Projeto Comunicar
PUC-Rio

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

Rio de Janeiro, 24 de junho de 2024


País

Dom Orani Tempesta, o cardeal da comunicação

Danilo Azevedo, Mariana Totino e Jana Sampaio* - aplicativo - Do Portal

13/01/2014

 Tania Rego

“Quando a Igreja se descuida da proximidade com os fiéis, é como uma mãe que se comunica com seus filhos por carta”, disse o papa Francisco logo que foi pontificado. A dois meses de completar um ano no cargo, o papa nomeou 19 cardeais, entre eles o arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta. A escolha é vista como sinal de fortalecimento desta aproximação. Assim como o sumo-pontífice, Dom Orani é conhecido por ter o perfil de um pastor comunicativo e sempre presente nas comunidades arquidiocesanas.

Segundo o cardeal emérito de Brasília Dom José Freire Falcão, o novo cargo deixará Dom Orani mais próximo do seu povo, a exemplo do pontífice, mesmo acumulando outras funções:

— A nomeação vai aumentar sua presença junto ao povo. Cardeal é o posto, a maior dignidade é representar o Rio de Janeiro. Ele terá bastante tempo, também, para ser cada vez mais próximo dos fiéis. Ele procura ir até o povo com sua simplicidade e simpatia. A igreja não pode dispensar os meios de comunicação, mas também deve ter o contato direto com as populações, sobretudo as mais necessitadas, não só do ponto de vista material, mas do ponto de vista espiritual também. E Dom Orani tem uma dupla qualificação, se aproxima das pessoas e também dos meios de comunicação.

Embora já esperassem a nomeação de Dom Orani, a escolha de apenas um brasileiro como cardeal surpreendeu tanto Dom Falcão como o reitor da Ponticífia Universidade Católica de Petrópolis e ex-reitor da PUC-Rio, padre Jesus Hortal:

— Do Brasil, havia a possibilidade de nomear o arcebispo de Salvador, Dom Murilo Krieger. Dom Orani tem uma dupla vantagem, por causa da Jornada Mundial da Juventude e do seu perfil popular. Apareceram pessoas do mundo inteiro na JMJ, e seu perfil pastoral também ajudou. Ele é extremamente aberto, vai a todos os lugares. A agenda dele é uma loucura. Acompanhei uma parte da Trezena de São Sebastião e vi isso. Ele está sempre em contato com o povo, semelhante ao Papa Francisco — ressalta o ex-reitor, que lembra ainda que Dom Orani costuma atualizar a sua página no Facebook e enviar torpedos pelo Iphone, mesmo muito ocupado.

  Tomas Silva/Agência BrasilNa visão de nomes da Igreja e de especialistas, a nomeação reflete ainda tendências atuais da Igreja Católica, como a atividade mais forte na América Latina — que teve outras quatro indicações para cardeais eleitores (Chile, Argentina, Haiti e Nicarágua). Para o teólogo e professor da PUC-Rio França Miranda, as características conciliadoras de Dom Orani são genuínas e importantes para a Igreja:

— Ao mesmo tempo que assume uma função, Dom Orani tem ainda o lado humano. Está fazendo o que ele é. Em Belém, quando foi arcebispo da cidade, ele já ia a todos os cantos. Nunca recusa convites. O lado da comunicação também ajuda o bispo com maior formação na área. No mundo inteiro é importante ter boa comunicação. É uma área que a igreja está precisando.

O futuro cardeal tem facilidade de diálogo e experiência em comunicação. Já trabalhou como coordenador do setor da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e é presidente da TV católica Rede Vida. Em Belém, Dom Orani participava constantemente do Círio de Nazaré, assim como estava à frente da Trezena de São Sebastião — 13 dias de bênção anteriores ao aniversário do padroeiro da cidade do Rio — quando recebeu a notícia da nomeação.

Como o cardeal Dom Cláudio Hummes completará 80 anos este ano, irá perder o direito de votar nos conclaves. Se mais um brasileiro fosse escolhido como cardeal, o Brasil aumentaria seu número de eleitores no colégio cardinalício.

