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Rio de Janeiro, 8 de agosto de 2022


Cidade

Vila Isabel luta para não desafinar

Manoella Vital - Da sala de aula

08/01/2009

 Manoella Vital

 “Com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?” Assim Noel Rosa evidenciaria uma das principais características do lugar onde viveu. Celebrizado como um bairro boêmio e conhecido como um dos berços do samba, Vila Isabel hoje desafina com a batida da vilência. Assaltos a moradores estão entre as maiores aflições. 

Com 81.858 moradores, este recanto histórico da Zona Norte pertence à IX Região Administrativa, que abrange também Andaraí, Grajaú e Maracanã. A área correspondia a uma enorme fazenda chamada Imperial Quinta do Macaco, propriedade do Barão de Drummond. Depois de mudar de nome algumas vezes, recebeu o nome atual, homenagem à princesa Isabel.

O bairro tem a urbanização inspirada nos preceitos urbanísticos franceses. Para a arquiteta Isabela Carriço, isso fica evidente na Boulevard Vinte e Oito de Setembro, com canteiro central e praças que demarcam seu início e fim. “A criação de uma avenida principal larga, que possui vias secundárias paralelas ou perpendiculares, e as alimenta com um forte comércio e outros serviços, expõe um traço francês”, explica. A arquiteta lembra que o próprio nome da avenida ("boulevard") reforça esse legado.

O modelo de organização usado no bairro possibilitou a criação de várias praças, que servem como áreas de lazer e refúgios arborizados. Esta é um dos trunfos do bairro na opinião de Edgar Fortuna, que todos os domingos leva os netos para brincar na Praça Barão de Drummond, no fim da Boulevard Vinte e Oito de Setembro. “Enquanto eles se divertem no parquinho, eu jogo cartas com meus amigos nas mesas da praça”, conta Edgar.

Outro ponto positivo de Vila Isabel é a tradição boêmia. Ainda que tenha menos bares em relação ao passado dourado, o bairro apresenta uma vida noturna sadia e sem indícios de declínio. “Não saio de Vila Isabel por nada. Aqui tem um bar em cada esquina. Não tem lugar melhor”, acredita o morador Manoel Alencar.

A boêmia se reflete também nas calçadas. Na avenida principal, um trabalho feito com pedras portuguesas marca o bairro com partituras de canções famosas, como ‘Abre Alas’, de Chiquinha Gonzaga; ‘Pelo telefone’, de Donga e Mauro de Almeida; e ‘Aquarela do Brasil’, de Ary Barroso.

 Noel Rosa dá as boas vindas no começo da Boulevard Vinte e Oito de Setembro, com sua estátua de bronze. E a imponente construção da escola de samba Unidos de Vila Isabel, reformada nos últimos meses, se despede de quem passa pela Vila da boêmia. “É samba de cabo a rabo”, afirma David Pinheiro, morador e componente da bateria. A escola desfila desde 1947 e atrai milhares de pessoas para os ensaios na sua quadra e em ruas do bairro.

Como já cantava Noel, “é cruel, é cruel este contraste que me faz ficar tão triste”. A Vila dos predicados musicais também é a Vila da insegurança. O bairro registra alto índice de assaltos e uma quantidade crescente de população de rua. A insatisfação dos moradores com o quadro de violência fez com que a CET-Rio e o 6° Batalhão da PM fizessem mudanças nas mãos das ruas mais atingidas por crimes e no patrulhamento ostensivo, respectivamente.

Para Elizabeth Melo, a situação melhorou, mas o problema não foi totalmente solucionado. “Os assaltos ficaram menos frequentes, mas ainda afligem a população, especialmente os  pedestres”. A expansão da principal favela da área, o Morro dos Macacos, é fonte de  preocupação para os moradores.