Projeto Comunicar
PUC-Rio

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

Rio de Janeiro, 15 de junho de 2024


Cidade

"Em cidades inteligentes, trabalha-se em casa"

Paula Laureano - Do Portal

30/09/2014

 Paula Laureano

Infraestrutura de banda larga é a precondição para que uma cidade seja considerada inteligente. Para que exista um território integrado e organizado, as cidades precisam ser digitais, ter uma rede pública de transmissão de voz, dados e imagem. Com base nessa visão, o seminário “Cidades Inteligentes”, realizado nesta quinta-feira, no Hotel Marriott, em Copacabana, contou com a presença de especialistas que apresentaram caminhos para que o Rio de Janeiro se torne uma cidade mais dinâmica e interligada. Para o sociólogo italiano Domenico Di Masi, uma revolução inteligente seria a que exigisse menos deslocamentos, em que o trabalho fosse feito em casa e a amizade, com os vizinhos:

– As cidades precisam adotar essas medidas o mais breve possível. Caso contrário, elas vão enlouquecer.

Di Masi acredita que todo trabalho executivo poderia ser feito em casa, por Skype, por exemplo. Para ele, os indivíduos possuem motivos “eróticos” para irem trabalhar, por precisarem de contato e do encontro para viver. O tempo de deslocamento que perdemos no trânsito, a caminho do trabalho, nos impede de criar, de pensar em bens imateriais como serviços, símbolos, valores, estética e arte, indispensáveis para a sociedade em que vivemos:

– Estamos indo em direção a um mundo em que o trabalho executivo será eliminado, ocupará menos de um décimo da vida. Iremos dispor de 265 mil horas de tempo livre. Temos que pensar no que fazer para ocupá-lo, para evitar o tédio – afirmou Di Masi.

Segundo o sociólogo, em 2020 um chip será do tamanho de um neurônio, custará menos de US$ 20 e terá uma potência superior a todos os computadores do Vale do Silício. No bolso, transportaremos toda a cultura: livros, filmes, músicas. Se na Idade Média a cultura era produzida por poucos para poucos – de um músico para o rei –, e, no século 20, de poucos para muitos – um cantor para milhares de espectadores –, em 2020 a cultura produzida será de muitos para muitos. Todos vão poder fornecê-la e consumi-la.

Na opinião do italiano, os brasileiros terão mais facilidade para se adaptar a esse novo sistema, já que há uma “reserva de paixão pelo tempo livre”. Os americanos que terão dificuldade, segundo ele, pois estão muito acostumados a trabalhar.

Será necessária uma verdadeira formação, mais do que estamos habituados a nos preparar para o tempo de trabalho. Estudo, trabalho e lazer serão confundidos durante as 24 horas do dia, o que Domenico di Masi chama de ócio criativo.

Logo, as cidades vão ter que se adaptar a todas essas transformações. Ser inteligente, estar conectada, com trajetos rápidos não será uma opção, mas uma necessidade. Quando questionado por um integrante da plateia sobre o que os grandes países podem fazer para se adaptar a essa mudança, Di Masi citou o caso da China e da Índia.

-Na China, antigas fábricas estão virando ateliês. Na Índia, muitas escolas estão tirando o sotaque indiano do inglês que falam.

Sobre em que o Brasil erra e o que acerta, com relação à formação de uma cidade inteligente, Di Masi elogiou a arquitetura brasileira e a construção de Brasília como cidade planejada. No entanto, criticou o uso intenso de aviões para curtas distâncias. Para ele, o trajeto Rio-São Paulo deveria ser feito de trem, como na Europa.

– Não se usa mais avião para distâncias curtas em nenhum lugar. É antiquado, um atraso cultural! O tempo que se perde até chegar ao aeroporto, até embarcar... É uma loucura! 

As apostas de Di Masi para 2020

Segundo estudo realizado pelo sociólogo, em 2020 a população mundial (que hoje é de quase 8 bilhões) terá 1 bilhão a mais de pessoas, explosão decorrente do avanço da medicina e do aumento da expectativa de vida.

A maioria das pessoas só ficará “velha” nos dois últimos anos de vida, nos quais gastarão com despesas farmacêuticas o equivalente ao dinheiro gasto com remédios durante toda a vida.

- Poderemos entrar em contato com qualquer pessoa em qualquer lugar do planeta a qualquer momento;

- Será a era da teleaprendizagem, do teletrabalho, do teleamor, da telediversão;

- Aumentará a obesidade, devido à falta de movimento;

-  A falta de contato pessoal tornará o mundo mais abstrato;

- O conceito de privacidade sofrerá transformação radical, tenderá a desaparecer;

- Será cada vez mais difícil esquecer-se, perder-se, entediar-se e isolar-se;

- Graças à farmacologia, poderemos alterar nossos sentimentos;

- Em 2020, o PIB per capita no mundo será de US$ 15 mil, contra os atuais US$ 8 mil, mas o Ocidente vai dispor de 15% a menos do próprio poder de compra. O PIB da China será como o dos EUA. Hoje, os países emergentes crescem mais do que os países ricos. Nenhum dos europeus está entre os maiores produtores do mundo (Estados Unidos, China e Japão). O trabalho aumenta mais do que o número de trabalhadores: “Logo, logo, jovens vão terminar seus estudos e não vão achar trabalho!”

- O Primeiro Mundo vai conservar a supremacia na produção de ideias. Os países emergentes produzirão, sobretudo, bens materiais. Já o Terceiro Mundo fornecerá matérias-primas e mão-de-obra barata. O mundo será mais rico, mas continuará desigual. 70% dos trabalhadores estarão no setor terciário, onde a vantagem competitiva depende da confiabilidade e da qualidade do trabalho. Portanto, a sociedade será mais honesta e menos violenta do que aquela industrial: “Para ter sucesso, vai ser preciso se comportar como damas e cavalheiros”.

- Um chip será do tamanho de um neurônio, custará menos de US$ 20 e terá uma potência superior a todos os computadores do Vale do Silício. No bolso, transportaremos toda a cultura: livros, filmes, músicas. Se na Idade Média a cultura era produzida por poucos para poucos – de um músico para o rei –, e, no século 20, de poucos para muitos – um cantor para milhares de espectadores –, em 2020 a cultura produzida será de muitos para muitos. Todos vão poder fornecê-la e consumi-la.

- As mulheres viverão três anos a mais que os homens e serão 60% dos universitários, pós-graduados e mestres. Elas estarão no centro do sistema social e os valores “femininos”, como subjetividade, emotividade, flexibilidade serão dominados também pelos homens.