— Era esperada a nomeação dele, pela importância da sede episcopal do Rio de Janeiro. Mas realmente me surpreendeu ter sido só ele nomeado do Brasil, para que o colégio cardinalício representasse melhor a universalidade da igreja — pondera Dom Falcão.

O padre Jesus Hortal destaca a expansão da Igreja Católica para outras partes do mundo:

— A geografia da Igreja mudou. O peso da Europa era forte. A maior parte dos católicos estava lá. Hoje, há comunidades em desenvolvimento na África e em algumas partes da Ásia. Foram nomeados cinco cardeais da América Latina, um do continente asiático e um do africano. O peso do que era periferia está se impondo. A América Latina representa mais de 40% dos católicos. Com a tradição dos ibéricos na América Latina, países como Angola, Moçambique, Filipinas, são mais de 60% dos católicos do mundo. 

Escolha de Dom Orani a cardeal é esperada por fiéis há cinco anos

“A minha missão a partir de agora será de grande responsabilidade. Peço a Deus que me dê o dom de bem representar o Rio e o Brasil como cardeal”. A fala de Dom Orani Tempesta, após o anúncio de sua nomeação como cardeal pelo Papa Francisco, na tarde de domingo, durante o Angelus, resume a nova fase da trajetória eclesiástica do arcebispo do Rio de Janeiro. Sua nomeação tem sido esperada por fiéis desde 2009, quando assumiu a arquidiocese fluminense. Uma das novas funções a partir de fevereiro, quando receberá, ao lado de outros 18 arcebispos, o barrete cardinalício, será a de agir como conselheiro do Vaticano e trabalhar pela preservação dos fundamentos da fé católica.

Divulgação  Tradicionalmente comandada por cardeais, a arquidiocese fluminense é uma das maiores do Brasil, ao lado de São Paulo e Salvador. O clérigo foi o único brasileiro na lista de Francisco e suas proximidades ideológicas com o Santo Padre na busca de uma Igreja mais pastoral são apontadas como decisivas para o novo momento da Igreja: “É um novo momento da Igreja em que os desafios do mundo contemporâneo fazem com que se possa repensar e ao mesmo tempo encontrar caminhos para que essa igreja que o papa Francisco fala possa estar cada vez mais próxima das pessoas”, ponderou Dom Orani  em visita à Igreja da Ressurreição, em Copacabana. Apesar do anúncio, o arcebispo manteve a agenda de compromissos em várias comunidades cariocas pela Trezena de São Sebastião, padroeiro do Rio.

Considerado por especialistas um grande evangelizador, o arcebispo alcançou visibilidade inédita por seu papel na organização da Jornada Mundial da Juventude, em julho de 2013, e esteve ao lado do papa durante todas as atividades públicas. O sucesso do evento, que contou com a presença de 3,5 milhões de peregrinos do mundo inteiro, serviu também para reafirmar o Brasil do país com o maior número de católicos do mundo.

Paulista de São José do Rio Pardo, dom Orani foi escolhido bispo para a diocese de sua cidade em 1997 e depois arcebispo de Belém em 2004, antes de ir para o Rio. Sua influência se consolidou por sua participação em rádios, jornais e emissoras de TV. Monge da Ordem Cisterciense, conciliou o trabalho de gestor com a função de apresentador de rádio e televisão, e  foi presidente da Comissão Episcopal para a Cultura, Educação e Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Em consonância com o discurso do Santo Padre, o arcebispo especialista em comunicação sempre buscou a aproximação entre o evangelho e as mídias de grande alcance para manter um vínculo mais estreito com os fieis. É presidente da emissora católica de TV Rede Vida e atua em conselhos de comunicação, como o do Congresso Nacional.

Jornada Mundial da Juventude com o novo Papa

Arcebispo do Rio de Janeiro desde 2009, Dom Orani Tempesta ganhou notoriedade em 2013 à frente da Jornada Mundial da Juventude, o primeiro compromisso internacional do papa Francisco, que reuniu no Rio de Janeiro cerca de 3,7 milhões de peregrinos de diversas partes do Brasil e do mundo.

