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Rio de Janeiro, 20 de maio de 2024


Cultura

Roteiro de cinema projeta oportunidades

Isabella Rocha - Do Portal

14/04/2014

O mercado audiovisual é bem mais diversificado do que se imagina, vai além de direção, produção, fotografia. Em tom de incentivo aos futuros profissionais da área, o esclarecimento do cineasta Arturo Netto, professor do curso de cinema da PUC-Rio, é acompanhado da observação sobre uma oportunidade associada à produção de roteiro: o país ainda é carente nesse segmento, "e quem gosta de escrever deve aproveitar". 

– As pessoas acreditam que só exista o papel do diretor de set ou diretor de fotografia, mas não é bem assim. Temos o papel do continuista, do editor de som e imagem, roteirista e muitos outros papéis importantes nessa área. É um trabalho integrado. Não se faz cinema sozinho – observou o especialista aos cerca de 50 alunos do ensino médio reunidos, sexta-feira passada, em palestra do Departamento de Comunicação Social, no PUC por um Dia.

Depois de desmistificar o cinema como uma profissão de poucos ramos, Arturo apontou alguns dos desafios da área, como a concorrência dos vídeos avulsos na internet. Também destacou a importância, para a qualificação profissional, do casamento entre a formação teórica consistente e a infraestrutura necessária – equipamentos, estúdios, laboratório –  para o futuro cineata desenvolver as competências específicas.

Tais competências devem fazer a diferença, por exemplo, para superar a "grande concorrência" dos filmes alugados nas videotecas digitais e do "forte mercado clandestino":

– Hoje nossos desafios são os filmes que estão facilmente disponíveis na internet, a pirataria e a TV fechada. São fatores que dificultam o crescimento do cinema no Brasil, mas não podemos desanimar – disse o professor aos estudantes entre 15 e 18 anos, boa parte deles interessada em fazer cinema. 

Arturo destacou, por outro lado, o crescimento das produções cinematográficas brasileiras – cerca de 120 no ano passado. Ele ainda explicou a lógica globalizada da distribuição de filmes:

– Um exemplo é o filme Noé, que está nas telas agora. Este filme veio para o Brasil porque somos o país mais católico das Américas, os espectadores brasileiros irão assistir. Por isso, é importante pensarmos também no mercado para o qual filmes, séries ou novelas são vendidos.

  Com o consumo tradicionalmente alto dos filmes americanas – que respondem por 82% do mercado no país –, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) estabeleceu, pela Lei 12.485, de 2011, a obrigatoriedade de os canais fechados exibirem, por três horas e trinta minutos semanais, produções cinematográficas exclusivamente brasileiras. A norma tem de se converter em diversidade verde-amarela, frisa o professor:

– A criação da Lei tem o intuito de incentivar as novas produções brasileiras. Mostrar a nossa cultura. Não que não seja importante conhecermos filmes premiados, mas precisamos de diversidade.  

Aos futuros universitários, Arturo apontou os cuidados essenciais à profissão. Para ele, a integração do processo produtivo mostra-se imprescindível:

– Arrogância e prepotência são valores negativos no mundo do cinema. Nosso trabalho é coletivo, por isso é importante o respeito às pessoas que integram o processo do trabalho. Seriedade, comprometimento e bom humor são peças chaves para construir um nome respeitado no meio.

Outro ponto igualmente ressaltado pelo especialista refere-se à carência de salas no país: somam-se não mais do que 2.800 em todo o país, concentradas em apenas 8% dos municípios têm cinema. Assim, o professor considera estratégicas iniciativas como o programa Uma sala de cinema perto de você, do Minstério da Cultura e da Ancine, cujo onjetivo é levar o cinema para o interior do Brasil.

– Sou defensor desse projeto. O governo deve estimular a população a ir ao cinema, por meio de projetos em parceria com os municípios. Ir ao cinema é um costume que pode ser estimulado desde cedo.

Formado também em Jornalismo, Arturo reforça a importância da academia para a capacitação profissional. À formação teórica, conjuga-se a prática:   

– No curso da PUC, já no primeiro período os alunos têm que produzir um curta-metragem. Além das disciplinas teóricas, a universidade oferece condições para a prática cinematográfica, desde equipamentos como como filmadoras ou microfones até as ilhas de edições para a edição do filme – exemplifica Arturo.     

Práticas que podem ser aplicadas, diz o professor, na produção de roteiros no país. Um segmento no qual, ainda de acordo com o especialista, falta mão de obra qualificada:

– O Brasil é carente na produção de roteiro. Então, quem gosta de escrever deve aproveitar essa oportunidade – orienta – E usem as disciplinas teóricas a seu favor: quanto mais cultura melhor – recomenda Arturo aos que pretendem seguir a carreira cinematográfica.

Jovens como Talles Calvalcanti, de 20 anos, que ouvia atentamente as orientações do professor na palestra sobre os rumos e desafios do cinema. Talles largou o curso de Egenharia Eletrônica na Universidade Federal do Rio de Janeiro para se dedicar ao vestibular de Comunicação Social na PUC-Rio. "Para me tornar um  bom profissional dessa área, busco excelência de ensino", justifica.

Na palestra aos futuros universitárioss, Arturo contou um pouco da história dos irmãos Lumiere, que se confundem com o nascimento do cinema, e lembrou a vantagem de se fazer cinema sem as restrições impostas na época do regime militar:

– Hoje vocês estão em uma época de liberdade, para expor o que quiserem. Vivi a repressão, quando muitos trabalhos foram censurados. Aproveitem isso ao favor de vocês – exclamou o cineasta.