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Rio de Janeiro, 8 de agosto de 2022


Cidade

Camelôs incorporados à rotina noturna da Tijuca

Carla Magno - Da sala de aula

13/01/2009

 Carla Magno

A ronda da Guarda Municipal termina às 19h (está programada a progorragação até as 21h). Depois disso, os camelôs ocupam a calçada da Rua General Roca, na Tijuca. Há baarraquinhas de bijuterias, relógios, DVDs, CDs e até de comida asiática. Quem está de passagem tem que desviar dos consumidores. Para quem mora ali e chega tarde do trabalho estes vendedores ambulantes representam, muitas vezes, segurança.

A General Roca é uma das ruas de acesso a um dos principais centros comerciais da Tijuca, a Praça Saens Peña. Em sua esquina, o metrô ajuda a aumentar o fluxo de pedestres. Por isso, os ambulantes irregulares que invadem o passeio público depois das 19h são, geralmente, alvo de muitas críticas. Mas para a fisioterapeuta Elaine Rezende, moradora da rua, eles são bem-vindos. “O camelô não me incomoda. Para mim é bom, porque eu chego em casa depois das 22h e eles deixam a área movimentada. Então sinto-me segura.”, justifica.

Segundo o professor do Departamento de Economia da PUC- Rio José Márcio Camargo, esta simpatia aos camelôs irregulares indica a preocupação dos moradores com a segurança. “Elas acabam aceitando a ilegalidade por falha dos órgãos que promovem ou devem promover a segurança pública”, avalia.

Estudante do 5º período de Comunicação Social da PUC-Rio, Gabriela Suzano mora no bairro vizinho do Grajaú. Ela considera positivo o comércio popular: “Às vezes eu preciso de alguma coisa com urgência e a essa hora da noite só encontro aqui”. Já Daniel Oliveira, também do 5º período de Comunicação Social da PUC-Rio, conta que os camelôs aumentam o caminho até em casa. “Não dá. Eu chego de metrô às 20h e demoro mais uma meia hora desviando das bugigangas e das pessoas fazendo compras”, reclama.

De acordo com o comandante da 8ª Inspetoria da Guarda Municipal, responsável pela Tijuca, Ananias Brum, a maior parte das mercadorias é contrabandeada. A Guarda reformulou seu planejamento para concentrar maior número de agentes nas áreas de grande movimento. Mas, segundo o diretor financeiro da Associação de Moradores da Tijuca, Roberto Leandro, o combate à ocupação irregular das calçadas esbarra no horário: “Quando termina o turno e os guardas vão embora, aqui vira uma terra de ninguém.”, observa Leandro.

Cento e quinze guardas municipais fazem ronda na região que engloba os bairros de Tijuca, São Cristovão, Maracanã e Vila Isabel. Divididos em turnos, 70 deles atuam na inibição do comércio irregular das 7h30 às 18h30, e 35 atuam à noite. 

As infrações cometidas por motoristas representam outro problema da região. Neste ano, de janeiro a julho, a guarda municipal notificou 1.689 infrações de trânsito nas ruas Conde do Bonfim, General Roca e no entorno da Praça Saens Peña. Representam 45% do total de 3.724 feitas no bairro. Só a Rua Conde do Bonfim é responsável por 30% destas infrações, com 1.137 multas.

Morador da Engenheiro Enaldo Cravo Peixoto, rua que dá acesso ao Shopping Tijuca, Leandro se diz incomodado com o grande volume de táxis que, segundo ele, dificulta a passagem. “Já falamos com a CET-Rio, mas ela dá preferência ao shopping”, conta.
Para o ex-presidente da Associação de Moradores do bairro Henrique Albernaz, "não dá mais para sair à noite".

- A Tijuca virou um caos. O trânsito é insuportável. E com os camelôs misturados ao comércio, toda aquela área perto da Praça Saens Peña virou uma grande loja de suvenires. Já faz um ano que eu deixei a associação e continua tudo a mesma coisa.

Apesar dos problemas, a Tijuca guarda alguns tesouros dentro dos seus 1.006 hectares. O bairro abriga pouco mais de 160 mil habitantes e construções históricas, como a Igreja de Santo Afonso, Santa Teresinha e São Sebastião dos Capuchinhos. Elas dividem espaço, por exemplo, com escolas de samba tradicionais, como Salgueiro e Unidos da Tijuca, e com a maior floresta urbana do mundo, a Floresta da Tijuca. “Ter aqui do lado uma enorme e bonita área verde é muito bom”, anima-se Walkyria Fonseca, de 83 anos, há 30 no bairro.