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Rio de Janeiro, 14 de junho de 2024


Cidade

Favela Metrô-Mangueira: três anos de espera

Yzadora Monteiro* - Da sala de aula

08/01/2014

 Yzadora Monteiro

Durante a manhã desta terça-feira, um grupo de moradores da Favela Metrô-Mangueira, próxima ao Maracanã, Zona Norte da cidade, voltou a fechar a Avenida Radial Oeste e a entrar em confronto com policiais militares, que usaram gás de pimenta e bombas de efeito moral para conter os manifestantes. O protesto terminou no fim da manhã com uma pessoa detida. À noite, houve novos confrontos. Avaliada como área de risco, a favela está na lista de obras da Prefeitura, que começou a transferir famílias em 2010.

Serão reassentadas 637 famílias, para dar lugar ao Polo Automotivo da Mangueira. Boa parte delas foi para a Zona Oeste, e as moradias desocupadas começaram a ser invadidas por usuários de drogas e moradores de rua. Quem ficou reclama do abandono, da desinformação e da demora no cadastramento. Apesar de o processo de desocupação ter se iniciado há quatro anos, há quem ainda não saiba o que está acontecendo.

O lento processo de mudança trouxe problemas que até então não existiam na comunidade. Francisco Eumar, de 46 anos, conta que só aceitou se mudar porque os assaltos aumentaram e a quantidade de usuários de drogas ocupando o que restou das casas demolidas assusta:

– Todos os dias, na hora de fechar o bar, tenho que tirar toda a mercadoria com medo de ser roubado à noite.

Os moradores que ainda não foram encaminhados para as moradias do Minha Casa, Minha Vida aguardam a construção de outro conjunto habitacional no Bairro Carioca, em Triagem, a 10 quilômetros de distância.

A Prefeitura alega que a área, um trecho de terreno entre a Avenida Radial Oeste e a linha férrea, num total de 21.600 metros quadrados, é inadequada para ocupação residencial. A via tem intenso tráfego de veículos.

As desapropriações iniciaram-se em 2010, embora o decreto que cria o centro de comércio e serviços tenha sido publicado no fim de setembro deste ano. Eumar lembra de ter sido acordado uma quinta-feira de outubro com a proposta “Cosmos, abrigo ou rua”, conta. 104 famílias aceitaram se mudar imediatamente para o Condomínio Varese, em Cosmos, Campo Grande, distante 60 quilômetros da comunidade. Eumar continua na casa, próximo ao seu bar, mas aceitou se mudar para o Mangueira I.

– Eu tinha minha mãe e minha mulher, não dava para largar tudo de uma hora para outra – conta.

Os conjuntos habitacionais Mangueira I e Mangueira II, na mesma região da favela do Metrô, passaram a abrigar 462 famílias pelo programa Minha Casa, Minha Vida, financiado pela Caixa Econômica Federal. Cândida, de 63 anos, se reveza entre o apartamento no Mangueira I e sua antiga casa. Alega que prefere conviver com infiltrações em um lugar com três quartos a ter que se apertar no apartamento:

– E é perto do meu comércio, gosto de estar junto do meus clientes – completa.

Ela é dona de um bar e vende refeições bem servidas aos moradores e trabalhadores da comunidade por R$ 10. Nos meses de grande movimento, ganha até R$ 5 mil. Orgulhosa, conta que é conhecida por sua carne assada, mas prefere cozinhar carne seca com abóbora. O entra e sai de pessoas comprova a popularidade.

– Todo mundo me conhece aqui, se eu perdesse meu comércio, tenho certeza de que reclamariam também.

Eumar e Cândida são dois dos comerciantes que fogem do perfil de negócio do lugar. A maioria tem oficinas automotivas. São mais de 50 oficinas de mecânica, conhecidas e frequentadas por taxistas fiéis, clientes indicados e infortunados com problemas no carro. Para os que passam no trânsito, a visão dos pneus e ferramentas, próximos à calçada da via de acesso à Radial Oeste sentido Centro, anunciam o perfil.

O projeto do Polo Automotivo da Mangueira está baseado em estudos realizados pelo Sebrae-RJ sobre a vida comercial na comunidade. Propõe a construção de 96 unidades comercias de 30 a 60 metros quadrados, além de um Parque Linear com ciclovia, parque infantil, Academia de Terceira Idade e área de skate. Prevê, ainda, amortizar os efeitos do tráfego pesado da Avenida Radial Oeste, com o plantio de 400 árvores. Ao longo das vias de acesso ao polo, estão projetadas 90 vagas de estacionamento.

 

Resistência de antigos moradores

“Quando a esmola é muita, pobre desconfia”, diz Ivausta Rodrigues, moradora da comunidade Metrô-Mangueira há 22 anos. Dona de uma loja de peças automotivas, ela tem medo do futuro e não pretende se mudar do ponto onde mora e mantém seu negócio desde 1991: “Só saio se for para o Cemitério do Caju”. Por mês, ganha até R$ 3 mil, suficiente para pagar seu funcionário, Ivair, ajudar nos estudos da neta e manter uma casa de quatro quartos em cima de sua loja.

Eumar reuniu 40 assinaturas de moradores e as entregou na Secretaria Municipal de Habitação no dia 12 de maio de 2011. O documento pedia uma data para o início efetivo das obras no local.

Lúcia da Silva, de 54 anos, se mudou em setembro de 2013 para o Metrô-Magueira a fim de fugir do aluguel que pagava no Centro. Com ela veiram a filha, o marido e mais quatro netos. O “SMH” escrito na porta da casa em que mora hoje não foi o suficiente para avisar sobre a demolição:

– Não sei de nada disso, não.

A urbanista Raquel Rolnik acredita que o problema deste tipo de reorganização passa por questões dos direitos à moradia adequada.

– O reassentamento distante da cidade limita o acesso do antigo morador à informação e aos meios dos quais ele tirava seu sustento – explica. – A resistência comprova que moradia adequada não se constitui de quatro paredes e um teto, e sim do acesso à participação da vida urbana – avalia a urbanista.

A Secretaria de Habitação informa que os moradores que quiserem se inscrever no programa de reassentamento precisam preencher um cadastro disponível na primeira página do portal da Prefeitura. A documentação necessária é pedida pela Caixa quando a família já está indicada ou sorteada para o seu imóvel. Os que não possuírem os documentos recebem ajuda para obtê-los. São eles: identidade, CPF, carteira de trabalho, comprovantes de estado civil, de renda, de residência, cartão do Bolsa Família, título de eleitor, último extrato bancário, e cartão de aposentadoria ou pensionista, quando for o caso. Depois, é preciso aguardar.

* Reportagem produzida para a disciplina Laboratório de Jornalismo.