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Rio de Janeiro, 8 de agosto de 2022


Cidade

Rodas de choro mantém tradição de Laranjeiras

Carolina Vaisman - Da sala de aula

07/01/2009

 Carolina Vaisman Há quem conheça Laranjeiras como o estádio tricolor. Há também quem associe o nome ao palácio, residência oficial do governador Sérgio Cabral Filho. Para algumas pessoas, Laranjeiras foi inspiração dos versos na música de Nando Reis e, para outras, é simplesmente o bairro que começa no Largo do Machado e termina no Túnel Rebouças, com as fronteiras diluídas com o vizinho Cosme Velho.

O bairro, onde nasceram e viveram personalidades como Princesa Isabel e Conde d’Eu – no atual Palácio Guanabara – e os escritores Lima Barreto, Machado de Assis e Cecília Meireles, foi palco de efervescência cultural em outras épocas. Se, naquele tempo, Laranjeiras era reconhecido pela atividade cultural de peso, pelos saraus e bailes, hoje o mesmo não é observado. “Nós temos vocação cultural, mas nenhum evento é realizado. Laranjeiras é muito parado culturalmente”, lamenta o diretor de comunicação da Associação de Moradores e Amigos de Laranjeiras (Amal), Gilson Nazareth.

As rodas de choro, aos sábados, na Rua General Glicério e, aos domingos, na Praça São Salvador, são alguns dos poucos eventos culturais organizados que atraem o público de fora. É nos arredores desta praça que a artista plástica Radda Dimittrova, moradora do bairro há 14 anos, mantém um ateliê. Para ela, a falta de incentivo à arte é visível na região. “Os espaços não estão sendo bem ocupados. As galerias, por exemplo, não dão lugar para os artistas exporem os trabalhos e as Casas Casadas, que foram restauradas, não têm nada dentro”, afirma Radda.

Motivo de impasse entre a Prefeitura e a Amal, o conjunto das Casas Casadas, na esquina da Rua das Laranjeiras com a Rua Leite Leal, foi restaurado com a promessa do secretário de Cultura, Ricardo Macieira, de acolher um centro cultural. No entanto, após quatro anos de funcionamento, a casa, sede da RioFilme, continua sem programação cultural fixa.

– Além disso, os filmes estão arquivados sem nenhuma climatização adequada e o público não tem acesso a esse material – critica Nazareth.

P ara a diretora cultural da Amal, Flora Soleto, a solução para o incremento das atividades culturais no bairro é a união de esforços entre moradores e Prefeitura. “Sem a promoção de arte e cultura, o bairro fica sem calor humano”, argumenta Flora, que também é artista plástica.

Gilson Nazareth acredita que o bairro possa abrigar uma iniciativa como o Santa Teresa de Portas Abertas, organizado mais de uma vez ao ano.

– Nossas ruas são largas e, nos fins de semana, não há trânsito pesado pelo bairro. Podemos levar cultura aos moradores e ao público de fora, assim como em Santa Teresa. É preciso mobilização dos moradores – ressalta Nazareth.

Apesar da agenda cultural relativamente morna, o bairro das Laranjeiras atrai a atenção de comerciantes de diversos ramos. As opções vão muito além da esfirra do Largo do Machado, do cachorro-quente do Oliveira, na esquina da Rua General Glicério, e do chope do Bar do Serafim, no início da Rua Alice, têm atraído o público.

– Um dos aspectos de que mais gosto em Laranjeiras é o comércio variado. Toda hora abre alguma loja nova, seja de roupa, comida ou de utensílios domésticos. Há muitas opções de lugares para encontrar amigos, por exemplo, sem precisar ir para Leblon ou Ipanema – diz a estudante Rafaela Teixeira, 21 anos, moradora do bairro desde criança.

A diversão de Rafaela só não é completa devido a problemas que considera críticos: falta de policiamento e de iluminação e grande número de mendigos. Falta de iluminação e buracos nas calçadas são empecilhos, também, no dia-a-dia de Flora. Deficiente física, ela é obrigada a transpor de muletas os obstáculos decorrestes da conservação precária. “As ruas estão esburacadas. Se eu já tenho dificuldade, imagina quem usa cadeira de rodas. Consertar essas vias é o mínimo que a Prefeitura deve fazer”, afirma Flora.