ouvido e já tinha na cabeça. A soul music ainda não tinha força no Brasil. Isso, de certa forma, o deixou meio deslocado. As pessoas não entendiam direito o que ele queria, e Tim achava ultrapassado o que se ouvia aqui.   

Outra experiência trazida dos Estados Unidos foi o consumo de drogas:

– Conforme todos os depoimentos que já ouvi, a galera da Tijuca não usava e sequer tinha contato com drogas. Roberto, por exemplo, era a imagem do careta. Quando Tim voltou ao Brasil, já doidão, as pessoas aqui ainda estavam no cuba libre. Mais uma vez, ele acabou sendo diferente e, de certa forma, à frente do seu tempo: somente nos anos 70 é que o consumo de drogas se espalhou entre músicos no Brasil.

O exagero de Tim Maia

O consumo avassalador de drogas denunciava outra característica da personalidade de Tim Maia, o exagero:

– A quantidade de comida era exagerada, as paixões e relacionamentos eram conduzidos de forma exagerada e o consumo de drogas também era exagerado – afirma Paulo Cesar, lembrando que o vício ocasionou sucessivas ausências em shows e compromissos, questão que, para o pesquisador, poderia ter sido abordada de maneira mais contundente no filme: – Acho que o filme poderia ter explorado mais a questão da ausência do Tim nos shows. A sua falta de comprometimento, diretamente ligada ao consumo abusivo e descontrolado de drogas. Foram diversos shows, programas de televisão e outros compromissos. E não havia sequer a preocupação de avisar.

Paulo Cesar lembra que, durante a fase em que foi adepto da Cultura Racional, o exagero de Tim ficou evidente no momento em que ele abriu mão de toda a sua vida para se dedicar à religião. “Ele obrigou todos a lerem o livro e usarem roupas brancas e vigiava se os músicos estavam fumando ou bebendo.” Por outro lado, Paulo Cesar ressalta que o período em que Tim ficou sem usar drogas contribuiu para a sua performance impecável no álbum Racional (1976):

– Quando conheceu o Universo em Desencanto, Tim, de forma exagerada e radical, bem ao seu estilo, parou com todas as drogas. Isso funcionou para ele como uma clínica de recuperação. Deixou a voz dele limpa, leve. É perceptível que nesse disco ele está cantando de forma espetacular – observa.

Também ao seu estilo, o Síndico rompeu com a Cultura Racional da mesma forma com que entrou: radical e exagerado: “Ele saiu de um radicalismo para outro”, afirma Paulo Cesar. Após se sentir enganado, Tim desprezou o disco e não cantou mais aquelas músicas.

 Divulgação “Na vida a gente tem que entender que um nasce para sofrer, enquanto o outro ri”

Emotivo, expressava sua sensibilidade em suas composições. “Tim costumava dizer que as pessoas tinham que sofrer para fazer uma música”, observa Paulo Cesar. Sua música nascia de uma dor e tristeza que ele vivia intensamente. Azul da cor do mar, lembra o jornalista, nasceu dessa forma:

– Ele estava morando de favor, sem dinheiro, gordo, se sentindo feio, sem fazer sucesso... E ali, naquela solidão, ele olha para aquele quadro na parede com uma mulher nua e pensa que “na vida a gente tem que entender que um nasce para sofrer, enquanto o outro ri”.

Paulo Cesar ressalva que, nessa época, final dos anos 60, o desespero de Tim era grande: todos os seus amigos da Tijuca já eram história na música brasileira. “E ele, sabendo do seu potencial como músico, cantor e compositor, não tinha nada”. Para piorar, em 1966, auge da Jovem Guarda, ele foi preso por tentativa de roubo – uma mesa de uma loja na Tijuca, para comprar drogas, como conta Paulo Cesar em Roberto Carlos em detalhes. E ouviu, do rádio da cadeia, os amigos fazendo sucesso.

Mágoa de Roberto

A carreira de Roberto Carlos começara a se consolidar no fim de 1965, início de 1966, com Quero que vá tudo para o inferno. Ao sair da prisão, em 1966, Tim procurou Roberto em busca de ajuda para se inserir no mercado musical e, sem conseguir a assistência que procurava, se sentiu desprezado pelo amigo. Para Paulo Cesar, essa negativa é compreensível, uma vez que, apesar do sucesso, Roberto Carlos ainda estava começando a carreira e não tinha ainda grandes perspectivas para o futuro. E Tim tinha justamente acabado de sair da cadeia:

– Os próprios assessores do Roberto o orientaram nesse sentido. Era natural um cuidado com Tim Maia, que estava envolvido com drogas, tinha acabado de sair da cadeia e já tinha arrumado diversas confusões no meio musical.

Para o pesquisador, o temperamento do “Síndico” atrapalhou sua carreira principalmente antes do sucesso:

– Tim sempre foi explosivo. Brigou com o Roberto e os Sputniks, bateu de frente com o produtor Evandro Ribeiro, na CBS, brigou com divulgador de disco... Isso dificultou as coisas para ele nos anos 60. Todos ficavam receosos de trabalhar com Tim, e ele ainda não era famoso nessa época. Pelo talento que tinha, era para ter estourado muito antes. O temperamento dele, com certeza, atrapalhou sua carreira.

Paulo Cesar, que assistiu ao filme Tim Maia a convite do Portal, aponta um episódio que foi alterado, do ponto de vista historiográfico, e corrige:

– A música que estoura Tim Maia não foi Azul da cor do mar. Tim Maia se tornou Tim Maia com a música Primavera, de Cassiano, que não aparece no filme. Do sucesso do single Primavera é que ele fez o disco onde estava Azul da cor do mar, mas isso foi subsequente.

Para o pesquisador, também, o filme explicita demasiadamente o aspecto do temperamento de Tim, mas recomenda especialmente para as novas gerações:

– Até demais, desde a cena do ensaio com os Sputniks, quando ele quebra o violão na igreja, até a cena em que ele manda o oficial de Justiça para aquele lugar. Por outro lado, é necessário frisar que não é um filme fácil de fazer. Não é possível contar a história de uma vida inteira em duas horas e meia. Temos que dar todo o desconto, nesse sentido. Acredito que as pessoas que não conheceram Tim Maia saem do filme com uma boa ideia de quem foi este artista e da sua grandeza.

 

Tim Maia, o filme

Gênero: Drama

Direção: Mauro Lima

Roteiro: Antônia Pellegrino, Mauro Lima

Elenco: Alinne Moraes, Babu Santana, Cauã Reymond, George Sauma, Laila Zaid, Luis Lobianco, Marco Sorriso, Robson Nunes, Tito Naville, Valdineia Soriano

Produção: Rodrigo Teixeira, Rômulo Marinho Jr

Fotografia: Eduardo Miranda, Ulisses Malta Jr.

Trilha Sonora: Berna Ceppas

Duração: 140 min.

Ano: 2014

Estreia: 30/10/2014 (Brasil)

Distribuidora: Downtown Filmes / Paris Filmes

Informação complementar: Adaptação do livro Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia