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Rio de Janeiro, 24 de abril de 2024


Cultura

JFK: a experiência do fim

Arthur Ituassu*

22/11/2013

 

Se há um Winston Churchill na história política norte-americana, este é John F. Kennedy. Não que ele tenha sido o melhor orador entre os presidentes dos Estados Unidos. Um embate com Abraham Lincoln seria, muito provavelmente, desvantajoso a JFK. De qualquer forma, algumas semelhanças aproximam Kennedy de Churchill, certamente dois dos políticos mais importantes do século XX.

Como Churchill, Kennedy quebrou tradições. Se o ex-primeiro-ministro atacou as regalias da aristocracia britânica, JFK foi, na história, o segundo candidato católico a presidente dos Estados Unidos e o primeiro a ser eleito, numa nação de ampla maioria protestante. Kennedy também enfrentou o velho racismo do Sul – depois de muita pressão, é verdade – e foi o presidente eleito mais jovem da história norte-americana, aos 43 anos, quase 27 anos mais moço que o seu antecessor, Dwight Eisenhower, quando este deixou o cargo. É verdade que Theodore Roosevelt chegou à Casa Branca mais novo que Kennedy, aos 42 anos, mas Ted, como era conhecido, não foi eleito presidente, mas vice-presidente e tomou posse depois do assassinato de William McKinley, em 14 de setembro de 1901.

Como Churchill, Kennedy tinha pretensões literárias e era adepto da historiografia amadora. O norte-americano não alçou voos tão altos quanto o britânico, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, em 1953, mas JFK foi agraciado com a principal comenda literária dos Estados Unidos, o prêmio Pulitzer, em 1957, com o livro Profiles in Courage. Não à toa, ele escreveu um compêndio sobre a coragem de certos políticos norte-americanos do passado, que enfrentaram o senso comum e mudaram seu tempo com propostas inovadoras. 

Como Churchill, Kennedy foi a encarnação política do espírito de liderança. Os discursos de JFK, por exemplo, publicados pela Zahar, com contextualização histórica do professor Robert Dallek e de Terry Golway, são fonte preciosa de uma época em que o mundo esteve à beira do precipício. (Dallek talvez seja o principal historiador vivo da Presidência americana, autor também do sensacional Nixon e Kissinger: Parceiros no poder, que conta a novela da relação desses dois personagens, brincando de deuses na Terra durante a Guerra Fria.)

Afinal, durante o curto mandato de Kennedy, Estados Unidos e União Soviética estiveram envolvidos direta ou indiretamente na invasão frustrada de exilados cubanos treinados pela CIA à Baía dos Porcos, na Crise de Berlim e na perigosíssima Crise dos Mísseis. Nesse conturbado contexto, é difícil saber quem veio primeiro: se os fatos ou o presidente. Foi a postura agressiva de Kennedy na campanha à Presidência e nos primeiros anos de governo que gerou respostas soviéticas à altura? Ou JFK foi pego pelo destino, tendo que carregar o fardo de uma contenda atrás da outra durante os poucos anos em que esteve na Casa Branca?

Na verdade, Kennedy acendeu o pavio da Guerra Fria. Desde os primeiros momentos de sua campanha, atacou o então presidente Eisenhower supostamente por permitir que os soviéticos tivessem passado à frente dos Estados Unidos tanto na corrida armamentista quanto na espacial, sendo que apenas na segunda isso era verdade.


Apesar de não ter sido o mentor do plano de retirada de Fidel Castro do poder e de não ter envolvido as Forças Armadas norte-americanas na invasão da Baía dos Porcos, JFK estava ciente do fato e deu luz verde à operação comandada pela CIA. Para muitos historiadores, a Crise dos Mísseis e o quase desastre ocorrido na viagem-teste apressada do primeiro submarino nuclear soviético, o K-19 (conhecido como o “fazedor de viúvas”, ou “Hiroshima”, pela Marinha russa, e cuja história foi transformada em filme com Harrison Ford), foram respostas da linha-dura no Kremlin à agressividade de Kennedy, talvez necessária a JFK internamente, para contrapor as questões levantadas por seu catolicismo e sua juventude.

Na verdade, Eisenhower, ou Ike, como era conhecido, deixou a Kennedy uma vantagem significativa na corrida armamentista da Guerra Fria. Mesmo assim, JFK, ao tomar posse, iniciou a produção de 1000 mísseis balísticos intercontinentais, além de 32 submarinos Polaris, com mais 656 mísseis. Moscou, no mesmo momento, não tinha um submarino capaz de lançar mísseis balísticos até o K-19, que podia carregar apenas três. Na mesma época, enquanto os soviéticos tinham 50 bombardeiros que poderiam atacar os Estados Unidos lançando ogivas nucleares sobre o país, os norte-americanos tinham mais de 500, prontos para serem utilizados.


O modelo da Guerra Fria, como se sabe, não comportava tamanho desequilíbrio estratégico. Uma tentativa dos soviéticos de demonstrar poder foi tornar o K-19 operacional rapidamente, o que quase causou um acidente nuclear de proporções catastróficas. Outra foi o envio de mísseis a Cuba, no episódio que acabou conhecido nos EUA como a Crise dos Mísseis (na União Soviética como a Crise do Caribe e, em Cuba, como a Crise de Outubro).

Além disso, a política agressiva de Kennedy diminuiu a margem de negociação de Krushchev a respeito de Berlim, um impasse que vinha sem solução desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Pressionado internamente, Krushchev endureceu a posição no encontro de cúpula com Kennedy em Viena, em junho de 1961, quando o K-19 saía para a sua primeira viagem-teste. Sem acordo, a capital alemã foi dividida por um muro.

No entanto, como um personagem shakespeariano capaz de pensar sobre si mesmo e mudar seu comportamento, o Kennedy que atravessou uma sucessão de crises que poderiam ter levado a humanidade ao fim é bastante diferente daquele jovem político que buscava se impor na campanha presidencial e no início do mandato. Em 1963, quando foi assassinado em 22 de novembro, Kennedy buscava ser o porta-voz da esperança e da paz, do entendimento e da compreensão, da autorreflexão e da justiça. 

Seus dois principais discursos desse momento – “Uma visão de paz” e “A crise moral da nação” – apresentam argumentos concretos para uma vida mais justa dentro e fora dos Estados Unidos, sem que isso significasse uma deferência ao sistema comunista. No primeiro pronunciamento, por exemplo, feito em Washington em 10 de junho de 1963, JFK afirmou:

 

"Alguns dizem que é inútil falar sobre a paz mundial, ou sobre a lei mundial, ou sobre o desarmamento mundial, e será inútil até que os líderes da União Soviética adotem uma atitude mais esclarecida. Eu espero que um dia isso aconteça e acredito que possamos ajudá-los. Mas também acredito que devemos reexaminar nossa própria atitude - como indivíduos e como nação -, pois ela é tão essencial quanto a deles. Todo cidadão que reflita sobre os desesperos da guerra e queira a paz deve começar a olhar para dentro - examinar sua própria atitude em relação às possibilidades da paz, em relação à União Soviética, ao curso da Guerra Fria, à liberdade e à paz aqui neste país".

* Este texto, originalmente publicado no Blog do Ituassu, é uma versão da apresentação do autor à edição brasileira de "Uma visão de paz: Os melhores discursos de John F. Kennedy", organizado por Robert Dallek e Terry Golway e publicado pela editora Zahar.