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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Eleições em Ruanda reforçam recuperação do país

Patrícia Albuquerque - Da sala de aula

16/10/2008

O novo Parlamento ruandês, eleito no último dia 15 de setembro, vai ter como principal desafio continuar a reconstrução do país arrasado pela guerra civil. Quatorze anos após o conflito entre hutus e tutsis que culminou em um genocídio que matou cerca de 800 mil pessoas, a busca pelo fim dos conflitos étnicos gerou uma campanha eleitoral amistosa. Os recentes avanços no país são incontestáveis e pouparam dos ataques da oposição o partido do presidente Paul Kagame, a Frente Patriótica de Ruanda (FPR).

A eleição foi considerada pacífica pelos observadores da União Européia e um exemplo para outros países africanos. Segundo a União Interparlamentar – uma organização internacional que promove o diálogo entre os Legislativos de diversos estados soberanos – mais de 98% dos inscritos compareceram às urnas. Sem mudanças no panorama político, a FPR conquistou 42 assentos, ou 78% do Parlamento ruandês. O resultado confirma o poder de liderança de Kagame e a força do partido tutsi, que obteve 95% dos votos na eleição presidencial de 2003.

Ruanda também é o primeiro país do mundo a ter maioria de mulheres no Parlamento. A Constituição, estabelecida após o genocídio, já garantia 30% de presença feminina no Legislativo. Mas elas foram eleitas para 44 dos 80 assentos, ultrapassando o índice de países como Suécia e Finlândia, algo significativo em um continente tradicionalmente baseado na figura do patriarca. “Especialmente em nossa cultura, homens acreditam que o lugar das mulheres é em casa, cozinhando e cuidando dos filhos. Mas as mulheres conhecem os reais problemas de uma família”, explicou a eleitora ruandesa Anne Kayitesi para a BBC.

Reconstrução e desafios

A recuperação tem sido comemorada. “No campo econômico, Ruanda vem crescendo a taxas anuais de 5% desde 2001 – mais do que o Brasil. Empresas asiáticas, principalmente indianas, estão investindo em agricultura e indústrias de transformação, aumentando as reservas ruandesas e gerando empregos”, ressalta Alexandre dos Santos, professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, especialista em África. O governo também tem aplicado políticas de combate à pobreza e de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis.

“Ruanda está pacificada e até tenta ajudar outros países problemáticos”, afirmou Steven Rwenbeho, jornalista do The New Times, ao Portal PUC-Rio Digital. “A experiência ruandesa de reconciliação nacional entre tutsis e hutus chamou a atenção de representantes dos governos do Quênia, Somália e de países dos Bálcãs, que recorreram, com aval e apoio da ONU, à experiência do governo de união nacional ruandês”, complementa Alexandre dos Santos.

Além da reconstrução, o novo Legislativo vai enfrentar desafios de política externa. As relações diplomáticas com a França, ex-colonizadora de Ruanda, estão abaladas desde 2004. O então governo francês divulgou um relatório atribuindo à FPR a responsabilidade do atentado que matou o antigo presidente ruandês Juvenal Habyarimana, em abril de 1994, fato que deflagrou a guerra civil. Dois anos depois, a corte de justiça francesa emitiu uma ordem internacional de prisão para Kagame, então líder do FPR, alegando envolvimento no atentado e os países cortaram as relações.

Em represália, em agosto deste ano, o governo de Ruanda acusou formalmente autoridades do Exército francês de participação direta no genocídio. “Esse fato tem graves conseqüências para o histórico de relações amistosas entre os governos ruandês e francês, mas, de fato, pouco afeta a economia do país, pois, desde o estabelecimento do governo de transição, no fim de 1994, o governo vem diminuindo a dependência da economia francesa, substituindo os parceiros econômicos e os investidores estrangeiros”, observa dos Santos.

Mesmo assim, o genocídio ainda tem provocado tensões internas em Ruanda. Vários sobreviventes do conflito foram assassinados este ano. As investigações não são conclusivas e algumas dessas mortes podem não ter relação com a guerra civil, mas as testemunhas se sentem intimidadas. Para Rwenbeho, a questão não é política, e sim um problema nacional. “Esse tema certamente não pode ser abordado nas eleições legislativas. Apenas dá aos novos parlamentares e ruandeses em geral um novo desafio para lidar no pós-genocídio”, conclui.

A República de Ruanda

População: 9.7 milhões (ONU, 2007)
Capital: Kigali
Área: 26.338 km2
Línguas oficiais: Kinyarwanda, Francês e Inglês
Religiões: Cristianismo e crenças locais
Chefe de Estado: Presidente Paul Kagame
Expectativa de vida: 45 anos (homens) e 48 (mulheres) (ONU)
Moeda: Franco ruandense
Economia: exportações de café, chá, peles e alumínio; e expansão do turismo
PIB per capita: US $230 (Banco Mundial, 2006)