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Rio de Janeiro, 22 de maio de 2024


Cultura

Como contar pequenas grandes histórias

Lara Aleixo - aplicativo - Do Portal

25/03/2014

 Viviane Vieira

Em meio a textos curtos e simplificados exigidos pelo dia a dia corrido e o advento da era digital, revistas no estilo literário – com reportagens profundas e detalhadas – destoam do atual cenário. Caso da Piauí, que serviu de pretexto para a jornalista Consuelo Dieguez e o documentarista João Moreira Salles, fundador da publicação, conversarem com alunos de Comunicação da PUC-Rio, quinta-feira passada, sobre os rumos do jornalismo e as armas para não ficar refém do tratamento superficial dos fatos.  "O estilo da Piauí permite fugir do jornalismo que retrata, por exemplo, o banco que quebrou”, orgulha-se a repórter, que lança nesta quinta-feira, 27, às 19h, na Travessa do Leblon, Bilhões e Lágrimas” (Portfolio Penguin/Companhia das Letras). O lançamento concentra-se em figuras da história atual do país – como Daniel Dantas, Luciano Coutinho, Sérgio Rosa – para traçar o perfil econômico do país desde a posse do ex-presidente Lula, em 2001, e compõe um painel da era petista.

Com a experiência de quem garimpa boas histórias desde a criação da revista, em 2006, Consuelo aplica no livro a profundidade adotada para dar vida às reportagens de fôlego. "O jornalista passa a ter envolvimento com o personagem, e isso faz com que se procure mais informações. A percepção muda e cada detalhe é importante para compor a história", observa.

Ao investir na produção jornalística mais detalhada, Consuelo tenta redimir o que considera uma carência de profundidade na forma com que os fatos são geralmente tratados em meio ao varal de informações velozes e superficiais. A jornalista conta que a experiência na revista mudou a maneira de de apurar as coisas:  

– Quando parti para fazer, por exemplo, o perfil do Luiz Cézar Fernandes, dono do (banco) Pactual, que tinha quebrado quatro anos antes, imaginava que todo mundo já sabia a história dele. Mas fui do mesmo jeito, e me surpreendi. Quase nada havia sido contado, apenas a parte burocrática, e não deram atenção aos dramas dele. Depois disso, comecei a reparar até em detalhes gestuais, no cenário. Esse "novo" jornalismo também foi uma grande descoberta para mim – lembra.

 Viviane Vieira Para Moreira Salles, esse tipo de apuração, mais profunda, assemelha-se ao documentário. Até pela aproximação com os personagens:

– Às vezes, demora um ano para se publicar uma reportagem, até que esteja tudo bem apurado. Nesse tempo, é natural o jornalista criar um vinculo com o personagem. Essa proximidade permite que o propósito de narrativa seja alcançado. Não tem como ser feito em apenas três dias – pondera.

Consuelo e Moreira Salles argumentam, portanto, que não há assunto esgotado, e sim abordagem esgotada, burocrática, monocromática. "A revista procura não fazer apenas dez perguntas e escrever o básico, mas ir por outro lado. Entrar no universo do personagem, como em uma viagem, por exemplo", ressalta o documentarista.

A convicção sobre a necessidade de mergulhar mais fundo nos fatos, nos personagens, esbarrava na incerteza quanto ao reconhecimento desse esforço. Como empresário, Moreira Salles admite que duvidou, da longevidade no mercado, ao criar a revista. Essa abordagem procura trazer histórias interessantes e também bem contada. "Não sabíamos nem se teríamos pessoas para escrever e para ler nossas reportagens”, confessou ele, à plateia formada por estudantes.

 Viviane Vieira A expectativa inicial variava, assim, entre cinco e dez mil leitores. Passados aproximadamente oito anos, a Piauí contabiliza 23 mil assinaturas e 40 mil leitores. O fundador considera o público "fiel", como indicam as "constantes renovações" de assinatura.

Fiel, mas muito exigente, acrescenta Consuelo. Ela diz que o leitor da Piaui exige a qualidade tanto da escrita quanto da narrativa e da apuração. "O fato de as reportagens não terem a urgência do noticiário é uma vantagem para a construção do bom texto", avalia a jornalista.  

Perguntada por uma aluna sobre a experiência em Brasília, onde, para a estudante, "o jornalismo seria diferente", Consuelo resume: "Foi uma grande escola". A capital, compara a repórter, é um “grande microcosmo” do Brasil, de tudo o que acontece não só politicamente, mas também de outras áreas da vida. Parte desta vivência desdobrou-se no livro.

Assista aqui à integra da conversa com Consuelo Dieguez e João Moreira Salles - Parte 1 e Parte 2.