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Rio de Janeiro, 15 de junho de 2024


Campus

A habilidade de distribuir o jogo das notícias

Gabriela Ferreira - Do Portal

17/10/2008

Carlos Jardim seria o que o futebol consagrou como maestro. Aquele camisa 8 responsável pela distribuição do jogo, pelo encaixe perfeito das peças. A bola dele é a notícia. No curso de telejornalismo do Globo Universidade, em parceria com a PUC-Rio, o editor-coordenador dos telejornais de rede da TV Globo explicou como as reportagens são distribuídas de acordo com as características de cada telejornal.

– O Bom Dia Brasil, por exemplo, é um jornal-revista. O Hoje é mais variado, fala muito para as donas de casa e é carregado de serviço. Já o Jornal da Globo, no fim da noite, tem um público formado, em boa parte, por empresários e universitários. Por isso, apresenta uma linguagem mais sofisticada e elaborada – justificou o jornalista.

Ele contou aos estudantes que as decisões sobre as pautas dos telejornais começam cedo: os encaminhamentos e as respectivas diretrizes são feitos a partir de reuniões no início do dia – embora possa haver mudanças, à medida que novos fatos importantes se desenrolam.

O planejamento revela-se o grande aliado na luta contra o tempo. As reportagens são selecionadas em função dos perfis de cada jornal, à exceção das chamadas “factuais” – programadas, em princípio, para todos os telejornais, porém com tratamentos distintos.

Nas produções diárias, a jóia da coroa é o Jornal Nacional, que se mantém entre os programas de maior audiência da emissora. A audiência maciça, observou Jardim, aumenta a responsabilidade na seleção das matérias:

– Quem assiste ao jornal é a família brasileira. São as pessoas que chegaram do trabalho, são crianças, avós. O JN fala para todo o Brasil. Esta característica tem que guiar a escolha das pautas.

A quantidade de notícias selecionadas para o JN é enorme. Desde matérias factuais, matérias especiais e séries até pautas sugeridas por telespectadores. Como a reportagem sobre motoristas que estacionam irregularmente em vagas destinadas a deficientes físicos. Sugerida por e-mail, “tinha a cara do Jornal Nacional”.

– Nós pedimos às chamadas praças, ou seja, às emissoras afiladas, que flagrassem o desrespeito em suas respectivas cidades. É um problema nacional. Depois consolidamos a reportagem com os vários flagrantes – lembrou o jornalista.

Jardim destacou também a importância de reduzir a margem de erro e assegurar o entendimento do público – o que exige desde a escolha adequada das pautas até o uso de uma linguagem clara. “Nada é fácil em TV, porque o público está de olho em você. Qualquer deslize, a casa cai”, alertou.

O compromisso com a clareza impõe aos profissionais a tarefa de aproximar assuntos que possam soar “pesados”, como uma matéria relacionada o Produto Interno Bruto (PIB), da vida real. Simplificar, eis o desafio. Simplicidade não é sinônimo de falta de ousadia, ressalvou Jardim. Ele lembrou a reportagem de Marcos Uchôa feita no carnaval carioca, na qual o repórter levou cem sambistas para o Cristo Redentor: “Uchôa foi criativo, ousado e deu certo”.