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Rio de Janeiro, 22 de maio de 2024


Cultura

Beato: "Tecnologia 4K tende a ganhar o cinema nacional"

Andressa Pessanha - Do Portal

07/04/2014

 Divulgação / Site Oficial

Se pensávamos que as simples imagens em Full HD já consumavam um avanço intenso da tecnologia cinematográfica, ganha corpo algo, literalmente, maior. As filmagens em 4K de resolução desafiam a concepção tradicional de tamanho e qualidade da imagem. O recurso proporciona uma dimensão quatro vezes maior à do FullHD: 4096x2160 pixels numa tela de cinema e 3840x2160 numa tevê. Mas a principal vantagem, esclarece o fotógrafo Affonso Beato, é o casamento entre um padrão cromático superior ao digital, próxima ao da película, com a rapidez de edição. "Desde que o 4K seja aplicado a um fluxo de trabalho adequado, conhecido como Aces", ressalva Beato, que usou tais atributos na direção de fotografia de O Tempo e o Vento (Brasil, 2013), de Jayme Monjardim. Animado com o pioneirismo, ele enxerga um futuro colorido para o 4K. (Leia a reportagem sobre as principais características desta tecnologia.)

– Fiquei maravilhado. Não só pela câmera que adota a ultraresolução 4K (F65), mas também por inaugurar o processo chamado Aces, que possibilita um melhor aproveitamento do fluxo de trabalho e, portanto, dessa tecnologia – destaca – Desenvolvido pela Academia Americana de Cinema, o processo garante que tudo o que você filmou fique até o fim. Faz a imagem digital ficar no topo, sem perda – explica Beato, em conversa com o Portal, antes da palestra que se seguiu à exibição daquele filme, quinta-feira passada, numa parceria entre a PUC-Rio e a Associação Brasileira de Cinema (ABC).

 Divulgação / Site oficial A fotografia generosa de O Tempo e o Vento mostra que o entusiasmo de Affonso Beato com a nova tecnologia não é excessivo. A aproximação com a qualidade cromática da película, aliada às vantagens dos recursos digitais, abrem caminho para o 4K ganhar a indústria. Pioneiro na filmagem integral de um longa-metragem com a Sony F65, o fotógrafo brasileiro detalha o benefício cromático da inovação:

– A câmera dá a impressão de que se filmou com película. A F65 tem um sensor 8K (quatro vezes superior ao 4K), 16 bits e três canais, de maneira que a transformação da imagem analógica em digital assume uma profundidade de 65 mil cores por cada canal. 

Ainda assim, ressalva o especialista, a película reproduz com mais fidelidade a imagem real. Todavia, exige um tempo maior de edição e é mais vulnerável ao risco de perda de material gravado. Como a resolução 4K propicia uma qualidade visual próxima à da película, reduz acentuadamente o risco de reda de material e torna o processo de edição mais rápido e acessível, aposta-se no uso crescente desta tecnologia pelo cinema brasileiro, prevê Beato. Até porque, segundo o fotógrafo, 98% das produções nacionais já são digitais. "À medida que ficar mais acessível, o cinema brasileiro vai adotá-lo", projeta.

O avanço facilita as produções audiovisuais, pois encurta preparo do filme. O acesso à edição, por ser digital, diminui a necessidade de grandes laboratórios e abre a oportunidade de se editar em casa, desde que, claro, haja os equipamentos necessários. Isto significa economia de tempo e dinheiro. "O fazer cinema foi simplificado", sintetiza Beato, em tom de incentivo aos futuros cineastas.

Mal a tecnologia 4K chega ao mercado, já se ensaia o passo adiante: transmitir em 8K. Por enquanto, esta resolução ainda maior segue em teste. Foi usada numa gravação, em janeiro, no Japão, mas espera-se que esteja integralmente disponível para as Olimpíadas de 2016, no Brasil.

Embora ressalte as facilidades da tecnologia digital, ora impulsionada pelo 4K, Beato pondera: é necessário qualificação para utilizá-la "com maestria". Ele adverte:

–  Se você não tiver um curso superior, se não tiver informação sobre a área digital, você não vai entender a diferença entre uma (câmera) 4k e 8k. Agora saiu no mercado uma 4k que custa 3 mil dólares e outras que custam 10 mil, 30 mil e 100 mil. Claro que há diferenças entre câmeras com do mesmo tipo de resolução, porque 4k é só a resolução. Não basta ter talento. É preciso estudar, fazer escola de cinema, para se extrair o máximo das novas tecnologias – orienta.

 Andressa Pessanha O primeiro filme gravado com a resolução 4K, a câmera F65 e o fluxo de trabalho Aces foi Depois da Terra (2013), do indiano M. Night Shyamalan. Os efeitos visuais, entretanto, não foram produzidos em 4K, o que reforça o pioneirismo cinematográfico de O Tempo e o Vento, gravado inteiramente naquela resolução. 

Beato conta que conheceu a novidade "numa palestra" na PUC-Rio, há aproximadamente dois anos, e pouco depois veio ao Brasil (segue carreira nos Estados Unidos desde 1970) para testar a novidade tecnológica em partes da gravação dos desfiles carnavalescos, para a Globo, em 2012. Ele reitera a importância da reciclagem tecnológica:

– Se o diretor quer ser competente e completo, tem que entender dessas coisas. Tem que manter o nível de informação tecnológica sempre em andamento. Eu tenho 73 anos, e não paro de estudar. Eu ensino, mas eu tenho que me atualizar o tempo todo. É uma dinâmica intelectual, de aprendizado constante.