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Rio de Janeiro, 20 de maio de 2024


Cultura

As múltiplas máscaras de Batman, o herói de 75 anos

Clarissa Braga* - aplicativo - Da sala de aula

06/05/2014

 Foto Ratão Diniz

Maio de 1939: um homem com um revólver na mão luta contra o crime. Abril de 1940: vestido de cinza e desarmado, um herói e um jovem usando cores vibrantes percorrem a cidade atrás de bandidos. Agosto de 1952: um herói se veste de rosa para lutar contra o crime. Março de 1960: um vigilante e um grupo de heróis combatem um alienígena. Janeiro de 1966: uma música anuncia a entrada de herói e seu ajudante que, entre trapalhadas, salvam a cidade. Dezembro de 1980: um homem solitário luta com um chefão da máfia. Junho de 2005: um homem torturado sacrifica tudo para exterminar a corrupção e o crime organizado. Agosto de 2009: cavaleiro negro entra em hospício repleto de criminosos colocados lá por ele. Julho de 2012: homem vestindo roupas negras luta para salvar uma cidade dominada pela anarquia.

Maio de 2014: o herói completa 75 anos de existência. O herói descrito acima, curiosamente, é o mesmo: Batman. Ao longo destas sete décadas e meia, o homem-morcego passou por grandes transformações. Desde uma figura parte do universo pop até personagem exclusivo do universo nerd, Batman consegue agradar a crianças e adultos dos mais variados gostos.

O personagem foi criado por Bob Kane e Bill Finger em 1939. Em maio daquele ano, o herói fez sua estreia nos quadrinhos na 27ª edição da Detective Comics, que se tornaria mais tarde a DC Comics. Na primeira aparição, usava revólveres para lutar contra os criminosos de Gotham City. Já no ano seguinte, deixa de usar armas de fogo e assume postura contra a execução dos bandidos.

Para fazer o herói, os criadores usaram referências de personagens já existentes, como o Zorro, o Sombra (herói de quadrinhos da época) e Sherlock Holmes. Segundo Finger, nos primeiros rascunhos de Kane, Batman estava desenhado de botas vermelhas e máscara carnavalesca. Ele sugeriu então que retirasse a cor vermelha, mudasse a máscara e deu nome à identidade verdadeira do herói: Bruce Wayne.

Estudiosos do cavaleiro das trevas acreditam que a mudança logo um ano após o lançamento do personagem – de um Batman armado para um Batman que não mata – se deu por causa do clima de tensão que tomava os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Na edição de abril de 1940, o ajudante de Batman, o jovem Robin, apareceu pela primeira vez, trazendo cor e proximidade humana ao personagem sombrio e solitário ao extremo. Com o passar do tempo, o herói passou diversas vezes de vigilante sombrio e solitário a herói divertido com uma “família” de ajudantes. Por vezes os inimigos do homem-morcego eram indivíduos normais sem superpoderes, e em algumas edições, ele lutava contra alienígenas.

As diversas versões do personagem criam espaço em que qualquer um pode ter sua própria interpretação de Batman. Três fãs que participaram dessa reportagem fizeram desenhos de Batman para mostrar como veem o cavaleiro das trevas. Os desenhos são todos diferentes, cada um com uma interpretação do mesmo personagem. No ano em que completa 75 anos de existência, o homem-morcego é plural, é mutável, é muitos.

 Lucas Coimbra Hoje, a imagem mais fresca na cabeça dos fãs é a da trilogia cinematográfica do diretor Christopher Nolan: um homem torturado pela memória da morte dos pais, com um forte instinto vingativo e, principalmente, baseado no realismo. Lucas Coimbra começou a se interessar pelo cavaleiro das trevas quando viu o primeiro filme de Nolan, Batman Begins, de 2005:

– Tim Burton tinha sua visão sombria meio macabra do Batman, mas tudo parecia muito fantástico, como uma peça de teatro ou um musical da Broadway. Nolan mergulhou no Ano Um, quadrinho de Frank Miller, e saiu com uma versão mais realista do herói, incrivelmente mais sombrio do que a versão dos anos 90.

Estudioso e fã do herói, o americano Will Brooker, professor de cinema e estudos culturais da Kingston University, falou sobre esse sucesso da trilogia no seu livro Hunting the Dark Knight: Batman of the XXIst century, lançado em 2012. Segundo o professor, os fãs levam o herói muito a sério, e querem que as outras pessoas o levem a sério também. Os filmes do diretor Joel Schumacher e a série de televisão dos anos 60 de Adam West são muito criticados pelos admiradores do homem-morcego, por retratarem uma versão mais divertida e menos sombria do personagem.

