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Rio de Janeiro, 20 de maio de 2024


Cultura

Os caminhos de um biógrafo: Paulo Cesar em detalhes

Sheyla Santos* - aplicativo - Da sala de aula

23/05/2014

  Ligia Lopes

O réu e o rei é o sugestivo título do novo livro do historiador e jornalista Paulo Cesar de Araújo. Depois do sucesso de Eu não sou cachorro, não, publicado em 2001, e da censura em 2007, com Roberto Carlos em detalhes, lançado pela editora Planeta, o professor do curso de Comunicação e MPB da PUC-Rio revela, agora pela Companhia das Letras, os bastidores de seus 15 anos de pesquisa sobre a música brasileira.

– Neste livro eu conto essa experiência: os caminhos de um biógrafo. Meus encontros com Waldick Soriano, Tom Jobim, Caetano Veloso, Milton Nascimento, além das diversas tentativas de entrevistar Roberto Carlos.

Quando o assunto é a pesquisa sobre a história da música brasileira, e consequentemente sobre Roberto Carlos, a trajetória de Paulo Cesar pode ser comparada aos caminhos percorridos por Gay Talese. Como o jornalista norte-americano, célebre por ter escrito sobre Frank Sinatra sem nunca tê-lo entrevistado, o professor e historiador também teve que trabalhar sem contato com o rei.

– Por 15 anos tentei entrevistá-lo. Participei de entrevistas com Roberto, mas nunca uma entrevista exclusiva. Poderia mesmo pedir minha inclusão no Guinness Book, tenho tudo documentado. Respostas dos empresários, dos secretários, e-mails, fax, sempre dizendo “Roberto está viajando”, “Roberto está gravando”, “Roberto está rezando”. Em nenhum momento eles disseram “Não, Roberto não vai dar uma entrevista”.

Enquanto esperava, PC Araújo era recebido por toda a música brasileira. De Waldick Soriano a João Gilberto, todos os encontros estão registrados no livro.

– Nesse percurso, até João Gilberto, que não dá entrevista para ninguém, me recebeu.

 Divulgação A história de Paulo Cesar com a música brega começou ainda na infância, em Vitória da Conquista, Bahia, sua cidade natal. Mas seu caminho como pesquisador teve início num ambiente bem conhecido dos estudantes da PUC-Rio: o busto do Kennedy, nos pilotis da universidade.

– Eu me lembro que estava ali nos pilotis da PUC quando alguém passou na hora do almoço  e me falou da morte de Luiz Gonzaga. Foi quando me deu um estalo. Eu já vinha comprando discos, eu já lia e comprava discos, mas para uso pessoal. ‘Caramba, morreu Luiz Gonzaga!’, e os amigos diziam “e daí?“. Eu estava ali, olhando o busto de Kennedy, e pensei: o Kennedy está aí, a memória de Kennedy está viva, mas o Rei do Baião não. Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, não ressoa aqui na PUC.

Depois da morte de Luiz Gonzaga, Paulo Cesar conta que outro fato que lhe inspirou na pesquisa foi a morte de Raul Seixas.

– Logo depois morreu Raul Seixas. Aos poucos fui refletindo sobre isso, sobre a questão da memória da música. Naquele momento Raul também estava em baixa, não era esse ícone de hoje, pelo contrário. A ideia começou aí, e nesse caminhar fui definindo as coisas.

Formado pela PUC-Rio em Jornalismo e pela UFF em História, e mestre em Memória Social pela UNI-Rio, Paulo Cesar encontrou dificuldades para pesquisar o tema. Embora populares – Agnaldo Timóteo apareceu 13 vezes na lista dos maiores vendedores de LPs do país, uma vez mais que Chico Buarque –, não foi tarefa fácil encontrar referências sobre cantores românticos na época. Havia um vácuo sobre a música brega no país.

– Quando fiz uma análise da minha bibliografia, vi vi que não havia nada publicado sobre Roberto Carlos, nada sobre música brega. Então pensei: tenho que contribuir de alguma forma falando daquilo que ninguém quis falar, pelo que ninguém se interessou, que não foi considerado relevante para os historiadores que até então tinham publicado.

  Ligia LopesE é este percurso que Paulo Cesar, por meio de O réu e o rei, vem contar. Seu último livro, Roberto Carlos em detalhes, revolucionou a produção editorial de biografias. Lançado em dezembro de 2007, a publicação vendeu 60 mil exemplares em menos de um mês, até ser retida por um processo aberto por Roberto Carlos. Graças a acordo com a editora Planeta – que o autor contesta judicialmente –, Roberto reteve 11 mil exemplares impressos do livro de Paulo Cesar, que hoje só vê seu livro disponível na Internet, reproduzido informalmente por seus leitores. Começou a escrever há cinco anos, já na Companhia das Letras. 

Afora a campanha nacional pela liberação das biografias, que encontrou eco no Congresso Nacional (leia mais abaixo), a advogada e especialista em Direitos da Imagem Deborah Sztajnberg, que representa Paulo Cesar, aponta erros na forma como o acordo foi fechado, e ficou provado que o escritor foi excluído daquele processo. O texto judicial, na verdade, dirigia-se à editora, e não ao autor.

Embora acredite que O réu e o rei constitucionalmente não será censurado, pois “não se pode impedir uma pessoa de escrever sobre si mesma” (aqui, o que diz a lei de Direitos Autorais vigente), Deborah não teme um possível embate.

– Paulo Cesar era muito inocente, não tinha advogado e não tinha uma editora o amparando – compara, destacando a parceria do editor Luiz Schwarcz. – Desta vez, se um processo vier a acontecer, o que nem acho que vá, porque houve um desgaste muito grande à imagem do cantor no último processo, não tem problema. Se ele quiser partir para a briga, como ele mesmo diz, “pode vir quente que eu estou fervendo”.

* Reportagem produzida no Laboratório de Jornalismo.

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