Julia Cople  O arcebispo do Rio acompanhou o papa Francisco em toda a peregrinação pela cidade, desde sua chegada ao aeroporto do Rio. O Santo Padre também teve a companhia de dom Orani em sua estadia no Sumaré.

Dom Orani celebrou a missa de abertura da JMJ, que reuniu 400 mil pessoas. O evento contou com mais de 60 mil voluntários de mais de 130 países.

Ao longo do evento, Dom Orani administrou problemas como o alagamento do Campo da Fé, em Guaratiba, e a transferência das celebrações para a Praia de Copacabana, que precisou se estruturar na véspera da vigília. Além disso, houve contratempos com transportes públicos, como os ônibus lotados e a falta de organização no metrô. No entanto, as intempéries não desanimaram os peregrinos, mais de 3 milhões de jovens compareceram a vigília.

Cardeais brasileiros

Francisco anunciou 19 novos cardeais neste domingo, 12, durante o Angelus, na Praça de São Pedro. Os cardeais são escolhidos pelo papa, e compõem o topo da hierarquia da Igreja. Eles são considerados os “príncipes” da Igreja Católica, e podem ter funções administrativas no Vaticano. Além disso, até os 80 anos, eles participam do Conclave, uma reunião secreta com o objetivo de escolher um novo pontífice.

Além de Dom Orani, o Brasil possui nove outros cardeais em atividade. Destes, quatro são eleitores: Dom Raymundo Damasceno Assis, 76 anos, arcebispo de Aparecida, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e membro do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais e da Pontifícia Comissão para América Latina, na Santa Sé; Dom João Braz de Aviz, 66 anos, prefeito da Cúria Romana e arcebispo-emérito de Brasília; Dom Cláudio Hummes, 79 anos, prefeito emérito da Congregação para o Clero e presidente do Conselho Internacional de Catequese; e Dom Odilo Pedro Scherer, 64 anos, arcebispo de São Paulo.

Os outros cinco são Dom Geraldo Majella Agnelo, 80 anos, arcebispo-emérito de Salvador, que pediu renúncia por idade;  Dom Serafim Fernandes de Araújo, 89 anos, arcebispo-emérito de Belo Horizonte; Dom Paulo Evaristo Arns, 92 anos, arcebispo-emérito de São Paulo e protopresbítero do Colégio Cardinalício; Dom José Freire Falcão, 88 anos, arcebispo-emérito de Brasília; e Dom Eusébio Oscar Scheid, 81 anos, arcebispo-emérito do Rio de Janeiro, que não podem participar da eleição.

Dos 21 brasileiros já nomeados cardeais, seis foram arcebispos do Rio de Janeiro, entre os quais se destacam Dom Orani; Dom Eusébio, Dom Eugênio de Araújo Sales (1920-2012), Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti (1850-1930), Dom Sebastião Leme da Silveira Cintra (1882-1942) e Dom Jaime de Barros Câmara (1894 - 1971).

  Arquivo PortalDom Eugênio (foto), natural do Rio Grande do Norte, dedicou-se a funções eclesiásticas por 69 anos, 30 deles à frente da Arquidiocese do Rio de Janeiro.  “Ele soube estar presente nos principais momentos do Brasil, na questão dos refugiados, na defesa dos perseguidos. Lembramos de sua atuação na questão das favelas, ajudando os mais necessitados. Foi alguém que nunca deixou a fidelidade ao seu amor à Igreja e ao Santo Padre”, declarou Dom Orani quando o colega morreu de infarto, em 2012.

Também foram cardeais brasileiros Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta (arcebispo de São Paulo), Augusto Álvaro da Silva (arcebispo de Salvador), Agnelo Rossi (arcebispo de São Paulo), Alfredo Vicente Scherer (arcebispo de Porto Alegre), Avelar Brandão Vilela (arcebispo de Salvador), Frei Aloísio Lorscheider (arcebispo de Fortaleza) e Frei Lucas Moreira Neves (arcebispo de Salvador).

Leia aqui reportagem da nomeação de Dom Orani como arcebispo do Rio.

Colaboraram Clara Freitas, Isabella Rocha e Viviane Vieira.