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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Offshore Leaks: os bastidores da investigação

Júlia Cople - Do Portal

11/11/2013

 Divulgação

Foram 130 mil contas de offshore (cadernetas abertas em paraísos fiscais) investigadas de correntistas de 170 países. Os 2,5 milhões de dados de 30 anos de e-mails e documentos obtidos pelo diretor do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês), Gerard Ryle, originaram o maior escândalo financeiro da atualidade: Offshore Leaks. Após 15 meses de trabalho, as primeiras reportagens foram publicadas em abril deste ano e já resultaram na abertura de investigações oficiais de fraudes em impostos contra políticos e magnatas, entre eles a família do presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev; o primeiro-ministro da Geórgia, Bidzina Ivanishvili e os oligarcas da Ucrânia Rinat Akhmetov e Dmytro Firtash. O então ministro das Finanças francês, Jérôme Cahuzac, foi destituído do cargo. Além disso, a denúncia fez o G20 — grupo fornmado pelas 20 maiores economias do mundo — reformular sua agenda de debates sobre legislação fiscal. Para rebater as críticas de que não se tratava de jornalismo investigativo, e sim de análise de informações, Ryle, acompanhado pela diretora adjunta do ICIJ, a argentina Marina Walker, e pelo jornalista canadense Frédéric Zalac, apresentaram os bastidores da empreitada, na mesa Segredos à venda da 8ª Conferência Global de Jornalismo Investigativo, mês passado, na PUC-Rio.

Ryle diz que tudo começou "como um conto de fadas", em 2007, quando ainda trabalhava no periódico australiano The Sydney Morning Herald. Enquanto investigava uma empresa de tecnologia de combustível subitamente alçada a maior patrocinadora esportiva na Austrália, a Firepower, o jornalista recebeu dados que transpassavam sua investigação. Nesse meio tempo, aceitou o convite para dirigir o CIJ, o que contribuiu para a extração das histórias dentre os 2,5 milhões de documentos deixados em seu computador.

— Eu podia confiar, porque eram dados que se ligavam à apuração da Firepower. Mas sabia que era algo muito mais detalhado, que precisaria de mais repórteres. Não era uma história de muitos grandes nomes, e sim de um sistema global. Um sistema global quebrado — explica Ryle.

Uma história como essa, observa Marina Walker, precisa de cooperação global: repórteres espalhados pelo mundo que traduzissem quem eram as pessoas citadas. Assim, o ICIJ apostou na intuição do diretor e começou a montar a grande equipe de investigação: 86 jornalistas de 46 nacionalidades. Na busca de parceiros em veículos internacionais, algumas mídias desacreditavam, outras queriam fazer à sua maneira. Mas o consórcio tinha "uma ideia clara do que queria":

— Definimos termos de compromisso claros. Queríamos repórteres obsessivos com a apuração e bons trabalhadores em grupo. Também precisávamos que tivessem o apoio de seus chefes, para que não fossem interrompidos com sobrecarga de outras demandas — conta Marina.

Para melhor organizar o trabalho, foram designados coordenadores regionais. Formada a equipe, a diretora adjunta confessa que a preocupação "permanecia latente porque sabiam o quão teimosos e difíceis repórteres podem ser". Essa inquietação transformou-se, porém, na maior surpresa (positiva) do projeto:

— Os repórteres não esperaram o guru dos dados dizer o que aquilo tudo significava. Descobriram sozinhos como centenas de documentos estavam interligados. Ficamos todos obcecados com o trabalho, a ponto de nos isolarmos para desvendar aqueles enigmas. Nada teria acontecido sem essa colaboração. Podemos mesmo contar com os colegas.

A montagem do corpo de apuração não era a única dificuldade. Nada adiantariam os melhores repórteres, reconhece a diretora, sem um software que abrisse os documentos. A ICIJ tinha um sistema precário nesse sentido e nenhum recurso para aprimorá-lo. O problema foi resolvido quando a Nuix decidiu investir no projeto, cedendo um programa que, no mercado, custaria US$ 7 mil por pessoa.

Disponibilizados os dados, o próximo passo era começar a garimpar histórias. Zalac, o jornalista responsável pelos arredores de Washington, conta que, em princípio, tentou-se ligar 300 pessoas e empresas aos e-mails e documentos. O sucesso veio, porém, quando partou-se para o caminho contrário: olhar e "entender bem" o material, e só depois estabelecer uma conexão. Zalac enumera os principais desafios do processo:

— Havia grande variedade, muitos lugares por onde eu poderia começar. Tinha acesso a muitos e-mails enviados, mas vários não respondidos. A maioria das pessoas citadas não era conhecida e algumas não eram quem pensávamos inicialmente. Além disso, eram questões complexas, que deveríamos traduzir para o leitor de forma simples.

Os documentos, ainda que cruciais, representavam o ponto de partida da investigação. Para montar o quebra-cabeça de dados, Marina lembra que os repórteres recorreram a históricos de tribunais, registros de propriedades e companhias, entrevistas passadas, corpos de regulação: uma incansável procura pelo elo entre as pistas.

A logística de acesso aos arquivos da ICIJ acabou atrasando o processo: os atendentes não davam conta de suprir os repórteres do mundo todo com as informações que precisavam, nem todos podiam buscá-las pessoalmente no escritório, como fez Zalac. Foi então que o corpo diretor tomou a arriscada decisão de colocar os documentos online.

Conforme estudos citados pelo ICIJ, os centros offshore acumulam depósitos estimados entre 21 e 31 trilhões de dólares – entre um terço e metade do PIB anual do planeta. São 260 gigabytes de dados — 160 vezes mais que o material vazado do Departamento de Estado dos Estados Unidos pelo Wikileaks.  O Wikileaks, avalia Ryle, mudou o jornalismo, trouxe um novo jeito de olhar a notícia e mostrou "que nós jornalistas ainda somos relevantes":

– Apenas publicamos o que é de interesse público. É a oportunidade de o jornalismo voltar a fazer o que deveria estar fazendo. São informações que deveriam vir a público e, por motivos estranhos, não vêm.

Ryle pondera que o dever do repórter não deve se misturar ao das autoridades. Duvida de que "os esquemas de corrupção um dia serão extintos", mas reitera que o professional de comunicação deve continuar investigando. 

Perguntada se uma aliança com as estruturas estatais não seria uma boa opção para o financiamento e a apuração das reportagens investigativas, Marina explica por que rechaça qualquer ligação dessa natureza:

— Não fazemos essa parceria. Eles também deveriam estar investigando essas histórias. Mas tentaram nos coibir, nos processar, nos cobrar o envio dos arquivos que já tinham muito antes do ICIJ. Não somos um braço do governo.

O processo do Offshore Leaks não acabou: é possível acompanhar as novas investigações e seus desdobramentos no site do ICIJ e em seções especiais, por exemplo, do jornal inglês The Guardian e do francês Le Monde. Em sua página eletrônica, o consórcio publicou também uma série de textos e vídeos tutoriais para os que desejam aprender a apurar os mais de 100 mil documentos dispostos na internet.