Bruno Lacerda, colecionador com mais de 3 mil quadrinhos de Batman, explica a sua implicância com os filmes Batman e Robin e Batman Forever, de Schumacher:

– A versão da série dos anos 60 era assumidamente brincalhona. Já os filmes pré-Nolan eram, teoricamente, para valer. Esses eu odeio.

  Lincoln NeryO batmaníaco Licoln Nery acredita que o problema com os filmes de Joel Schumacher é que “ele tentou repetir uma fórmula que funcionava nos anos 60, mas não nos anos 90”.

Brooker defende que todas as faces do cavaleiro das trevas devam ser valorizadas, pois todas fazem parte do personagem. O carioca Eron Melo (na foto principal), que ia vestido de Batman às manifestações iniciadas em junho de 2013, reconhece a importância dessas versões mais pop. Segundo ele, “os produtos mais pops, mais leves, são importantes para popularizar o personagem”.

– Tem gente que reclama que a série Super Amigos infantiliza demais o Batman, mas acredito que é mesmo um produto infantil e que, quando a pessoa vai crescendo, vai se interessando por outros aspectos do herói.

Muitos produtos ajudam a manter viva a mítica. A maioria dos batmaníacos tem uma vasta coleção, como Lincoln Nery, dono de mais de mil quadrinhos, além de jogos de videogame, filmes e bonecos. Nery chega até a guardar copos e toalhas com ilustrações do cavaleiro das trevas.

Humanidade

Apesar de cada fã ter a sua visão preferida de Batman, todos concordam que a humanidade do herói é um ponto importante: Bruce Wayne não tem poderes. Seus pais foram assassinados na rua, e o menino vê que a negligência do Estado resultou numa tragédia. A partir dali, o milionário assumiu a missão de salvar do crime a cidade de Gotham. Para o estudante Lucas Coimbra, a força da imagem de Batman nas manifestações no Rio se deu exatamente por causa dessa realidade da história:

– Acredito que ele é o herói mais humano, até por não ter poderes. O uniforme colorido do Super-Homem faz sucesso no carnaval, mas nas manifestações a ideologia pede algo mais soturno.

Outra questão é que o cavaleiro das trevas erra, falha como nós também falhamos. Bruce Wayne é, afinal, um homem comum. A missão do herói é maior que seu instinto de vingança pela morte dos pais, porém existe o desejo de punição. É exatamente essa complexidade não maniqueísta que torna o homem-morcego tão interessante, acredita Licoln Nery:

– Como disse o ator Christian Bale: “Batman não é saudável”. Não acho que o lado vingativo diminui o heroísmo dele, pois bem e mal são conceitos mais complexos do que podemos imaginar. Gosto de ver que ele tem um lado falho, que o coloca entre nós.

Por causa de sua complexidade, Batman pode ser um personagem de desenho animado para crianças, um vigilante sombrio, e vender qualquer produto, de pizzas a mochilas, e estar nas ruas do Rio de Janeiro apoiando manifestações e protestando contra a violência da polícia. Lucas Vidal acredita que Eron Logan Melo escolheu o herói perfeito para se juntar aos protestos:

Lucas Vidal  – Ele mostra a força do símbolo, pois no momento em que Batman torna-se um símbolo em Gotham, ele deixa de ser apenas um homem, e é isso que faz com que seja tão efetivo. Ele faz tudo isso com limitações humanas, sendo para mim a melhor escolha possível entre todos os super-heróis.

Os leitores assíduos de quadrinhos de Batman ficaram recentemente preocupados com a notícia de que Ben Affleck interpretará o homem-morcego no filme Batman/Superman, que será lançado em 2015. A reação negativa foi grande: mais de 95 mil pessoas assinaram uma petição pedindo que retirassem o ator do elenco. Quando Heath Legder foi escolhido para interpretar Coringa, o arqui-inimigo do herói, no filme O Cavaleiro das Trevas, de 2008, os fãs também criticaram a decisão. A interpretação excepcional de Ledger surpreendeu não só os batmaníacos, como lhe rendeu o póstumo Oscar de melhor ator coadjuvante.

No dia 15 de novembro de 2013, um menino de 5 anos diagnosticado com leucemia teve o seu sonho realizado: ser o Batkid. Através da fundação Make-a-Wish, que realiza desejos de crianças com doenças graves, Miles Scott teve um dia de glória em São Francisco. A população da cidade participou do ato e foi às ruas aplaudir o herói e o prefeito nomeou 15 de novembro como o dia do Batkid.

Exemplos como esses servem para ilustrar como os fãs levam o herói a sério e se envolvem com a marca Batman. O herói tem conquistado espaço, também, no campo acadêmico. Em abril de 2013 a Universidade de Victoria, no Canadá, passou a oferecer o curso A ciência de Batman. As aulas tratam de como o corpo humano pode ser adaptado e melhorado, usando a história do homem-morcego como metáfora.

* Reportagem produzida para o Laboratório de Jornalismo.