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Rio de Janeiro, 8 de agosto de 2022


Cidade

Barulho, trânsito, favelização: dramas de Botafogo

Juliana Royo - Da sala de aula

17/02/2009

 Juliana Royo

Obras por todos os lados, buracos, calçadas estreitas e não raramente ocupadas por pivetes. Estas são as aflições de moradores de Botafogo, um redutos notívagos mais tradicionais da cidade. De dia, o barulho - dos motores de ônibus, das buzinas impacientes, do apito dos guardas de trânsito, das britadeiras - torna-se uma constante. Sintoma, para muitos habitantes, do crescimento desordenado.

Só em 2007 foram licenciados 182.419 metros quadrados para a construção de 46 prédios. Adicionada às poucas áreas de lazer e à manutenção precária de ruas e calçadas, a expansão provoca, segundo a presidente da Associação de Moradores de Botafogo, Regina Lúcia Chiaradia, uma sensação de desordem urbana, .

– A lei é burra. Permite a construção civil, mas não diz como, não limita. Ela é voraz, não quer saber se a rede de esgoto está sufocada ou não. Botafogo está tão saturado que não tem condição de manter seus pedestres na calçada: metade tem que andar na rua.

Botafogo é o bairro mais antigo da cidade. Foi no morro Cara de Cão, aos pés do Pão de Açúcar, que, em 1565, Estácio de Sá fundou o Rio de Janeiro. Formado por casarões familiares, o bairro viu, ao longo dos anos, seus 4,8 quilômetros quadrados serem tomados por 78 mil habitantes e virarem uma coleção de lojas, edifícios, laboratórios, salas comerciais e escritórios. Só escolas, são dezoito. O estudante Pablo Davis, que cursa o sexto perído de Arquitetura na PUC-Rio, está fazendo um projeto urbano para Botafogo. Ele faz um diagnóstico de aspectos estruturais, físicos e sociais do bairro:

– São as mesmas vias de cem anos atrás. É uma infra-estrutura que foi feita no passado sem acompanhar o crescimento do bairro e, portanto, não comporta a quantidade de gente que tem hoje.

 O trânsito pesado afeta não só quem vive, mas quem passa diariamente pelo bairro. O taxista Adeílton Costa, que trabalha há cinco anos no ramo, diz que leva mais de uma hora de Botafogo à Gávea no fim da tarde. “As filas duplas na entrada e saída das escolas e a falta de estacionamentos subterrâneos são um grande problema”, justifica.

Para a professora de Engenharia de Tráfego da PUC-Rio Claudia Mont’Alvão, é preciso haver uma racionalização do transporte: “A Prefeitura tem que integrar o sistema de trânsito para que as pessoas se sintam, efetivamente, motivadas a optar pelo transporte público.” Ainda no papel, a expansão do metrô seria uma esperança para desafogar o trânsito, acredita Maria Ramos, de 46 anos, moradora do bairro desde que nasceu.

– O metrô vive superlotado, por falta de estações. Por que só cresceu no sentido Centro? O grande problema do trânsito é o famoso corredor da Barra. Quem está engarrafado em Botafogo, vai ficar no Humaitá, no Jardim Botânico e na Lagoa. Muita coisa seria solucionada se o metrô fosse construído para o lado oposto – sugere a moradora.

Mas o campeão de reclamações registradas pela Associação de Moradores remete a problemas com pivetes e mendigos. "Observo um aumento da população de rua. Os pivetes assustam e os moradores se sentem desprotegidos, porque não há policiamento nem iluminação. A verdade é que nos sentimos abandonados", reclama Regina Lucia.

Outra preocupação é o crescimento das favelas. Moradores apontam o Morro de São João e o Santa Maria como os símbolos da fevalização na área.

 – Não ouvi ninguém falando em contenção do crescimento das favelas. Espero que a situação mude com a nova administração pública – diz Pablo Davis.