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Rio de Janeiro, 5 de junho de 2023


Campus

Histórias de um correspondente estrangeiro

Gustavo Coelho - Do Portal

06/02/2009

Quando era adolescente, Marcos Uchôa parecia não mostrar aptidão para uma carreira específica. Tentou sociologia e medicina, mas desistiu. Demorou seis anos para tirar o diploma de comunicação. “Fui um mau aluno”, admitiu. Com o tempo, a paixão pelos livros e pelas viagens o transformou. Conheceu o jornalismo e deu início a uma trajetória profissional que o levaria ao redor do mundo e ao centro de acontecimentos que marcaram época. Em palestra do curso de telejornalismo do Globo Universidade, parceria com a PUC-Rio, ele dividiu com os estudantes um pouco da experiência como correspondente da TV Globo em Londres, onde morou por 11 anos. Neste período, cobriu fatos como a Guerra do Iraque, o surto da Gripe Aviária na Turquia e o terremoto que deixou quase 75.000 mortos no Paquistão em 2005. Nenhuma cobertura foi mais emocionante, segundo o repórter, do que o tsunami da Ásia, em 2004:

– Mesmo dez dias depois, ainda havia corpos sendo recolhidos como coleta de lixo – lembrou Uchôa – Tinha um cheiro horrível. Via crianças, mulheres e homens sozinhos, na esperança de encontrar um ente querido. Como repórter, eu ficava chocado e constrangido.

Considerada uma das mais eficientes coberturas internacionais da história recente do jornalismo, a série de reportagens sobre o tsunami reforçou a habilidade em equilibrar pragmatismo e emoção e em garimpar histórias além da notícia. Competências construídas, no caso de Uchôa, pelo contato precoce com culturas e línguas estrangeiras. Por circunstâncias familiares, morou boa parte da infância e da adolescência fora do país. Tornou-se poliglota. Fala sete idiomas além do português: inglês, espanhol, francês, italiano, alemão, russo e chinês.

Os dotes de poliglota e a visão de mundo ajudam, mas o olhar reflexivo do repórter mostra-se soberano. Onde quer que esteja, o jornalista garante que o seu principal objetivo é “colocar as pessoas para pensar com as matérias”. Na cartilha da cobertura internacional, orientou Uchôa aos estudantes, um dos mandamentos é não se arriscar, não confundir ousadia jornalística com licença para a irresponsabilidade. Em alguns casos, o improviso e a criatividade tornam-se armas indispensáveis:

– Já precisei passar por turista para fazer uma passagem da matéria em um aeroporto. Não podia ficar muito tempo exposto ali. O cinegrafista fingiu que estava me filmando de brincadeira por um tempo. Aí, de repente, eu fiquei sério, fizemos a gravação e saímos logo. Não dá para ser guloso nessas horas.

O repórter perdeu a conta de quantos países visitou: “Na última vez que tentei contar, passou de 90”, revelou. Na cobertura de conflitos e tragédias, ressaltou ele, a busca do equilíbrio é uma dos principais desafios do profissional:

– Durante a cobertura não existe essa de jornalista-herói. Não estamos lá para aproveitar o conflito.

Depois de 11 anos na Inglaterra, Uchôa levou em conta os pedidos da família e voltou para o Brasil. “Um país fora do comum”, avalia.

– Os brasileiros não se dão conta de como aqui é um lugar especial, onde se pode conversar com as pessoas tranqüilamente. Sempre senti muita saudade do Rio. Fora do país, minha vida profissional era rica, mas a social era seca. Voltei porque aqui é muito melhor.

Três perguntas para Marcos Uchôa

Portal: O senhor realizou numerosas coberturas internacionais importantes, em dezenas de países. Qual a mais representativa?

Uchôa: A que mais me marcou foi a do Tsunami. Aqui ali foi muito forte. Nem na guerra vemos tanta gente morta.

Portal: Como um repórter internacional divide o tempo entre trabalho e família?

Uchôa: Fui um pai ausente muitas vezes e lamento isso. Cheguei a pedir demissão da Globo em 1998, depois da Copa. Fiquei um tempo levando as crianças na escola, namorando minha esposa, pagando essa dívida impagável. Para eles, foi muito difícil.

Portal: Quais são as qualificações necessárias aos jovens que desejam seguir a carreira na área internacional?

Uchôa: É preciso ler e estudar muito. A Europa, por exemplo, requer uma dose de leitura imensa para entender a lógica do continente. Há muita informação que você só aprende estudando. Em livro, não internet, que é mais para buscar informação sem filtro.